segunda-feira, 27 de maio de 2013

SANTÍSSIMA TRINDADE: A VIDA NO AMOR!


Deus, na interpenetração e intercomunicação das pessoas divinas, torna-se fonte e expressão da mais vívida comunidade (1). Sem se anularem, os Três convergem um para o outro na força do amor que as pervade, gerando a comunhão em relações sempre ternárias, num ser Pessoa com as outras Pessoas e nas outras Pessoas, sem se reduzir uma às outras. Há uma unicidade e uma irredutibilidade de uma para com as outras Pessoas, base para a comunhão, a reciprocidade e a mútua revelação. “O todo da Trindade não elimina a peculiaridade ternária e esta não descaracteriza o todo. Ambas as dimensões se enriquecem porque usufruem mútua e plenamente das relações todas em ativa comunhão”(2).

A Trindade, por sua vez, não é uma comunidade fechada em si mesma. Expande-se em todo o criado e, de maneira especial, a pessoa humana é chamada a ser participante desta comunhão transbordante. Vejamos a oração sacerdotal de Jesus: “Que todos sejam um, ó Pai, como tu estás em mim e eu em ti, para que eles estejam em nós e o mundo creia que tu me enviaste” (Jo 17,21). O Deus Uno-Trino é o modelo proposto, o protótipo, por analogia e não por identificação, da verdadeira comunidade humana, fundamento de toda sociabilidade. E o ser humano, criado à imagem de Deus, sente-se chamado a viver esta comunhão. Tem no encontro do masculino e do feminino e na relação entre pais e filhos o primeiro e principal triângulo antropológico, no qual a pessoa é solicitada na sua globalidade para uma comunhão, que é à imagem de Deus. Aí está “o modelo da u-topia que aproxima a história das pessoas humanas à realidade de Deus” (3).

Citações:
1. Cf. MOLTMANN, Jürgen, La giustizia crea il futuro, Brescia, Queriniana, 1990, p. 82, especialmente nota 3.
2. RIBEIRO, Hélcion, A condição humana e a solidariedade cristã, Petrópolis, Editora Vozes, 1998, p. 89.
3. Ibidem, p. 94.


Fonte do texto: AGOSTINI, Nilo. Introdução à Teologia Moral: O grande Sim de Deus à Vida. 3a. edição, Petrópolis: Editora Vozes, 2011, p. 111-112.

domingo, 19 de maio de 2013

A FORÇA DO ESPÍRITO SANTO - O VIGOR DA NOSSA VIDA NO ESPÍRITO

Frei Nilo Agostini,ofm

Texto do livro de AGOSTINI, Nilo. Introdução à Teologia Moral: O grande Sim de Deus à Vida. 3ª edição, Petrópolis: Vozes, 2011, p. 78-81.
 
            Deus comunica vida ao ser humano através do Espírito Santo. Importa “aproximar-nos do Espírito Santo como aquele que dá a vida”[1]. “Neste Espírito, que é o Dom eterno, Deus uno e trino abre-se ao homem, ao espírito humano”[2]. A presença de Deus torna-se real ao homem sob a atuação do Espírito; faz-se presente no seu agir concreto e histórico.

“O sopro recôndito do Espírito divino faz com que o espírito humano, por sua vez, se abra diante de Deus que se abre para ele com desígnio salvífico e santificante. Pelo dom da graça, que vem do Espírito Santo, o homem entra ‘numa vida nova’, é introduzido na realidade sobrenatural da própria vida divina e torna-se ‘habitação do Espírito Santo’, ‘templo vivo de Deus’ (cf. Rm 8,9; 1Cor 6,19). Com efeito, pelo Espírito Santo, o Pai e o Filho vêm a ele e fazem nele a sua morada (cf. Jo 14,23). Na comunhão de graça com a Santíssima Trindade, dilata-se ‘o espaço vital’ do homem, elevado ao nível sobrenatural da vida divina. O homem vive em Deus e de Deus, vive ‘segundo o Espírito’ e ‘ocupa-se das coisas do Espírito’”[3].

            Podemos descrever o ser humano como um ser íntimo de Deus. Isto pode ser explicado pela sua participação na natureza divina e pela sua filiação divina. Porém, existe outro dado de especial grandeza: a presença viva e ativa do Espírito Santo. Este aparece como um agente de transformação na fé e no batismo, constituindo-se no dom primeiro e fundamental da vida nova (cf. 1Cor 6,11; 12,13; 2Cor 1,22; 5,5; Rm 5,5). É, assim, o elemento constitutivo do ser cristão (cf. Rm 8,2.9.10.11.15), o princípio dinâmico do agir (cf. Rm 8,13-14.36-27), a norma do nosso agir (cf. Rm 8,2.4-5.9.14)[4].

            Porém, antes mesmo do grande evento da encarnação de Deus em Jesus Cristo, o Espírito de Deus já está atuando como força de Deus. “O agir do Espírito de Deus, como o demonstra o Antigo Testamento, antecede o agir de Cristo; e ele ultrapassa o agir de Cristo, como o mostra o Novo Testamento”[5]. “Em hebraico e grego, ‘espírito’ significa ar em movimento, hálito ou vento. Por isso, também é sinal ou princípio de vida (cf. Gn 6,7; 7,15; 37,10-14), a força vital (cf. Jr 10,14; 51,17), a sede dos sentimentos, pensamentos e decisões da vontade (cf. Ex 35,21; Is 19,3; Jr 51,11; Ez 11,19). Em oposição à carne, o espírito é aquilo que dá vigor ao homem, é poderoso e imperecível (cf. Jó 10,4s; Jr 17,5-8; Os 14,4). Deus é que dá o Espírito e age no homem pelo seu Espírito”[6].

            Com o sentido acima, já sentimos o quanto o Espírito representa em termos de realidade dinâmica, elementar e vivificante. Ele está lá onde se move a vida, de forma particular a vida humana. Ele tudo enche, tudo penetra. Não está ao nosso alcance manipulá-lo. Somente conseguimos abrir-nos à sua força, que é força de Deus.

            No Novo Testamento, está claro que em Jesus Cristo temos a plenitude da manifestação do Espírito. Nele, o Espírito é realidade contínua, força própria; Ele tudo diz e faz no Espírito. O resultado é a fascinação e a admiração dos que o cercam[7]. “Nunca vimos coisa igual”, dizem os que o cercam ( Mt 9,33). “Dele saía uma força que a todos curava” (Lc 6,19).

“O agir libertador e redentor de Cristo, o Espírito o refere à vida, que em toda parte procede de sua fonte e que é movida pelo ‘Espírito da vida’, pois é esta vida que deve ser libertada e remida. O agir do Espírito de Deus, vivificante e de afirmação à vida, é universal e pode ser reconhecido em todas as coisas que servem à vida ou que impedem a sua destruição. Este agir do Espírito não substitui o agir de Cristo, mas confere-lhe relevância universal”[8].
 
Ao mesmo tempo, a experiência do Espírito é sentida como força de Deus na comunidade da Igreja primitiva, onde se manifesta nos muitos carismas e atua gerando forças, palavras e ações. Ser habitado pelo Espírito representa estar habitado por uma força que move a pessoa por inteiro e que a leva a ultrapassar os seus próprios limites. Em At 4,8, vemos como Pedro, cheio do Espírito Santo, testemunha e anuncia os eventos pelos quais Deus revelou a sua salvação; deparamo-nos com toda uma descrição da obra do Espírito no coração do apóstolo, que fala com convicção a partir de uma força que é maior do que ele.
 
Como fundamento objetivo da manifestação do Espírito, temos a sua descida sobre os Apóstolos ou sua efusão no dia de Pentecostes. Pedro, ao falar deste evento (cf. At 2,4), explica-o referindo-se, na verdade, a Joel 3,1-5, segundo o qual os tempos messiânicos são sinalizados como uma espera do dom do Espírito (cf. Ez 36,26.27; 37,14.27; 39,29; Is 59,21) e como realização da obra de Deus no poder do Espírito (Is 11,2; 42,1). A partir de Pentecostes, “o Espírito Santo vem depois de Cristo e graças a ele, para continuar no mundo, mediante a Igreja, a obra da Boa Nova da salvação”[9].



[1] JOÃO PAULO II, Carta encíclica Dominum et Vivificantem, 6ª edição, São Paulo, Edições Paulinas, 2000, n° 2, p. 6.
[2] Ibidem, n° 58, p. 100.
[3] Ibidem, n° 58, p. 100-101.
[4] Cf. JUNGES, J. R., Evento Cristo e ação humana: Temas fundamentais da ética teológica, São Leopoldo, Unisinos, 2001, p. 122.
[5] MOLTMANN, Jürgen, O Espírito da Vida: Uma pneumatologia integral, Petrópolis, Editora Vozes, 1999, p. 10.
[6] Cf. Vocabulário de termos bíblicos, in Bíblia Sagrada, Petrópolis, Editora Vozes, 1982, p. 1522.
[7] Cf. Lc 1,35; 4,1.14.18; 4,18-21; 4,22; 4,32; 9,43; Mt 1,18; 7,28; 13,54; 15,31;19,25; 21,20; Mc 2,2; 5,41; 6,51; At 4,27; 10,38; Hb 1,9; 2Cor 1,21; 1Jo 2,22.
[8] MOLTMANN, Jürgen, op. cit., p. 10.
[9] JOÃO PAULO II, op. cit., n° 3, p. 11.

sábado, 11 de maio de 2013

MÃE, UM JORRAR DE AMOR!


Mãe, como é difícil defini-la. Ao mesmo tempo, quão cheia de sentido. Heidegger tinha razão ao afirmar: “A impossibilidade de se definir o ser não dispensa a questão de seu sentido”. A singularidade da mãe reside na sua presença, que se desdobra em possibilidades, sempre cheia de sentido.

A mãe tem nas mãos o sentido da vida, no amar sem condições. É como trazer um pedacinho do céu para a terra; e que pedacinho! São tantas as suas formas de amar; algo divino sem explicação. Chora e ri ao mesmo tempo. Lágrimas se derramam, sorrisos se abrem, sempre generosos e ternos pelos filhos queridos.

Ser mãe é lutar pela vida, é desempenhar papéis os mais diversos, sobretudo num contexto como o nosso, em que as disparidades sociais insistem em ser grandes e os limites da sobrevivência desafiam numerosos lares.

Mãe, construção social. Mãe, um jorrar de amor. Mãe, um presente de Deus, tão fundamental para as relações estabelecidas no decorrer da vida, primeiro elo de comunicação, garantia de manutenção, porta aberta ao outro e ao mundo.

Frei Nilo Agostini, ofm

sábado, 30 de março de 2013

“Ele não está aqui, ressuscitou!" (Lc 24,6).


Na Páscoa, celebramos a “solenidade das solenidades”. É a mais importante festa do ano litúrgico cristão. Ela aponta para a “passagem” da morte para a Vida, na certeza que, na força do Amor, é a Vida que vence, é a renovação que encontra o seu caminho. Isto já se realizou em Jesus Cristo, o que funda a nossa esperança, pois o caminho está aberto para nós.

Em nós, a solenidade da Páscoa cria a certeza de que uma renovação de vida sempre é possível, de que dias melhores devem sobrevir, de que as necessárias transformações são uma questão de tempo. Renasce a esperança e sedimenta-se a certeza de que somos seres marcados para transcender, num regurgitar de vida na força da superação. A dinâmica é a do crescimento, o caminho é o do engajamento no cultivo de uma opção de vida. E, qual virtude, uma força interior emana, unificando o nosso ser, numa unidade de vida. Ressurreição é plenitude futura, mas já em gestação em cada gesto de vida, pequeno ou grande, sobretudo quando embebido de Amor.

Feliz e abençoada Páscoa a todos!

Frei Nilo Agostini, ofm

segunda-feira, 25 de março de 2013

Frei Nilo Agostini, ofm, participa de Café Filosófico


Você é nosso convidado para participar, neste dia 25/03/2013, do Café Filosófico, das 17:00 às 19:00 horas, no Café Girondino, Largo São Bento em São Paulo (capital).

Expositor: Prof. Dr. Frei Nilo Agostini, ofm


Tema: IGREJA CATÓLICA E CIÊNCIAS: POR UMA CULTURA DO DIÁLOGO E DA VIDA

sábado, 16 de março de 2013

Dia Internacional da Mulher – A nossa homenagem!

Nascida da luta das mulheres por melhores condições de trabalho e da crescente consciência de sua exploração, a data do dia 8 de março leva-nos a buscar relações sociais e de trabalho mais justas e a participação da mulher em todas as esferas da sociedade. Persiste ainda o desafio de iguais oportunidades em nosso tecido social.

Na concepção bíblica, homem e mulher aparecem como “companheiros” (cf. Gn 2,18), até num chamado a que os “maridos amem as suas mulheres como a seu próprio corpo” (cf. Ef. 5,28). Encontramos aí o fundamento para a afirmação lapidar da igual dignidade entre o homem e a mulher.
Neste sentido, somos convocados a consolidar nas práticas do dia a dia o reconhecimento da igual dignidade da mulher face ao homem, de sua participação livre, autônoma e responsável na sociedade e da riqueza de seu aporte feminino na construção do humano em todas as dimensões.
A todas as mulheres, a nossa homenagem e o nosso reconhecimento!
Frei Nilo Agostini, ofm
Coordenador da Pastoral Universitária – USF (Universidade São Francisco), Professor da USF
Coordenador de Graduação e Professor da Fajopa (Faculdade João Paulo II)

sexta-feira, 15 de março de 2013

Papa Francisco, o primeiro da América Latina


Jorge Mario Bergoglio, cardeal-arcebispo de Buenos Aires, Argentina, foi escolhido ,aos 76 anos, o 266º Papa da Igreja Católica. O que aconteceu neste dia 13 de março de 2013 surpreendeu a todos. Primeiro, porque o seu nome não era lembrado entre os papáveis. Segundo, por ser alguém da América Latina. Assim, a Igreja Católica põe um pé fora da Europa, mostrando que ela se abre ao mundo, traço característico da catolicidade, ou seja de sua universalidade.
Ao ser escolhido Papa, Bergoglio assumiu o nome de Francisco. "A escolha do nome Francisco indica que ele será mais próximo dos pobres, comprometido com o bem da Igreja", afirmou o porta-voz do Vaticano, Federico Lombardi. Além disso, o Papa Francisco revela os traços de ser uma pessoa humilde e simples, com uma preocupação claramente pastoral. É um Papa próximo do povo. Este nome também indica um desejo de renovação da Igreja, assim como representou outro com o mesmo nome, Francisco de Assis, o santo fundador da Ordem dos Frades Menores, os Franciscanos.

Antes de dar a sua primeira bênção ao Povo, Francisco pede que o Povo reze e peça a Deus que o abençoe. E se inclina reverentemente. Sinal de humildade, de proximidade com o povo, ele mostra ser um Pastor não afeitos a adornos. Conhecido por seu trabalho com os mais humildes nas favelas de Buenos Aires, ele chegou a negar os luxos enquanto cardeal na capital argentina. Pegava frequentemente ônibus para ir ao trabalho e chegava a cozinhar as próprias refeições. O Papa Francisco mostra o alcance social da fé cristã.

Não faltarão desafios para este papado. Uma primeira série de desafios provem das transformações que ocorrem no mundo de hoje. Estaríamos numa “mudança de época”. Isto requer uma Igreja capaz de acompanhar estas mudanças, usando uma linguagem apropriada e capaz de responder à altura os novos desafios do nosso tempo.  A crescente consciência ecológica, o avanço das novas tecnologias e os problemas sociais resultantes do fraco crescimento econômico exigem uma Igreja “antenada” com o seu tempo. Urge um acento mais social do anúncio do Evangelho.
Outra série de desafios vem do interior mesmo da Igreja e clamam ora por uma reorganização interna, incluída a Cúria Romana, ora por uma clareza da centralidade de Jesus Cristo na vida do cristão. Ao fazer a sua primeira homilia, na quinta-feira, dia 14/03, o Papa Francisco já apontou para três linhas: “Caminhar, edificar e confessar”. Caminhar na luz de Cristo. Edificar a Igreja. Confessar a Jesus Cristo. Caso contrário, a Igreja se torna “uma ONG de caridade”, afirmou o Papa, perdendo sua identidade primeira.
O Papa Francisco nos convoca a estar em “movimento”, não parar no meio do caminho. Importa caminhar iluminados pelo Senhor e em sua constante presença.

Frei Nilo Agostini, ofm
Coordenador da Pastoral Universitária – USF (Universidade São Francisco), com sede em Bragança Paulista SP
Professor da USF
Coordenador e professor do Curso de Teologia da Fajopa (Faculdade João Paulo II) de Marília, SP