sexta-feira, 18 de outubro de 2019

FREI NILO AGOSTINI PUBLICA DOIS NOVOS LIVROS

Aos 30 anos de seu doutorado em Teologia, defendido na Universidade de Ciências Humanas de Strasbourg, França, Frei Nilo lança mais um livro em Teologia intitulado Moral Fundamental, pela Editora Vozes. Este livro faz parte da coleção Iniciação à Teologia. Veja a descrição da obra:
O atual contexto histórico-social passa por grandes transformações. Enquanto pessoas de fé, nossa missão de cristãos é a de acompanhar atentamente as mudanças em curso e buscar respostas à altura dos desafios de nosso tempo. Apresenta-se o desafio de formar sujeitos éticos, capazes de identificar os engajamentos morais nos níveis pessoal e social. Este livro leva-nos a conhecer a riqueza que brota de nossas raízes cristãs, tão bem guardadas e cultivadas pela Igreja Católica, segundo a experiência percorrida e vivenciada a partir do Concílio Vaticano II. Traça uma fundamentação bíblico-teológica consistente, buscando captar o convite de Deus, acolher a proposta de Jesus Cristo e viver na força do Espírito Santo. Estabelece uma visão integral do ser humano, inclui a natureza, enfatiza o lugar da consciência moral e move-nos em favor da vida.
Frei Nilo lança, ao mesmo tempo, um livro na área da Educação, fruto de seu pós-doutorado feito na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), com estágio na Escola de Altos Estudos de Paris (Sorbonne), no segundo semestre de 2017 e primeiro semestre de 2018. Descrição da obra:
Esta obra recolhe os desafios apresentados por Paulo Freire e Walter Benjamin à educação. Seguindo o legado deixado por ambos, assume um olhar crítico em meio às contradições de nossa sociedade. Isso representa “escovar a história a contrapelo”, segundo Benjamin, e uma história escrita a partir dos “esfarrapados do mundo” ou “demitidos da vida”, segundo Freire. A partir de uma acurada pesquisa biobibliográfica, traça os eixos em torno dos quais condensa a contribuição dos autores estudados. Apresenta a história a partir dos vencidos e demitidos da vida; estuda a religião em Benjamin e Freire; identifica a apropriação que ambos fizeram do marxismo e do materialismo histórico; e decifra a contribuição dos autores para o campo da educação.
Frei Nilo Agostini é professor e pesquisador do Programa de Pós-graduação Stricto Sensu da Universidade São Francisco (USF), membro do Comitê de Ética em Pesquisa da mesma Universidade, líder do grupo de pesquisa “Educação e Ética: aproximações, convergências, transversalidades” e vice-líder do grupo de pesquisa “TCTCLAE – Teoria Crítica e Teorias Críticas Latino-Americanas e Educação”. Distingue-se por sua produção também de artigos científicos em revistas com Qualis A1 e A2, entre outras.


domingo, 6 de outubro de 2019

O PAPA FRANCISCO ABRE O SÍNODO: por e com os irmãos na Amazônia, caminhemos juntos


“Muitos irmãos e irmãs na Amazônia carregam cruzes pesadas e aguardam pela consolação libertadora do Evangelho, pela carícia de amor da Igreja. Por eles, com eles, caminhemos juntos”, disse o Papa Francisco na missa de abertura da Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos para a Região Pan-Amazônica, celebrada na manhã deste domingo (06/10) na Basílica de São Pedro.

Raimundo de Lima - Cidade do Vaticano
“Reacender o dom no fogo do Espírito é o oposto de deixar as coisas correr sem se fazer nada. E ser fiéis à novidade do Espírito é uma graça que devemos pedir na oração. Ele, que faz novas todas as coisas, nos dê a sua prudência audaciosa; inspire o nosso Sínodo a renovar os caminhos para a Igreja na Amazônia, para que não se apague o fogo da missão.”
Foi o que disse o Papa Francisco na missa celebrada na manhã deste domingo (06/10) na Basílica de São Pedro, na abertura da Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos para a Região Pan-Amazônica, evento eclesial que se realizará no Vaticano até o dia 27 deste mês, com o tema “Amazônia: novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral”.
No início da celebração, a longa procissão de entrada com os 185 padres sinodais, 58 do Brasil. Na assembleia, também representantes de comunidades indígenas. A Eucaristia foi concelebrada com os treze novos cardeais, criados no Consistório presidido pelo Santo Padre no sábado à tarde.

Fazer Sínodo, caminhar juntos
Dirigindo-se aos padres sinodais, bispos provenientes não só da região Pan-Amazônica, mas também de outras regiões, Francisco, referindo-se à segunda carta de São Paulo a Timóteo proposta nesta liturgia do XXVII Domingo do Tempo Comum, ressaltou que o apóstolo Paulo, o maior missionário da história da Igreja, ajuda-nos a ‘fazer Sínodo’, a ‘caminhar juntos’; e que “parece dirigido a nós, Pastores ao serviço do povo de Deus, aquilo que escreve a Timóteo”, observou.
Recebemos um dom, para sermos dom, disse o Pontífice, acrescentando:
“Um dom não se compra, não se troca nem se vende: recebe-se e dá-se de prenda. Se nos apropriarmos dele, se nos colocarmos a nós no centro e não deixarmos no centro o dom, passamos de Pastores a funcionários: fazemos do dom uma função, e desaparece a gratuidade; assim acabamos por nos servir a nós mesmos, servindo-nos da Igreja.”
A nossa vida, dom recebido, é para servir, continuou. “Colocamos toda a nossa alegria em servir, porque fomos servidos por Deus: fez-Se nosso servo. Queridos irmãos, sintamo-nos chamados aqui para servir, colocando no centro o dom de Deus”, exortou Francisco.

Dom que recebemos é amor ardente a Deus e aos irmãos
Para sermos fiéis a este chamado, à nossa missão, enfatizou, “São Paulo lembra-nos que o dom deve ser reaceso. O verbo usado é fascinante: reacender é, literalmente, ‘dar vida a uma fogueira’”, explicou o Papa. “O dom que recebemos é um fogo, é amor ardente a Deus e aos irmãos. O fogo não se alimenta sozinho; morre se não for mantido vivo, apaga-se se a cinza o cobrir.”

Passar da pastoral de manutenção a uma pastoral missionária
Em seguida, o Pontífice fez uma premente exortação aos Pastores a serviço do povo de Deus:
“A Igreja não pode de modo algum limitar-se a uma pastoral de “manutenção” para aqueles que já conhecem o Evangelho de Cristo. O ardor missionário é um sinal claro da maturidade de uma comunidade eclesial. Jesus veio trazer à terra, não a brisa da tarde, mas o fogo. O fogo que reacende o dom é o Espírito Santo, doador dos dons.”

Deus nos preserve da ganância de novos colonialismos
O fogo de Deus, como no episódio da sarça ardente, arde mas não consome). É fogo de amor que ilumina, aquece e dá vida; não fogo que alastra e devora. “Quando sem amor nem respeito se devoram povos e culturas, não é o fogo de Deus, mas do mundo. Contudo quantas vezes o dom de Deus foi, não oferecido, mas imposto! Quantas vezes houve colonização em vez de evangelização! Deus nos preserve da ganância dos novos colonialismos.”
“O fogo ateado por interesses que destroem, como o que devastou recentemente a Amazônia, não é o do Evangelho. O fogo de Deus é calor que atrai e congrega em unidade. Alimenta-se com a partilha, não com os lucros.”
Francisco exortou a reacender o dom; receber a prudência audaciosa do Espírito, fiéis à sua novidade, acrescentando que o anúncio do Evangelho é o critério primeiro para a vida da Igreja.

Irmãos amazônicos aguardam consolação do Evangelho
Convidando a olhar juntos para Jesus Crucificado, para o seu coração aberto por nós, o Santo Padre concluiu com mais uma exortação: “Muitos irmãos e irmãs na Amazônia carregam cruzes pesadas e aguardam pela consolação libertadora do Evangelho, pela carícia de amor da Igreja. Por eles, com eles, caminhemos juntos”.

Fonte:https://www.vaticannews.va/pt/papa/news/2019-10/papa-francisco-missa-abertura-sinodo-bispos-regiao-pan-amazonica.html 

sábado, 11 de maio de 2019

MENSAGEM DA CNBB AO POVO BRASILEIRO

O episcopado brasileiro, reunido em sua 57ª Assembleia Geral, de 1º a 10 de maio, em Aparecida (SP), emitiu hoje a “Mensagem da CNBB ao povo brasileiro”. Veja o texto na íntegra:

“Eis que faço novas todas as coisas” (Ap 21,5)
Suplicando a assistência do Espírito Santo, na comunhão e na unidade, nós, Bispos do Brasil, reunidos na 57ª Assembleia Geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil-CNBB, no Santuário Nacional, em Aparecida-SP, de 1 a 10 de maio de 2019, dirigimos nossa mensagem ao povo brasileiro, tomados pela ternura de pastores que amam e cuidam do rebanho. Desejamos que as alegrias pascais, vividas tão intensamente neste tempo, renovem, no coração e na mente de todos, a fé em Jesus Cristo Crucificado-Ressuscitado, razão de nossa esperança e certeza de nossa vitória sobre tudo que nos aflige.
“Eis que estou convosco todos os dias, até o fim dos tempos” (Mt 28,20)
Enche-nos de esperançosa alegria constatar o esforço de nossas comunidades e inúmeras pessoas de boa vontade em testemunhar o Evangelho de Jesus Cristo, comprometidas com a vivência do amor, a prática da justiça e o serviço aos que mais necessitam. São incontáveis os sinais do Reino de Deus entre nós a partir da ação solidária e fraterna, muitas vezes anônima, dos que consomem sua vida na transformação da sociedade e na construção da civilização do amor. Por essa razão, a esperança e a alegria, frutos da ressurreição de Cristo, hão de ser a identidade de todos os cristãos. Afinal, quando deixamos que o Senhor nos tire de nossa comodidade e mude a nossa vida, podemos cumprir o que ordena São Paulo: ‘Alegrai-vos sempre no Senhor! De novo o digo: alegrai-vos!’ (Fl 4,4) (cf. Papa Francisco, Exortação Apostólica Gaudete et Exultate, 122).
“No mundo tereis aflições, mas tende coragem! Eu venci o mundo” (Jo 16,33).
Longe de nos alienar, a alegria e a esperança pascais abrem nossos olhos para enxergarmos, com o olhar do Ressuscitado, os sinais de morte que ameaçam os filhos e filhas de Deus, especialmente, os mais vulneráveis. Estas situações são um apelo a que não nos conformemos com este mundo, mas o transformemos (cf. Rm 12,2), empenhando nossas forças na superação do que se opõe ao Reino de justiça e de paz inaugurado por Jesus.
A crise ética, política, econômica e cultural tem se aprofundado cada vez mais no Brasil. A opção por um liberalismo exacerbado e perverso, que desidrata o Estado quase ao ponto de eliminá-lo, ignorando as políticas sociais de vital importância para a maioria da população, favorece o aumento das desigualdades e a concentração de renda em níveis intoleráveis, tornando os ricos mais ricos à custa dos pobres cada vez mais pobres, conforme já lembrava o Papa João Paulo II na Conferência de Puebla (1979). Nesse contexto e inspirados na Campanha da Fraternidade deste ano, urge reafirmar a necessidade de políticas públicas que assegurem a participação, a cidadania e o bem comum. Cuidado especial merece a educação, gravemente ameaçada com corte de verbas, retirada de disciplinas necessárias à formação humana e desconsideração da importância das pesquisas.
A corrupção, classificada pelo Papa Francisco como um “câncer social” profundamente radicada em inúmeras estruturas do país, é uma das causas da pobreza e da exclusão social na medida em que desvia recursos que poderiam se destinar ao investimento na educação, na saúde e na assistência social, caminho de superação da atual crise. A eficácia do combate à corrupção passa também por uma mudança de mentalidade que leve a pessoa compreender que seu valor não está no ter, mas no ser e que sua vida se mede não por sua capacidade de consumir, mas de partilhar.
O crescente desemprego, outra chaga social, ao ultrapassar o patamar de 13 milhões de brasileiros, somados aos 28 milhões de subutilizados, segundo dados do IBGE, mostra que as medidas tomadas para combatê-lo, até agora, foram ineficazes. Além disto, é necessário preservar os direitos dos trabalhadores e trabalhadoras. O desenvolvimento que se busca tem, no trabalho digno, um caminho seguro desde que se respeite a primazia da pessoa sobre o mercado e do trabalho sobre o capital, como ensina a Doutrina Social da Igreja. Assim, “a dignidade de cada pessoa humana e o bem comum são questões que deveriam estruturar toda a política econômica, mas às vezes parecem somente apêndices adicionados de fora para completar um discurso político sem perspectivas nem programas de verdadeiro desenvolvimento integral” (Papa Francisco, Evangelii Gaudium, 203).
A violência também atinge níveis insuportáveis. Aos nossos ouvidos de pastores chega o choro das mães que enterram seus filhos jovens assassinados, das famílias que perdem seus entes queridos e de todas as vítimas de um sistema que instrumentaliza e desumaniza as pessoas, dominadas pela indiferença. O feminicídio, o submundo das prisões e a criminalização daqueles que defendem os direitos humanos reclamam vigorosas ações em favor da vida e da dignidade humana. O verdadeiro discípulo de Jesus terá sempre no amor, no diálogo e na reconciliação a via eficaz para responder à violência e à falta de segurança, inspirado no mandamento “Não matarás” e não em projetos que flexibilizem a posse e o porte de armas.
Precisamos ser uma nação de irmãos e irmãs, eliminando qualquer tipo de discriminação, preconceito e ódio. Somos responsáveis uns pelos outros. Assim, quando os povos originários não são respeitados em seus direitos e costumes, neles o Cristo é desrespeitado: “Todas as vezes que deixastes de fazer isso a um destes mais pequeninos, foi a mim que o deixastes de fazer” (Mt 25,45). É grave a ameaça aos direitos dos povos indígenas assegurados na Constituição de 1988. O poder político e econômico não pode se sobrepor a esses direitos sob o risco de violação da Constituição.
A mercantilização das terras indígenas e quilombolas nasce do desejo desenfreado de quem ambiciona acumular riquezas. Nesse contexto, tanto as atividades mineradoras e madeireiras quanto o agronegócio precisam rever seus conceitos de progresso, crescimento e desenvolvimento. Uma economia que coloca o lucro acima da pessoa, que produz exclusão e desigualdade social, é uma economia que mata, como nos alerta o Papa Francisco (EG 53). São emblemático exemplo disso os crimes ocorridos em Mariana e Brumadinho com o rompimento das barragens de rejeitos de minérios.
As necessárias reformas política, tributária e da previdência só se legitimam se feitas em vista do bem comum e com participação popular de forma a atender, em primeiro lugar, os pobres, “juízes da vida democrática de uma nação” (Exigências éticas da ordem democrática, CNBB – n. 72). Nenhuma reforma será eticamente aceitável se lesar os mais pobres. Daí a importância de se constituírem em autênticas sentinelas do povo as Igrejas, os movimentos sociais, as organizações populares e demais instituições e grupos comprometidos com a defesa dos direitos humanos e do Estado Democrático de Direito. Instâncias que possibilitam o exercício da democracia participativa como os Conselhos paritários devem ser incentivadas e valorizadas e não extintas como estabelece o decreto 9.759/2019.
“Buscai em primeiro lugar o Reino de Deus e sua justiça” (Mt 6,33)
O Brasil que queremos emergirá do comprometimento de todos os brasileiros com os valores que têm o Evangelho como fonte da vida, da justiça e do amor. Queremos uma sociedade cujo desenvolvimento promova a democracia, preze conjuntamente a liberdade e a igualdade, respeite as diferenças, incentive a participação dos jovens, valorize os idosos, ame e sirva os pobres e excluídos, acolha os migrantes, promova e defenda a vida em todas as suas formas e expressões, incluído o respeito à natureza, na perspectiva de uma ecologia humana e integral.
As novas Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil, que aprovamos nesta 57ª Assembleia da CNBB, e o Sínodo para a Pan-Amazônia, a se realizar em Roma, em outubro deste ano, ajudem no compromisso que todos temos com a construção de uma sociedade desenvolvida, justa e fraterna. Lembramos que “o desenvolvimento tem necessidade de cristãos com os braços levantados para Deus em atitude de oração, cristãos movidos pela consciência de que o amor cheio de verdade – caritas in veritate -, do qual procede o desenvolvimento autêntico, não o produzimos nós, mas nos é dado” (Bento XVI, Caritas in veritate, 79). O caminho é longo e exigente, contudo, não nos esqueçamos de que “Deus nos dá a força de lutar e sofrer por amor do bem comum, porque Ele é o nosso Tudo, a nossa esperança maior” (Bento XVI, Caritas in veritate, 78).
A Virgem Maria, mãe do Ressuscitado, nos alcance a perseverança no caminho do amor, da justiça e da paz.
Aparecida-SP,  7 de maio de 2019.

segunda-feira, 15 de abril de 2019

A LITURGIA, CELEBRAÇÃO DA PÁSCOA

Frei Alberto Beckhäuser, OFM

Em toda celebração temos três elementos que a constituem: o fato valorizado ou páscoa, a expressão significativa do fato valorizado ou o rito, e a intercomunhão solidária ou a participação no mistério. Queremos agora aprofundar o que se celebra, isto é, a páscoa, a Páscoa de Cristo e a páscoa dos cristãos ou a páscoa dos cristãos na Páscoa de Cristo. Temos, portanto, a páscoa-fato e a páscoa vivida no rito.

A páscoa-fato no Antigo Testamento: Para compreendermos o que é a páscoa, é bom a gente recorrer à experiência religiosa do Povo de Israel no Antigo Testamento. A páscoa é o acontecimento central da história do povo de Israel. Temos uma páscoa-fato, o acontecimento histórico, e uma páscoa-rito, ou a celebração da páscoa através do rito, comemorando a Páscoa-fato.
O povo eleito viveu um acontecimento muito importante, ou seja, uma passagem, a páscoa que vem descrita no livro do Êxodo. Deus passa e o povo passa pela ação de Deus. Esta passagem do povo vai desde a libertação do Egito até a posse da Terra prometida, onde corre leite e mel.
O povo passa da escravidão para a liberdade, da morte para a vida, de não-povo, a povo da aliança. Esta passagem de Deus e do povo, pela ação de Deus, tem dois pontos altos, que podemos chamar de páscoa da libertação e páscoa da Aliança. Deus passa libertando o povo da escravidão do Egito, fazendo-o atravessar o mar Vermelho, guiando-o pelo deserto, fazendo-o atravessar o rio Jordão e tomar posse da terra prometida. O outro ponto alto da passagem de Deus é a Aliança aos pés do monte Sinai.
A páscoa-rito no Antigo Testamento:– Cada ano, cada semana e cada dia, o povo comemora esta passagem libertadora e de aliança e dela participa. Anualmente, pela ceia pascal, cada semana, através da celebração da Palavra nas sinagogas aos sábados, e cada dia, através do louvor vespertino e do louvor matutino, ação de graças pelos benefícios de Deus na história do povo, sobretudo pela páscoa da libertação e a páscoa da Aliança.
A Páscoa-fato no Novo Testamento: – Também no Novo Testamento temos uma páscoa-fato e uma páscoa-rito, a verdadeira Páscoa. A Páscoa-fato é Jesus Cristo que, pelo mistério da Encarnação, deixou o Pai e veio a este mundo e deixou este mundo voltando para o Pai. O ponto alto dessa passagem é sua morte, ressurreição e ascensão aos céus. Por esta passagem, Cristo realizou a Obra da Salvação e estabeleceu a nova e eterna Aliança. Libertou a humanidade do pecado e da morte e mereceu-nos nova vida. Esta obra da salvação é chamada de Mistério pascal.
A Páscoa-rito no Novo Testamento: – Cristo realizou esta Obra da Salvação uma vez para sempre. Mas, ele confiou esta Obra aos Apóstolos e à Igreja para que todos que nele cressem e o seguissem pudessem participar dessa Obra. Uma maneira de tornar a Obra da Salvação presente e dela participar é a comemoração deste fato pascal salvador e de glorificação de Deus através de ritos, ou das celebrações. São as celebrações da Igreja, sobretudo, os sacramentos, tendo como início o Batismo e centro, a Eucaristia. É a páscoa-rito, a salvação de Deus por Cristo e em Cristo vivida através dos ritos que chamamos de mistérios do culto.
Nestas comemorações da Páscoa de Cristo realiza-se aquela comunhão de vida no amor entre Deus e a humanidade que chamamos de mistério. Atualiza-se para nós por Cristo e em Cristo, a Obra da Salvação e da glorificação de Deus, os dois movimentos da ação litúrgica.
Fonte: Este texto é fruto de um Curso de formação ministrado por Frei Alberto Beckhäuser, ofm, na Paróquia Nossa Senhora do Rosário que faz parte da Arquidiocese de Vitória – ES. Sua a administração está sob os cuidados dos frades franciscanos, da Ordem do Frades Menores (OFM). Acesso:  http://paroquiadorosario.com/2017/10/26/a-liturgia-celebracao-da-pascoa/

O QUE É MISTÉRIO PASCAL? O centro da Liturgia e de toda a vida cristã!


Frei Alberto Beckhäuser, OFM
Para se compreender o que seja a Liturgia é de suma importância saber o que significa mistério pascal.
Temos aqui dois termos que devemos aprofundar: mistério e páscoa. As duas palavras têm a ver com Jesus Cristo, pois se trata do mistério de Cristo e da Páscoa verdadeira que também é Jesus Cristo que saiu do Pai e veio a este mundo e novamente deixou o mundo e voltou para o Pai.
Entende-se por mistério algo fechado que pode ser aberto e é feito para ser aberto, como, por exemplo, a porta, a janela. É algo oculto que se revela, mas que, na ordem da criação, nunca se revela totalmente. É aquela realidade que está por trás de uma realidade sensível. Devemos superar a ideia de mistério como algo simplesmente oculto, como algo secreto, algo inatingível pela razão humana. Mistério é ação, é relação, é comunicação. Onde há uma relação de vida no amor aí se realiza o mistério.
Podemos dizer que Deus é mistério em si mesmo, enquanto Deus é intercomunhão de amor e de vida entre as pessoas da Trindade Santa. Mistério é também o plano de Deus de fazer outros seres fora dele participar de sua vida, do seu amor, da sua felicidade e de sua glória, plano este revelado e realizado no Filho Encarnado, Jesus Cristo e em todos aqueles que aderem a esse plano em Cristo. Enquanto este plano se revela e se realiza em Cristo Jesus, ele se chama mistério de Cristo. Onde se realiza a comunhão de vida e de amor entre Deus e os seres humanos realiza-se o mistério. O mistério se realiza onde Deus e o ser humano se encontram, onde convivem no amor, onde se realiza a comunhão divino-humana. Realiza-se também onde acontece a comunhão de amor dos seres humanos em Deus como, por exemplo no amor conjugal. São Paulo diz: É grande este mistério!
Mistérios de Cristo, no plural, são ações de Jesus Cristo, pelas quais se revela e se realiza o plano de Deus de salvação, de comunhão divino-humana como são a Encarnação, o Nascimento, o Batismo no rio Jordão e, particularmente, sua Paixão, Morte, Ressurreição e Ascensão aos Céus.
A partir desta compreensão de mistério, podemos agora compreender o mistério pascal. Eis o que diz o Concílio Vaticano II:
“Esta obra da Redenção humana e da perfeita glorificação de Deus, da qual foram prelúdio as maravilhas divinas operadas no povo do Antigo Testamento, completou-a Cristo Senhor, principalmente pelo mistério pascal de sua sagrada Paixão, Ressurreição dos mortos e gloriosa Ascensão. Por este mistério, Cristo ‘morrendo, destruiu a nossa morte e, ressuscitando, recuperou a nossa vida’. Pois do lado de Cristo dormindo na cruz nasceu o admirável sacramento de toda a Igreja” (SC 5).
Cristo, morrendo, destruiu a nossa morte e, ressuscitando, recuperou a nossa vida. O Senhor Jesus, passando deste mundo para o Pai, isto é, pela sua Páscoa, vence o pecado e a morte não só para si, mas para toda a humanidade. Por sua Páscoa Ele recuperou a nossa vida. O mistério pascal compreende todos os mistérios de Cristo, mas particularmente, sua Paixão, Morte, Ressurreição e Ascensão ao céu.
Jesus confiou o mistério pascal aos Apóstolos e a toda a Igreja, que o realizam através do anúncio deste mistério, de sua celebração na Sagrada Liturgia e pelas ações da caridade, vivendo o novo Mandamento.
Por isso, o mistério pascal se encontra no centro da Liturgia e de toda a vida cristã.

Fonte: Este texto é fruto de um Curso de formação ministrado por Frei Alberto Beckhäuser, ofm, na Paróquia Nossa Senhora do Rosário que faz parte da Arquidiocese de Vitória – ES. Sua a administração está sob os cuidados dos frades franciscanos, da Ordem do Frades Menores (OFM). Acesso:http://paroquiadorosario.com/2017/11/02/o-que-e-misterio-pascal/

JESUS CRISTO, O CENTRO DA SAGRADA LITURGIA


A Liturgia é obra da Santíssima Trindade na celebração da Obra da Salvação realizada por Cristo comemorada pela Igreja. Assim, podemos dizer que o Centro da Liturgia é Jesus Cristo, seus mistérios, sintetizados no mistério pascal de sua morte e ressurreição.
Toda celebração litúrgica da Igreja, a celebração dos sacramentos ou outras celebrações dos mistérios de Cristo, sempre fazem memória de Jesus Cristo. Tudo deve, pois, convergir para Cristo e nada desviar deste Centro.
Quem representa ritualmente esse Centro, nas celebrações?
São pessoas ou coisas que representam Cristo, como diz o número a Sacrosanctum Concilium: “Para levar a efeito obra tão importante Cristo está sempre presente em sua Igreja, sobretudo nas ações litúrgicas. Presente está no sacrifício da missa, tanto na pessoa do ministro, ‘pois aquele que agora oferece pelo ministério dos sacerdotes é o mesmo que outrora se ofereceu na Cruz’, quanto, sobretudo, sob as espécies eucarísticas. Presente está pela sua força nos sacramentos, de tal forma que quando alguém batiza é Cristo mesmo que batiza. Presente está pela sua Palavra, pois é Ele mesmo que fala quando se leem as Sagradas Escrituras na igreja. Está presente finalmente quando a Igreja ora e salmodia, Ele que prometeu: ‘Onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, aí estarei no meio deles’ (Mt 18,20)” (SC 7).
Cristo, que está presente e age pelo seu Espírito na Sagrada Liturgia, manifesta-se, portanto, de vários modos. 1. Nas sagradas espécies do pão, e do vinho com água. Daí, a sacralidade do momento da apresentação dos dons, da preparação do altar, da consagração e da Sagrada Comunhão. 2. No ministro. Mas, o ministro que, nos principais sacramentos é o sacerdote, está a serviço da Liturgia e da assembleia. Ele não pode e não deve ser o centro das atenções. Ele preside em nome de Cristo e representa Cristo. “Quando celebra a Eucaristia, ele deve servir a Deus e ao povo com dignidade e humildade, e, pelo seu modo de agir e proferir as palavras divinas, sugerir aos fiéis uma presença viva de Cristo” (IGMR, n. 93). Os fiéis não irão participar da Missa por causa deste daquele padre, mas por causa de Cristo. Portanto, nada de vedetismo ou de showman. 3. Está presente na Palavra. O leitor não é o centro, mas é Cristo que está falando. Ele está a serviço da Palavra de Deus. Que sublime ministério o de proclamar a Palavra de Deus na assembléia celebrante! 4. Na assembléia. A assembléia constitui o Corpo de Cristo, formado de muitos membros, mas formando um só corpo. Daí as ações comuns da assembleia na celebração, as posições comuns do corpo, os gestos e as palavras. Todos os demais ministérios também devem expressar a presença de Cristo que serve. Pensemos diáconos; depois, no salmista, nos acólitos, nos coletores, no comentarista, no grupo de cantores, no animador do canto, nos instrumentistas. Todos devem lembrar Cristo e servir a Cristo, servindo à assembléia. 5. O espaço celebrativo, a igreja. Nela existem, sobretudo, três centros, sinais da presença e da ação de Cristo, a serviço da assembleia, e nos quais se concentra a atenção da mesma. São eles o altar que é Cristo, o ambão, em que a Palavra é Cristo, e a cadeira do Presidente, que age em nome de Cristo. Temos, portanto, o Cristo presente no altar, na mesa da Palavra e cadeira de presidência. O centro de convergência de todo o espaço deverá ser, pois, o altar.
Tudo fala de Cristo, tudo deve transmitir um clima sagrado de nobre simplicidade. O altar é despojado, coberto de ao menos uma toalha de cor branca, a cor sacerdotal. Não pode ser um depósito de tudo quanto é bugiganga. Tudo estará centralizado em Cristo Jesus.


Fonte: Este texto é fruto de um Curso de formação ministrado por Frei Alberto Beckhäuser, ofm, na Paróquia Nossa Senhora do Rosário que faz parte da Arquidiocese de Vitória – ES. Sua a administração está sob os cuidados dos frades franciscanos, da Ordem do Frades Menores (OFM). Acesso: http://paroquiadorosario.com/2017/11/08/jesus-cristo-o-centro-da-sagrada-liturgia/