terça-feira, 29 de dezembro de 2020

A CULTURA DO CUIDADO COMO PERCURSO DE PAZ - Mensagem do Papa Francisco para o 54º Dia Mundial da Paz


FRANCISCO
PARA A CELEBRAÇÃO DO
54º DIA MUNDIAL DA PAZ

1º DE JANEIRO DE 2021

A CULTURA DO CUIDADO COMO PERCURSO DE PAZ

1. Aproximando-se o Ano Novo, desejo apresentar as minhas respeitosas saudações aos Chefes de Estado e de Governo, aos responsáveis das Organizações Internacionais, aos líderes espirituais e fiéis das várias religiões, aos homens e mulheres de boa vontade. Para todos formulo os melhores votos, esperando que o ano de 2021 faça a humanidade progredir no caminho da fraternidade, da justiça e da paz entre as pessoas, as comunidades, os povos e os Estados.

O ano de 2020 ficou marcado pela grande crise sanitária da Covid-19, que se transformou num fenómeno plurissectorial e global, agravando fortemente outras crises inter-relacionadas como a climática, alimentar, económica e migratória, e provocando grandes sofrimentos e incómodos. Penso, em primeiro lugar, naqueles que perderam um familiar ou uma pessoa querida, mas também em quem ficou sem trabalho. Lembro de modo especial os médicos, enfermeiras e enfermeiros, farmacêuticos, investigadores, voluntários, capelães e funcionários dos hospitais e centros de saúde, que se prodigalizaram – e continuam a fazê-lo – com grande fadiga e sacrifício, a ponto de alguns deles morrerem quando procuravam estar perto dos doentes a fim de aliviar os seus sofrimentos ou salvar-lhes a vida. Ao mesmo tempo que presto homenagem a estas pessoas, renovo o apelo aos responsáveis políticos e ao sector privado para que tomem as medidas adequadas a garantir o acesso às vacinas contra a Covid-19 e às tecnologias essenciais necessárias para dar assistência aos doentes e a todos aqueles que são mais pobres e mais frágeis.[1]

É doloroso constatar que, ao lado de numerosos testemunhos de caridade e solidariedade, infelizmente ganham novo impulso várias formas de nacionalismo, racismo, xenofobia e também guerras e conflitos que semeiam morte e destruição.

Estes e outros acontecimentos, que marcaram o caminho da humanidade no ano de 2020, ensinam-nos a importância de cuidarmos uns dos outros e da criação a fim de se construir uma sociedade alicerçada em relações de fraternidade. Por isso, escolhi como tema desta mensagem «a cultura do cuidado como percurso de paz»; a cultura do cuidado* para erradicar a cultura da indiferença, do descarte e do conflito, que hoje muitas vezes parece prevalecer.

2. Deus Criador, origem da vocação humana ao cuidado

Em muitas tradições religiosas, existem narrativas que se referem à origem do homem, à sua relação com o Criador, com a natureza e com os seus semelhantes. Na Bíblia, o livro do Génesis revela, desde o início, a importância do cuidado ou da custódia no projeto de Deus para a humanidade, destacando a relação entre o homem (’adam) e a terra (’adamah) e entre os irmãos. Na narração bíblica da criação, Deus confia o jardim «plantado no Éden» (cf. Gn 2, 8) às mãos de Adão com o encargo de «o cultivar e guardar» (Gn 2, 15). Isto significa, por um lado, tornar a terra produtiva e, por outro, protegê-la e fazê-la manter a sua capacidade de sustentar a vida.[2] Os verbos «cultivar» e «guardar» descrevem a relação de Adão com a sua casa-jardim e indicam também a confiança que Deus deposita nele fazendo-o senhor e guardião de toda a criação.

O nascimento de Caim e Abel gera uma história de irmãos, cuja relação em termos de tutela ou custódia será vivida negativamente por Caim. Depois de ter assassinado o seu irmão Abel, a Deus que lhe pergunta por ele, Caim responde: «Sou, porventura, guarda do meu irmão?» (Gn 4, 9).[3] Com certeza! Caim é o «guarda» de seu irmão. «Nestas narrações tão antigas, ricas de profundo simbolismo, já estava contida a convicção atual de que tudo está inter-relacionado e o cuidado autêntico da nossa própria vida e das nossas relações com a natureza é inseparável da fraternidade, da justiça e da fidelidade aos outros».[4]

3. Deus Criador, modelo do cuidado

A Sagrada Escritura apresenta Deus, além de Criador, como Aquele que cuida das suas criaturas, em particular de Adão, Eva e seus filhos. O próprio Caim, embora caia sobre ele a maldição por causa do crime que cometera, recebe como dom do Criador um sinal de proteção, para que a sua vida seja salvaguardada (cf. Gn 4, 15). Este facto, ao mesmo tempo que confirma a dignidade inviolável da pessoa, criada à imagem e semelhança de Deus, manifesta também o plano divino para preservar a harmonia da criação, porque «a paz e a violência não podem habitar na mesma morada».[5]

É precisamente o cuidado da criação que está na base da instituição do Shabbat que, além de regular o culto divino, visava restabelecer a ordem social e a solicitude pelos pobres (Gn 2, 1-3; Lv 25, 4). A celebração do Jubileu, quando se completava o sétimo ano sabático, consentia uma trégua à terra, aos escravos e aos endividados. Neste ano de graça, cuidava-se dos mais vulneráveis, oferecendo-lhes uma nova perspetiva de vida, para que não houvesse qualquer necessitado entre o povo (cf. Dt 15, 4).

Digna de nota é também a tradição profética, onde o auge da compreensão bíblica da justiça se manifesta na forma como uma comunidade trata os mais frágeis no seu seio. É por isso que particularmente Amós (2, 6-8; 8) e Isaías (58) erguem continuamente a voz em prol de justiça para os pobres, que, pela sua vulnerabilidade e falta de poder, são ouvidos só por Deus, que cuida deles (cf. Sal 34, 7; 113, 7-8).

4. O cuidado no ministério de Jesus

A vida e o ministério de Jesus encarnam o ápice da revelação do amor do Pai pela humanidade (Jo 3,16). Na sinagoga de Nazaré, Jesus manifestou-Se como Aquele que o Senhor consagrou e enviou a «anunciar a Boa-Nova aos pobres», «a proclamar a libertação aos cativos e, aos cegos, a recuperação da vista; a mandar em liberdade os oprimidos» (Lc 4, 18). Estas ações messiânicas, típicas dos jubileus, constituem o testemunho mais eloquente da missão que o Pai Lhe confiou. Na sua compaixão, Cristo aproxima-Se dos doentes no corpo e no espírito e cura-os; perdoa os pecadores e dá-lhes uma nova vida. Jesus é o Bom Pastor que cuida das ovelhas (cf. Jo 10, 11-18; Ez 34, 1-31); é o Bom Samaritano que Se inclina sobre o ferido, trata das suas feridas e cuida dele (cf. Lc 10, 30-37).

No ponto culminante da sua missão, Jesus sela o seu cuidado por nós, oferecendo-Se na cruz e libertando-nos assim da escravidão do pecado e da morte. Deste modo, com o dom da sua vida e o seu sacrifício, abriu-nos o caminho do amor e disse a cada um: «Segue-Me! Faz tu também o mesmo» (cf. Lc 10, 37).

5. A cultura do cuidado, na vida dos seguidores de Jesus

As obras de misericórdia espiritual e corporal constituem o núcleo do serviço de caridade da Igreja primitiva. Os cristãos da primeira geração praticavam a partilha para não haver entre eles alguém necessitado (cf. At 4, 34-35) e esforçavam-se por tornar a comunidade uma casa acolhedora, aberta a todas as situações humanas, disposta a ocupar-se dos mais frágeis. Assim, tornou-se habitual fazer ofertas voluntárias para alimentar os pobres, enterrar os mortos e nutrir os órfãos, os idosos e as vítimas de desastres, como os náufragos. E em períodos sucessivos, quando a generosidade dos cristãos perdeu um pouco do seu ímpeto, alguns Padres da Igreja insistiram que a propriedade é pensada por Deus para o bem comum. Santo Ambrósio afirmava que «a natureza concedeu todas as coisas aos homens para uso comum. (…) Portanto, a natureza produziu um direito comum para todos, mas a ganância tornou-o um direito de poucos».[6] Superadas as perseguições dos primeiros séculos, a Igreja aproveitou a liberdade para inspirar a sociedade e a sua cultura. «As necessidades da época exigiam novas energias ao serviço da caridade cristã. As crónicas históricas relatam inúmeros exemplos de obras de misericórdia. De tais esforços conjuntos, resultaram numerosas instituições para alívio das várias necessidades humanas: hospitais, albergues para os pobres, orfanatos, lares para crianças, abrigos para forasteiros, e assim por diante».[7]

6. Os princípios da doutrina social da Igreja como base da cultura do cuidado

A diakonia das origens, enriquecida pela reflexão dos Padres e animada, ao longo dos séculos, pela caridade operosa de tantas luminosas testemunhas da fé, tornou-se o coração pulsante da doutrina social da Igreja, proporcionando a todas as pessoas de boa vontade um precioso património de princípios, critérios e indicações, donde se pode haurir a «gramática» do cuidado: a promoção da dignidade de toda a pessoa humana, a solidariedade com os pobres e indefesos, a solicitude pelo bem comum e a salvaguarda da criação.

* O cuidado como promoção da dignidade e dos direitos da pessoa

«O conceito de pessoa, que surgiu e amadureceu no cristianismo, ajuda a promover um desenvolvimento plenamente humano. Porque a pessoa exige sempre a relação e não o individualismo, afirma a inclusão e não a exclusão, a dignidade singular, inviolável e não a exploração».[8] Toda a pessoa humana é fim em si mesma, e nunca um mero instrumento a ser avaliado apenas pela sua utilidade: foi criada para viver em conjunto na família, na comunidade, na sociedade, onde todos os membros são iguais em dignidade. E desta dignidade derivam os direitos humanos, bem como os deveres, que recordam, por exemplo, a responsabilidade de acolher e socorrer os pobres, os doentes, os marginalizados, o nosso «próximo, vizinho ou distante no espaço e no tempo».[9]

* O cuidado do bem comum

Cada aspeto da vida social, política e económica encontra a sua realização, quando se coloca ao serviço do bem comum, isto é do «conjunto das condições da vida social que permitem, tanto aos grupos como a cada membro, alcançar mais plena e facilmente a própria perfeição».[10] Por conseguinte os nossos projetos e esforços devem ter sempre em conta os efeitos sobre a família humana inteira, ponderando as suas consequências para o momento presente e para as gerações futuras. Quão verdadeiro e atual seja tudo isto, no-lo mostra a pandemia Covid-19, perante a qual «nos demos conta de estar no mesmo barco, todos frágeis e desorientados mas ao mesmo tempo importantes e necessários, todos chamados a remar juntos»,[11] porque «ninguém se salva sozinho»[12] e nenhum Estado nacional isolado pode assegurar o bem comum da própria população.[13]

* O cuidado através da solidariedade

A solidariedade exprime o amor pelo outro de maneira concreta, não como um sentimento vago, mas como «a determinação firme e perseverante de se empenhar pelo bem comum, ou seja, pelo bem de todos e de cada um, porque todos nós somos verdadeiramente responsáveis por todos».[14] A solidariedade ajuda-nos a ver o outro – quer como pessoa quer, em sentido lato, como povo ou nação – não como um dado estatístico, nem como meio a usar e depois descartar quando já não for útil, mas como nosso próximo, companheiro de viagem, chamado a participar, como nós, no banquete da vida, para o qual todos somos igualmente convidados por Deus.

* O cuidado e a salvaguarda da criação

A encíclica Laudato si’ reconhece plenamente a interconexão de toda a realidade criada, destacando a exigência de ouvir ao mesmo tempo o grito dos necessitados e o da criação. Desta escuta atenta e constante pode nascer um cuidado eficaz da terra, nossa casa comum, e dos pobres. A propósito, desejo reiterar que «não pode ser autêntico um sentimento de união íntima com os outros seres da natureza, se ao mesmo tempo não houver no coração ternura, compaixão e preocupação pelos seres humanos».[15] Na verdade «paz, justiça e salvaguarda da criação são três questões completamente ligadas, que não se poderão separar para ser tratadas individualmente, sob pena de cair novamente no reducionismo».[16]

7. A bússola para um rumo comum

Assim, num tempo dominado pela cultura do descarte e perante o agravamento das desigualdades dentro das nações e entre elas,[17] gostaria de convidar os responsáveis das Organizações internacionais e dos Governos, dos mundos económico e científico, da comunicação social e das instituições educativas a pegarem nesta «bússola» dos princípios acima lembrados para dar um rumo comum ao processo de globalização, «um rumo verdadeiramente humano».[18] Na verdade, este permitiria estimar o valor e a dignidade de cada pessoa, agir conjunta e solidariamente em prol do bem comum, aliviando quantos padecem por causa da pobreza, da doença, da escravidão, da discriminação e dos conflitos. Através desta bússola, encorajo todos a tornarem-se profetas e testemunhas da cultura do cuidado, a fim de preencher tantas desigualdades sociais. E isto só será possível com um forte e generalizado protagonismo das mulheres na família e em todas as esferas sociais, políticas e institucionais.

A bússola dos princípios sociais, necessária para promover a cultura do cuidado, vale também para as relações entre as nações, que deveriam ser inspiradas pela fraternidade, o respeito mútuo, a solidariedade e a observância do direito internacional. A este respeito, hão de ser reafirmadas a proteção e a promoção dos direitos humanos fundamentais, que são inalienáveis, universais e indivisíveis.[19]

Deve ser recordado também o respeito pelo direito humanitário, sobretudo nesta fase em que se sucedem, sem interrupção, conflitos e guerras. Infelizmente, muitas regiões e comunidades já não se recordam dos tempos em que viviam em paz e segurança. Numerosas cidades tornaram-se um epicentro da insegurança: os seus habitantes fatigam a manter os seus ritmos normais, porque são atacados e bombardeados indiscriminadamente por explosivos, artilharia e armas ligeiras. As crianças não podem estudar. Homens e mulheres não podem trabalhar para sustentar as famílias. A carestia lança raízes em lugares onde antes era desconhecida. As pessoas são obrigadas a fugir, deixando para trás não só as suas casas, mas também a sua história familiar e as raízes culturais.

As causas de conflitos são muitas, mas o resultado é sempre o mesmo: destruição e crise humanitária. Temos de parar e interrogar-nos: O que foi que levou a sentir o conflito como algo normal no mundo? E, sobretudo, como converter o nosso coração e mudar a nossa mentalidade para procurar verdadeiramente a paz na solidariedade e na fraternidade?

Quanta dispersão de recursos para armas, em particular para as armas nucleares,[20] recursos que poderiam ser utilizados para prioridades mais significativas a fim de garantir a segurança das pessoas, como a promoção da paz e do desenvolvimento humano integral, o combate à pobreza, o remédio das carências sanitárias! Aliás, também isto é evidenciado por problemas globais, como a atual pandemia Covid-19 e as mudanças climáticas. Como seria corajosa a decisão de criar «um “Fundo mundial” com o dinheiro que se gasta em armas e outras despesas militares, para poder eliminar a fome e contribuir para o desenvolvimento dos países mais pobres»![21]

8. Para educar em ordem à cultura do cuidado

A promoção da cultura do cuidado requer um processo educativo, e a bússola dos princípios sociais constitui, para o efeito, um instrumento fiável para vários contextos relacionados entre si. A propósito, gostaria de fornecer alguns exemplos:

A educação para o cuidado nasce na família, núcleo natural e fundamental da sociedade, onde se aprende a viver em relação e no respeito mútuo. Mas a família precisa de ser colocada em condições de poder cumprir esta tarefa vital e indispensável.

Sempre em colaboração com a família, temos outros sujeitos encarregados da educação como a escola e a universidade e analogamente, em certos aspetos, os sujeitos da comunicação social.[22] São chamados a transmitir um sistema de valores fundado no reconhecimento da dignidade de cada pessoa, de cada comunidade linguística, étnica e religiosa, de cada povo e dos direitos fundamentais que dela derivam. A educação constitui um dos pilares de sociedades mais justas e solidárias.

As religiões em geral, e os líderes religiosos em particular, podem desempenhar um papel insubstituível na transmissão aos fiéis e à sociedade dos valores da solidariedade, do respeito pelas diferenças, do acolhimento e do cuidado dos irmãos mais frágeis. Recordo, a propósito, as palavras que o Papa Paulo VI proferiu no Parlamento do Uganda em 1969: «Não temais a Igreja; esta honra-vos, educa-vos cidadãos honestos e leais, não fomenta rivalidades nem divisões, procura promover a liberdade sadia, a justiça social, a paz; se tem alguma preferência é pelos pobres, a educação dos pequeninos e do povo, o cuidado dos atribulados e desvalidos».[23]

A todas as pessoas empenhadas no serviço das populações, nas organizações internacionais, governamentais e não governamentais, com uma missão educativa, e a quantos trabalham, pelos mais variados títulos, no campo da educação e da pesquisa, renovo o meu encorajamento para que se possa chegar à meta duma educação «mais aberta e inclusiva, capaz de escuta paciente, diálogo construtivo e mútua compreensão».[24] Espero que este convite, dirigido no contexto do Pacto Educativo Global, encontre ampla e variegada adesão.

9. Não há paz sem a cultura do cuidado

A cultura do cuidado, enquanto compromisso comum, solidário e participativo para proteger e promover a dignidade e o bem de todos, enquanto disposição a interessar-se, a prestar atenção, disposição à compaixão, à reconciliação e à cura, ao respeito mútuo e ao acolhimento recíproco, constitui uma via privilegiada para a construção da paz. «Em muitas partes do mundo, fazem falta percursos de paz que levem a cicatrizar as feridas, há necessidade de artesãos de paz prontos a gerar, com criatividade e ousadia, processos de cura e de um novo encontro».[25]

Neste tempo, em que a barca da humanidade, sacudida pela tempestade da crise, avança com dificuldade à procura dum horizonte mais calmo e sereno, o leme da dignidade da pessoa humana e a «bússola» dos princípios sociais fundamentais podem consentir-nos de navegar com um rumo seguro e comum. Como cristãos, mantemos o olhar fixo na Virgem Maria, Estrela do Mar e Mãe da Esperança. Colaboremos, todos juntos, a fim de avançar para um novo horizonte de amor e paz, de fraternidade e solidariedade, de apoio mútuo e acolhimento recíproco. Não cedamos à tentação de nos desinteressarmos dos outros, especialmente dos mais frágeis, não nos habituemos a desviar o olhar,[26] mas empenhemo-nos cada dia concretamente por «formar uma comunidade feita de irmãos que se acolhem mutuamente e cuidam uns dos outros».[27]

Vaticano, 8 de dezembro de 2020.

 

Franciscus

 

[1] Cf. Francisco, Vídeo-mensagem por ocasião da LXXV Sessão da Assembleia Geral das Nações Unidas (25 de setembro de 2020).

* A expressão «cultura do cuidado» aparece na encíclica Laudato si’: «o amor social impele-nos a pensar em grandes estratégias que detenham eficazmente a degradação ambiental e incentivem uma cultura do cuidado que permeie toda a sociedade» (n. 231). Veja-se também o número 229.

[2] Cf. Francisco, Carta enc. Laudato si’ (24 de maio de 2015), 67

[3] Cf. Francisco, «Fraternidade, fundamento e caminho para a paz», Mensagem para a celebração do XLVII Dia Mundial da Paz (1 de janeiro de 2014), 2.

[4] Francisco, Carta enc. Laudato si’ (24 de maio de 2015), 70.

[5] Pont. Conselho «Justiça e Paz», Compêndio da Doutrina Social da Igreja, n. 488.

[6] De officiis, 1, 28, 132: PL 16, 67.

[7] K. Bihlmeyer – H. Tüchle, Church History, vol.1 (Westminster, The Newman Press, 1958), 373-374.

[8] Francisco, Discurso aos participantes no Congresso promovido pelo Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral, no cinquentenário da «Populorum progressio» (4 de abril de 2017).

[9] Francisco, Mensagem à XXII Sessão da Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP22) (10 de novembro de 2016. Cf. Mesa Interdicasterial da Santa Sé sobre a ecologia integral, Em marcha pelo cuidado da casa comum; no V aniversário da «Laudato si’» (LEV, 31 de maio de 2020).

[10] Conc. Ecum. Vat. II, Const. past. sobre a Igreja no mundo contemporâneo Gaudium et spes, 26.

[11] Francisco, Momento Extraordinário de Oração em Tempo de Epidemia (27 de março de 2020).

[12] Ibidem.

[13] Cf. Francisco, Carta enc. Fratelli tutti (3 de outubro de 2020), 8; 153.

[14] São João Paulo II, Carta enc. Sollicitudo rei socialis (30 de dezembro de 1987), 38.

[15] Francisco, Carta enc. Laudato si’ (24 de maio de 2015), 91.

[16] Conferência do Episcopado Dominicano, Carta past. Sobre la relación del hombre con la naturaleza (21 de janeiro de 1987); cf. Francisco, Carta enc. Laudato si’ (24 de maio de 2015), 92.

[17] Cf. Francisco, Carta enc. Fratelli tutti (3 de outubro de 2020), 125.

[18] Ibid., 29.

[19] Cf. Francisco, Mensagem aos participantes na Conferência Internacional «Os direitos humanos no mundo contemporâneo: conquistas, omissões, negações» (Roma, 10 de dezembro de 2018).

[20] Cf. Francisco, Mensagem à Conferência da ONU finalizada a negociar um instrumento juridicamente vinculante sobre a proibição das armas nucleares, que leve à sua total eliminação (23 de março de 2017).

[21] Francisco, Vídeo-mensagem por ocasião do Dia Mundial da Alimentação de 2020 (16 de outubro de 2020).

[22] Cf. Bento XVI, «Educar os jovens para a justiça e a paz», Mensagem para o XLV Dia Mundial da Paz (1 de janeiro de 2012), 2; Francisco, «Vence a indiferença e conquista a paz», Mensagem para o XLIX Dia Mundial da Paz (1 de janeiro de 2016), 6.

[23] Discurso aos Deputados e Senadores do Uganda (Kampala 1 de agosto de 1969).

[24] Francisco, Mensagem para o lançamento do Pacto Educativo (12 de setembro de 2019).

[25] Francisco, Carta enc. Fratelli tutti (3 de outubro de 2020), 225.

[26] Cf. ibid., 64.

[27] Ibid., 96; cf. Francisco, «Fraternidade, fundamento e caminho para a paz», Mensagem para a celebração do XLVII Dia Mundial da Paz (1 de janeiro de 2014), 1.


Fonte: http://www.vatican.va/content/francesco/pt/messages/peace/documents/papa-francesco_20201208_messaggio-54giornatamondiale-pace2021.html 

segunda-feira, 17 de agosto de 2020

POR QUE NÃO FOI PERMITIDO A ESSE BEBÊ VIVER? (Dom Ricardo Hoepers)


Dom Ricardo: "Desde o momento que soube do assassinato da bebê de mais de 5 meses, de São Mateus (ES), com uma injeção de potássio na cavidade cardíaca da criança, em Recife (PE), cuja mãe é uma menina de dez anos, fiquei pensando, como explicar esse crime hediondo".

Vatican News

O bispo de Rio Grande (RS) e presidente da Comissão Episcopal Pastoral para a Vida e a Família da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), dom Ricardo Hoepers, escreveu artigo questionando a decisão de interrupção da gravidez de uma menina de dez anos que sofreu abuso sexual, em São Mateus (ES).

“É uma história que precisa ser esclarecida. É um processo que precisa ser desvendado. Duas crianças que poderiam viver… teve laudo técnico a favor da vida, teve suporte profissional a favor da vida, teve hospital disposto a cuidar até o fim da gestação, tiveram todas as condições de salvar as duas vidas, mas, de repente, uma transferência, de um Estado para o outro, e toda uma mobilização para que o aborto fosse realizado. Nas mãos de quem ficou a tutela dessa menina, quem decidiu tudo por ela?”, questiona o bispo.

Desde o momento que soube do assassinato da bebê de mais de 5 meses, de São Mateus (ES), com uma injeção de potássio na cavidade cardíaca da criança, em Recife (PE), cuja mãe é uma menina de dez anos, fiquei pensando, como explicar esse crime hediondo.

Por que não foi permitido esse bebê viver? Que erro ele cometeu? Qual foi seu crime? Por que uma condenação tão rápida, sem um processo justo e fora da legalidade? Por que o desprezo a tantas outras possibilidades de possíveis soluções em prol da vida? Foram muitos os envolvidos, mas o silêncio e omissão dos órgãos institucionais que têm a prerrogativa de defender a vida, se entregaram às manobras de quem defende a morte de inocentes. Por quê?

É uma história que precisa ser esclarecida. É um processo que precisa ser desvendado. Duas crianças que poderiam viver… teve laudo técnico a favor da vida, teve suporte profissional a favor da vida, teve hospital disposto a cuidar até o fim da gestação, tiveram todas as condições de salvar as duas vidas, mas, de repente, uma transferência, de um Estado para o outro, e toda uma mobilização para que o aborto fosse realizado. Nas mãos de quem ficou a tutela dessa menina, quem decidiu tudo por ela?

Por que a obsessão de apresentar uma única saída? Por que burlar as leis para alcançar esse objetivo de usar de uma criança para um intento assassino?

Difícil raciocinar o que aconteceu, como aconteceu e porque terminou assim!

Ministério Público do Espírito Santo, Conselho Tutelar, Secretários Municipais da Saúde de Vitória e Recife e Secretários Estaduais da Saúde do Espírito Santo e de Pernambuco têm muitas explicações a dar à sociedade brasileira. Por que foi rejeitado um laudo técnico de profissionais e o suporte dos mesmos, obrigando o hospital a dar alta e subitamente transferir a menina-mãe para um hospital em outro Estado? Há claramente um abuso de poder que merece ser investigado.

Mas, de tudo isto, ainda resta a pergunta: por que o bebê não pôde viver? Por que foi sentenciado à morte, mesmo sendo inocente, e tendo todas as condições para vir à vida com os devidos cuidados e com o apoio técnico profissional à disposição? Por que optaram pela morte e não pela vida, desrespeitando a lei, pois se tratava de um bebê de 22 semanas?

Se não somos capazes nem de defender a nossa própria espécie, que tipo de humano estamos nos tornando? Estamos negando nossa própria humanidade. A violência do estupro e do abuso sexual é infame e horrenda, mas a violência do aborto provocado em um ser inocente e sem defesa é tão terrível quanto. Ambos são crimes. Apontam como sinais da degradação moral e da decadência dos costumes, ferindo os valores mais sublimes como o respeito à dignidade do ser humano e a sacralidade do valor da vida!

Mesmo sendo rechaçados pelo nosso discurso religioso em prol da vida, quero dizer que não se trata de nenhum fundamentalismo, mas do uso da reta razão. Quando vem à mente um tema tão básico, tão racional, tão científico, tão antigo, de uma regra de ouro que é uma verdade basilar e aceita por qualquer sociedade civilizada: “Não matarás um inocente”, então nos perguntamos: Por que estão matando nossas crianças? Ou perdemos o fio da história ou nos tornamos reféns de uma razão autodestrutiva, que se odeia e, por isso, mata o seu futuro antes dele nascer…

Hoje faço uma prece por todas as crianças que gostariam nascer, brincar, chorar e viver, mas, foram assassinadas antes de nascer! Esperamos explicações e respostas sobre esse caso. Chega de violência! Não ao aborto! Escolhe, pois, a vida (Dt, 30,19).

Rio Grande (RS), 17 de agosto de 2020.

Dom Ricardo Hoepers

Presidente da Comissão Vida e Família da CNBB

Fonte: CNBB

https://www.vaticannews.va/pt/igreja/news/2020-08/dom-ricardo-hoepers-questiona-por-que-nao-foi-permitido-viver.html


terça-feira, 9 de junho de 2020

SANTO ANTÔNIO DE PÁDUA OU DE LISBOA: ALGUNS DESTAQUES

Importância de Santo Antônio para a Igreja

Santo Antônio é o santo do povo. Valorizou grandemente as Sagradas Escrituras e focou sua vida em Jesus Cristo. Foi teólogo, místico e asceta, grande orador, mestre em teologia, pregador da doutrina católica contra os albigenses e valdenses.

Ingressou, em 1220, na Ordem dos Franciscanos 

Ele ingressou inicialmente na Ordem dos Cônegos Regulares da Santa Cruz, que seguiam a Regra de Santo Agostinho. Com eles, fez os estudos religiosos, especialmente através da Bíblia e da literatura patrística, científica e clássica. Ingressou, em 1220, na Ordem dos Franciscanos, indo para a Itália. Por causa de sua eloquência e cultura religiosa, foi nomeado mestre de Teologia em Bolonha, tornando-se ao mesmo tempo grande pregador e defensor da fé católica, como mencionado.


Exímio pregador e escritor

Como pregador, tornou-se famoso pela defesa dos pobres e pelo combate das heresias (como as dos albigenses e valdenses); Destacou-se como grande conhecedor da Bíblia, bem como dos escritos dos Padres da Igreja e de outros escritores. Seus escritos estão recheados com citações dos escritores e filósofos clássicos, presentes nos 77 sermões de sua autoria.

O menino Jesus apareceu em seus braços

Após a sua morte, o Conde de Tiso contou ter visto raios de luz saindo de seu quarto, compreendendo que se tratava de um milagre ao ver a Virgem Maria entregando o menino Jesus nos braços do frade. Diz-se que, enquanto o observava, o Menino desapareceu. O próprio Santo Antônio teria recomendado que tal milagre só fosse relatado após sua morte.

O Santo dos milagres

Os muitos milagres, ainda em vida, fizeram com que a Igreja, através do Papa Gregório IX, o reconhecesse Santo logo após sua morte (apenas 11 meses depois). Um dos grandes milagres foi a conversão dos hereges em Rimini, Itália; estes não querendo escutá-lo, Santo Antônio foi pregar aos peixes a beira do rio; estes logo colocaram a cabeça para fora d'água para ouvi-lo; este fato impressionou os hereges que se converteram. São relatados muitos outros milagres, em grande número. Em torno de Santo Antônio, divulgou-se uma tradição taumatúrgica, guardada  até nossos dias na alma de nosso povo.

O Santo de todo o mundo

O Papa Leão XIII declara-o "o Santo de todo o mundo", destacando a sua importância na história de Portugal, sobretudo pela atenção que lhe dedicaram os monarcas lusos e a importância deste Santo para a identidade e a fé dos povo português.

O Santo casamenteiro 

Como santo casamenteiro, não há elementos claros em seus escritos ou biografia.  São vários, porém, os milagres a ele atribuídos, bem como fatos como sua ajuda dada às noivas pobres que não tinham dinheiro para o enxoval, ajudando-as a recolher doações... Esta é uma tradição trazida ao Brasil pelos colonizadores portugueses.

Frei Nilo Agostini

NB: A imagem de Santo Antônio acima é a que se encontra na Igreja de Santo Antônio do Pari, São Paulo (capital).

segunda-feira, 8 de junho de 2020

"A IGREJA CATÓLICA NÃO FAZ BARGANHAS", AFIRMA A NOTA DE ESCLARECIMENTO DA CNBB


Em Nota de Esclarecimento, emitida na noite deste sábado, 6 de junho, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), por meio de sua Comissão Episcopal Pastoral para a Comunicação, juntamente com a SIGNIS Brasil e a Rede Católica de Rádio (RCR), associações de caráter nacional que reúnem as TVs e rádios de inspiração católica do Brasil, informam que “não organizaram e não tiveram qualquer envolvimento com a reunião entre o presidente da República, Jair Bolsonaro, representantes de algumas emissoras de TV de inspiração católica e alguns parlamentares” como informou o jornal O Estado de São Paulo. As organizações informam também que “nem ao menos foram informadas sobre tal encontro”.

O documento esclarece ainda que “as emissoras intituladas ‘de inspiração católica’ possuem naturezas diferentes. Algumas são geridas por associações e organizações religiosas, outra por grupo empresarial particular, enquanto outras estão juridicamente vinculadas a dioceses no Brasil. Elas seguem seus próprios estatutos e princípios editoriais. Contudo, nenhuma delas e nenhum de seus membros representa a Igreja Católica, nem fala em seu nome e nem da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, que tem feito todo o esforço, para que todas as emissoras assumam claramente as Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil”.

Sobre a reunião, as organizações que assinam conjuntamente a Nota de Esclarecimento, afirmam ter recebido com estranheza e indignação a notícia sobre a oferta de apoio ao governo por parte de emissoras de TV em troca de verbas e solução de problemas afeitos à comunicação. “A Igreja Católica não faz barganhas. Ela estabelece relações institucionais com agentes públicos e os poderes constituídos pautada pelos valores do Evangelho e nos valores democráticos, republicanos, éticos e morais”, diz o texto.
Veja a íntegra da NOTA DE ESCLARECIMENTO, em seguida:




domingo, 24 de maio de 2020

Papa recorda 5 anos da Laudato Si': ouvir o grito da Terra e dos pobres

Exatamente no dia 24 de maio de 2015, o Pontífice assinava a Encíclica “com a qual se buscou chamar à atenção o grito da Terra e dos pobres”.
Bianca Fraccalvieri – Cidade do Vaticano
O grito da Terra e dos pobres: ao final da oração do Regina Coeli, o Papa Francisco recordou os cinco anos da publicação da Laudato Si’.
Exatamente no dia 24 de maio de 2015, o Pontífice assinava a Encíclica “com a qual se buscou chamar à atenção o grito da Terra e dos pobres”.
Francisco mencionou a iniciativa de reflexão do Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral de convocar o ano “Laudato Si’”, que se concluirá em 24 de maio de 2021.
“Convido todas as pessoas de boa vontade a aderirem para cuidar da nossa casa comum e dos nossos irmãos e irmãs mais frágeis."
O Papa informou que no site do Dicastério será publicada a oração dedicada a este Ano especial: “Será belo rezá-la”.
Eis a oração
Deus de amor,
Criador do céu e da terra e de tudo que neles contêm.
Abri as nossas mentes e tocai os nossos corações, para que possamos atender ao vosso dom da criação.
Fazei-vos presente para os necessitados nestes tempos difíceis, especialmente os mais pobres e os mais vulneráveis.
Ajudai-nos a demonstrar solidariedade criativa para abordar as consequências desta pandemia global.
Tornai-nos corajosos para abraçar as mudanças que são necessárias na busca pelo bem comum.
Que possamos sentir, agora mais do que nunca, que estamos todos interligados e interdependentes.
Fazei com que possamos escutar e atender ao grito da terra e ao grito dos pobres. Que estes sentimentos atuais sejam as dores de parto para um mundo mais fraterno e sustentável.
Oremos sob o olhar amoroso de Maria, Auxílio dos Cristãos, por Cristo Nosso Senhor.
Amém
Fonte: https://www.vaticannews.va/pt/papa/news/2020-05/papa-francisco-recorda-cinco-anos-laudato-si-grito-terra-pobres.html

54º DIA MUNDIAL DAS COMUNICAÇÕES SOCIAIS

MENSAGEM DO PAPA FRANCISCO

PARA O LIV DIA MUNDIAL DAS COMUNICAÇÕES SOCIAIS


« “Para que possas contar e fixar na memória” (Ex 10, 2).

A vida faz-se história »


Desejo dedicar a Mensagem deste ano ao tema da narração, pois, para não nos perdermos, penso que precisamos de respirar a verdade das histórias boas: histórias que edifiquem, e não as que destruam; histórias que ajudem a reencontrar as raízes e a força para prosseguirmos juntos. Na confusão das vozes e mensagens que nos rodeiam, temos necessidade duma narração humana, que nos fale de nós mesmos e da beleza que nos habita; uma narração que saiba olhar o mundo e os acontecimentos com ternura, conte a nossa participação num tecido vivo, revele o entrançado dos fios pelos quais estamos ligados uns aos outros.

1. Tecer histórias
O homem é um ente narrador. Desde pequenos, temos fome de histórias, como a temos de alimento. Sejam elas em forma de fábula, romance, filme, canção, ou simples notícia, influenciam a nossa vida, mesmo sem termos consciência disso. Muitas vezes, decidimos aquilo que é justo ou errado com base nos personagens e histórias assimiladas. As narrativas marcam-nos, plasmam as nossas convicções e comportamentos, podem ajudar-nos a compreender e dizer quem somos.
O homem não só é o único ser que precisa de vestuário para cobrir a própria vulnerabilidade (cf. Gn 3, 21), mas também o único que tem necessidade de narrar-se a si mesmo, «revestir-se» de histórias para guardar a própria vida. Não tecemos apenas roupa, mas também histórias: de facto, servimo-nos da capacidade humana de «tecer» quer para os tecidos, quer para os textos. As histórias de todos os tempos têm um «tear» comum: a estrutura prevê «heróis» – mesmo do dia-a-dia – que, para encalçar um sonho, enfrentam situações difíceis, combatem o mal movidos por uma força que os torna corajosos, a força do amor. Mergulhando dentro das histórias, podemos voltar a encontrar razões heroicas para enfrentar os desafios da vida.
O homem é um ente narrador, porque em devir: descobre-se e enriquece-se com as tramas dos seus dias. Mas, desde o início, a nossa narração está ameaçada: na história, serpeja o mal.

2. Nem todas as histórias são boas
«Se comeres, tornar-te-ás como Deus» (cf. Gn 3, 4): esta tentação da serpente introduz, na trama da história, um nó difícil de desfazer. «Se possuíres…, tornar-te-ás…, conseguirás…»: sussurra ainda hoje a quem se utiliza do chamado storytelling para fins instrumentais. Quantas histórias nos narcotizam, convencendo-nos de que, para ser felizes, precisamos continuamente de ter, possuir, consumir. Quase não nos damos conta de quão ávidos nos tornamos de bisbilhotices e intrigas, de quanta violência e falsidade consumimos. Frequentemente, nos «teares» da comunicação, em vez de narrações construtivas, que solidificam os laços sociais e o tecido cultural, produzem-se histórias devastadoras e provocatórias, que corroem e rompem os fios frágeis da convivência. Quando se misturam informações não verificadas, repetem discursos banais e falsamentepersuasivos, percutem com proclamações de ódio, está-se, não a tecer a história humana, mas a despojar o homem da sua dignidade.
Mas, enquanto as histórias utilizadas para proveito próprio ou ao serviço do poder têm vida curta, uma história boa é capaz de transpor os confins do espaço e do tempo: à distância de séculos, permanece atual, porque nutre a vida.
Numa época em que se revela cada vez mais sofisticada a falsificação, atingindo níveis exponenciais (o deepfake), precisamos de sapiência para patrocinar e criar narrações belas, verdadeiras e boas. Necessitamos de coragem para rejeitar as falsas e depravadas. Precisamos de paciência e discernimento para descobrirmos histórias que nos ajudem a não perder o fio, no meio das inúmeras lacerações de hoje; histórias que tragam à luz a verdade daquilo que somos, mesmo na heroicidade oculta do dia a dia.

3. A História das histórias
A Sagrada Escritura é uma História de histórias. Quantas vicissitudes, povos, pessoas nos apresenta! Desde o início, mostra-nos um Deus que é simultaneamente criador e narrador: de facto, pronuncia a sua Palavra e as coisas existem (cf. Gn 1). Deus, através deste seu narrar, chama à vida as coisas e, no apogeu, cria o homem e a mulher como seus livres interlocutores, geradores de história juntamente com Ele. Temos um Salmo onde a criatura se conta ao Criador: «Tu modelaste as entranhas do meu ser e teceste-me no seio de minha mãe. Dou-Te graças por me teres feito uma maravilha estupenda (…). Quando os meus ossos estavam a ser formados, e eu, em segredo, me desenvolvia, recamado nas profundezas da terra, nada disso Te era oculto» (Sal 139/138, 13-15). Não nascemos perfeitos, mas necessitamos de ser constantemente «tecidos» e «recamados». A vida foi-nos dada como convite a continuar a tecer a «maravilha estupenda» que somos.
Neste sentido, a Bíblia é a grande história de amor entre Deus e a humanidade. No centro, está Jesus: a sua história leva à perfeição o amor de Deus pelo homem e, ao mesmo tempo, a história de amor do homem por Deus. Assim, o homem será chamado, de geração em geração, a contar e fixar na memória os episódios mais significativos desta História de histórias: os episódios capazes de comunicar o sentido daquilo que aconteceu.
O título desta Mensagem é tirado do livro do Êxodo, narrativa bíblica fundamental que nos faz ver Deus a intervir na história do seu povo. Com efeito, quando os filhos de Israel, escravizados, clamam por Ele, Deus ouve e recorda-Se: «Deus recordou-Se da sua aliança com Abraão, Isaac e Jacob. Deus viu os filhos de Israel e reconheceu-os» (Ex 2, 24-25). Da memória de Deus brota a libertação da opressão, que se verifica através de sinais e prodígios. E aqui o Senhor dá a Moisés o sentido de todos estes sinais: «Para que possas contar e fixar na memória do teu filho e do filho do teu filho (…) os meus sinais que Eu realizei no meio deles. E vós conhecereis que Eu sou o Senhor» (Ex 10, 2). A experiência do Êxodo ensina-nos que o conhecimento de Deus se transmite sobretudo contando, de geração em geração, como Ele continua a tornar-Se presente. O Deus da vida comunica-Se, narrando a vida.
O próprio Jesus falava de Deus, não com discursos abstratos, mas com as parábolas, breves narrativas tiradas da vida de todos os dias. Aqui a vida faz-se história e depois, para o ouvinte, a história faz-se vida: tal narração entra na vida de quem a escuta e transforma-a.
Também os Evangelhos – não por acaso – são narrações. Enquanto nos informam acerca de Jesus, «performam-nos»[1] à imagem de Jesus, configuram-nos a Ele: o Evangelho pede ao leitor que participe da mesma fé para partilhar da mesma vida. O Evangelho de João diz-nos que o Narrador por excelência – o Verbo, a Palavra – fez-Se narração: «O Filho unigénito, que é Deus e está no seio do Pai, foi Ele quem O contou» (1, 18). Usei o termo «contou», porque o original exeghésato tanto se pode traduzir «revelou» como «contou». Deus teceu-Se pessoalmente com a nossa humanidade, dando-nos assim uma nova maneira de tecer as nossas histórias.

4. Uma história que se renova
A história de Cristo não é um património do passado; é a nossa história, sempre atual. Mostra-nos que Deus tomou a peito o homem, a nossa carne, a nossa história, a ponto de Se fazer homem, carne e história. E diz-nos também que não existem histórias humanas insignificantes ou pequenas. Depois que Deus Se fez história, toda a história humana é, de certo modo, história divina. Na história de cada homem, o Pai revê a história do seu Filho descido à terra. Cada história humana tem uma dignidade incancelável. Por isso, a humanidade merece narrações que estejam à sua altura, àquela altura vertiginosa e fascinante a que Jesus a elevou.
Vós «sois uma carta de Cristo – escrevia São Paulo aos Coríntios –, confiada ao nosso ministério, escrita, não com tinta, mas com o Espírito do Deus vivo; não em tábuas de pedra, mas em tábuas de carne que são os vossos corações» (2 Cor 3, 3). O Espírito Santo, o amor de Deus, escreve em nós. E, escrevendo dentro de nós, fixa em nós o bem, recorda-no-lo. De facto, re-cordar significa levar ao coração, «escrever» no coração. Por obra do Espírito Santo, cada história, mesmo a mais esquecida, mesmo aquela que parece escrita em linhas mais tortas, pode tornar-se inspirada, pode renascer como obra-prima, tornando-se um apêndice de Evangelho. Assim as Confissões de Agostinho, o Relato do Peregrino de Inácio, a História de uma alma de Teresinha do Menino Jesus, os Noivos prometidos (Promessi sposi) de Alexandre Manzoni, os Irmãos Karamazov de Fiódor Dostoevskij… e inumeráveis outras histórias, que têm representado admiravelmente o encontro entre a liberdade de Deus e a do homem. Cada um de nós conhece várias histórias que perfumam de Evangelho: testemunham o Amor que transforma a vida. Estas histórias pedem para ser partilhadas, contadas, feitas viver em todos os tempos, com todas as linguagens, por todos os meios.

5. Uma história que nos renova
Em cada grande história, entra em jogo a nossa história. Ao mesmo tempo que lemos a Escritura, as histórias dos Santos e outros textos que souberam ler a alma do homem e trazer à luz a sua beleza, o Espírito Santo fica livre para escrever no nosso coração, renovando em nós a memória daquilo que somos aos olhos de Deus. Quando fazemos memória do amor que nos criou e salvou, quando metemos amor nas nossas histórias diárias, quando tecemos de misericórdia as tramas dos nossos dias, nesse momento estamos a mudar de página. Já não ficamos atados a lamentos e tristezas, ligados a uma memória doente que nos aprisiona o coração, mas, abrindo-nos aos outros, abrimo-nos à própria visão do Narrador. Nunca é inútil narrar a Deus a nossa história: ainda que permaneça inalterada a crónica dos factos, mudam o sentido e a perspetiva. Narrarmo-nos ao Senhor é entrar no seu olhar de amor compassivo por nós e pelos outros. A Ele podemos narrar as histórias que vivemos, levar as pessoas, confiar situações. Com Ele, podemos recompor o tecido da vida, cosendo as ruturas e os rasgões. Quanto nós, todos, precisamos disso!
Com o olhar do Narrador – o único que tem o ponto de vista final –, aproximamo-nos depois dos protagonistas, dos nossos irmãos e irmãs, atores juntamente connosco da história de hoje. Sim, porque ninguém é mero figurante no palco do mundo; a história de cada um está aberta a possibilidades de mudança. Mesmo quando narramos o mal, podemos aprender a deixar o espaço à redenção; podemos reconhecer, no meio do mal, também o dinamismo do bem e dar-lhe espaço.
Por isso, não se trata de seguir as lógicas do storytelling, nem de fazer ou fazer-se publicidade, mas de fazer memória daquilo que somos aos olhos de Deus, testemunhar aquilo que o Espírito escreve nos corações, revelar a cada um que a sua história contém maravilhas estupendas. Para o conseguirmos fazer, confiemo-nos a uma Mulher que teceu a humanidade de Deus no seio e – diz o Evangelho – teceu conjuntamente tudo o que Lhe acontecia. De facto, a Virgem Maria tudo guardou, meditando-o no seu coração (cf. Lc 2, 19). Peçamos-Lhe ajuda a Ela, que soube desatar os nós da vida com a força suave do amor:
Ó Maria, mulher e mãe, Vós tecestes no seio a Palavra divina, Vós narrastes com a vossa vida as magníficas obras de Deus. Ouvi as nossas histórias, guardai-as no vosso coração e fazei vossas também as histórias que ninguém quer escutar. Ensinai-nos a reconhecer o fio bom que guia a história. Olhai o cúmulo de nós em que se emaranhou a nossa vida, paralisando a nossa memória. Pelas vossas mãos delicadas, todos os nós podem ser desatados. Mulher do Espírito, Mãe da confiança, inspirai-nos também a nós. Ajudai-nos a construir histórias de paz, histórias de futuro. E indicai-nos o caminho para as percorrermos juntos.
Roma, em São João de Latrão, na Memória de São Francisco de Sales, 24 de janeiro de 2020.
[Franciscus]

[1] Cf. Bento XVI, Carta enc. Spe salvi (30/XI/2007), 2: «A mensagem cristã não era só "informativa", mas "performativa". Significa isto que o Evangelho não é apenas uma comunicação de realidades que se podem saber, mas uma comunicação que gera factos e muda a vida».

Fonte: http://www.vatican.va/content/francesco/pt/messages/communications/documents/papa-francesco_20200124_messaggio-comunicazioni-sociali.html 

quarta-feira, 13 de maio de 2020

MARIA, MODELO DE ORAÇÃO



Dom Pedro Carlos Cipollini

Introdução
Nos Evangelhos temos três retratos de Maria que devemos trazer bem fixos na mente: O primeiro retrato nos mostra que Maria era toda de Deus. Ela ouvia e meditava a Palavra de Deus, procurando praticá-la. Para Maria Deus falava não só pela Bíblia, mas também pelos fatos da vida. Ao ouvir e observar a Palavra de Deus, Maria encontrava não só a sua felicidade e paz, mas também a causa de seu sofrimento. Nem sempre entendia o que Deus pedia dela. Ela ouvia, meditava e guardava em seu coração (cf. Lc 2,19)… Com razão o anjo lhe diz: “Não tenhas medo, Maria”( Lc 1,30).

Em segundo lugar vemos Maria que era toda do Povo. Atenciosa e preocupada com os outros. Visita Isabel para ajudá-la. Ajuda na festa de casamento em Caná (Jo 2,1). Não abandona os amigos no momento de perigo. Não abandonou Jesus na cruz (cf. Jo 19,25) e nem os Apóstolos no Cenáculo (cf. At 1,14).

Em terceiro lugar ela reza com os amigos. Ficou com os apóstolos rezando até o dia de Pentecostes. Graças à oração de Maria feita junto aos apóstolos, o Espírito Santo desceu em abundância para iniciar a missão da Igreja (cf. At 4,3,31). O segredo da força de Maria era a oração. O cântico de Maria, o Magnificat (cf. Lc 1,46-55), nos mostra muito bem que Maria conhecia os salmos e as Escrituras e orava continuamente. Foi assim que o Espírito Santo veio e fez nascer Jesus e depois a Igreja em Pentecostes. Maria possuía os dons do Espírito Santo que crescem com a oração. (C. Mesters, A mãe de Jesus, Vozes, Petrópolis, 1978, cap. II).

O sociólogo americano Andrew Greeley afirma que Maria representa o “símbolo cultural mais poderoso e popular dos últimos dois mil anos” do ocidente cristão”(cf. in I grandi misteri dela fede. Um catechismo essenziale, Queriniana, Brescia, 1978, 13).

Vamos refletir um pouco sobre Maria que é para nós modelo de oração.
1.   A oração de Jesus e a oração de Maria
a ) Oração de Jesus
A oração e Jesus é constante e profunda. Ela nos introduz na vida de intimidade de Jesus com Deus, a comunhão trinitária. Jesus causou impacto nos discípulos quando perceberam a alegria de Jesus e a intensidade de seu colóquio com o Pai (cf. Lc 11,1). Maria foi a primeira a perceber esta intensidade da oração de Jesus, toda voltada para o Pai. Jesus é o grande orante do Evangelho. Levantava de madrugada para rezar (cf. Mc 1,35), orava à tarde: tendo despedido a multidão, subiu ao monte a sós para rezar (após multiplicar os pães, cf. Mt 14,23). Rezava de noite e antes de tomar grandes decisões como a escolha dos doze apóstolos (cf. Mc 3,10; Lc 6,12).
Os momentos mais importantes e dramáticos da vida de Jesus são acompanhados de oração: no batismo no Jordão (cf. Lc 3,21); antes da transfiguração, reza pela fé de Pedro (cf. Lc 22,31-32), antes da ressurreição de Lázaro (cf. Jo 11,41), reza na última Ceia (cf. Jn 17, 1-5), antes de sua paixão (cf. Lc 22,39), no momento de sua morte (Lc 23,34). Mais que seguir os horários prescritos para a oração no judaísmo, Jesus segue o ritmo do Reino de Deus e seus acontecimentos. Não é um tempo cronológico, mas um tempo salvífico.
Jesus reza não só com palavras ou atitudes corporais (ajoelhar-se, p. ex) mas Ele reza também com o silêncio e a contemplação. Mais que rezar em um lugar ou conforme formulas pré-fabricadas, a oração de Jesus está ligada a uma pessoa: o Pai, com o qual está em contínua comunhão. A última palavra do Jesus terreno é uma oração feita ao Pai: “Pai, em tuas mãos entrego meu espírito”(Lc 23,46).
b ) Oração de Maria
A oração de Maria, assim como a de Jesus é uma oração marcada pela atitude constante de obediência ao Pai, porém através de Jesus, na sua acolhida, marcada também pela contemplação e seguimento. A originalidade da oração de Maria é a contemplação constante do mistério da Encarnação, de seu divino filho Jesus.
Deus nunca tinha revelado seu rosto, ninguém jamais o viu, mas Jesus é a imagem do Deus vivo (cf. Cl 1,15). A Maria se aplica por primeiro a bem-aventurança que diz: “Felizes os olhos que veem o que vocês estão vendo” (Lc 10,23). Maria começa a contemplar o rosto de Deus que se manifesta em um menino do qual ela tem de cuidar e ao mesmo tempo adorar.
Mas o que significa aqui contemplar? É um verbo composto (cum + Templum = estar no Templo) significa habitar em um espaço divino. Maria tem nos braços o criador do universo, por Ele foram feitas todas as coisas (Jo 1,3). A tradição oriental vai chamar Maria de Platytera (mais ampla que os céus), porque trouxe em seu seio e depois em seus braços aquele que criou o universo. Ao acolher Jesus ela acolhe aquele que é eterno e ilimitado.
A tradição oriental representa Maria orante com os braços levantados diante do trono de Jesus Cristo “Pantocrator”, aquele que tudo cria e governa. Em outras representações ela é figurada tendo no peito um medalhão com a figura do menino Jesus. Maria é a grande orante e intercessora do povo de Deus.
No evangelho de São João o conhecimento, a contemplação de Jesus, é a vida eterna (cf. Jo 17,3). Contemplação é pois, o conhecimento amoroso de Jesus. Esta foi a atitude constante de Maria para com seu filho Jesus. A convivência com Jesus não eliminou a necessidade da fé em Maria, talvez tenha aumentado mais ainda esta necessidade fazendo-a abandonar-se totalmente em Deus.
Maria contempla Jesus na fé. Ela é a primeira dos pequenos, aos quais Deus revela seus segredos ocultando-os aos sábios e entendidos (cf. Mt 11,25). Ela é bem aventurada porque acreditou cada dia em meio às provas e contrariedades da vida oculta de Nazaré. Maria contempla também na “escuridão da visão” ou “noite escura da fé”. Estar perto de Jesus não lhe dava o privilégio de saber o que iria acontecer com ele. Há como que um véu que oculta o mistério revelado. Entre Maria e Jesus está este véu que, ao mesmo tempo que revela, oculta o mistério. Maria vivia a intimidade do mistério de seu Filho não em um conhecimento luminoso, mas na fé. Ela realizou uma peregrinação na fé (cf. João Paulo II in RM 17). Enfim Maria viveu sua contemplação de Jesus na fadiga da fé que foi mais exigente para com ela.

Maria, ao mesmo tempo em que vivia na fé, devia oferecer-se constantemente para caminhar mais intensamente e profundamente em seu itinerário. Maria viveu a “obediência da fé” (Rm 16,26). Dela fala o Concílio Vaticano II: “Crendo e obedecendo ela gerou na terra o próprio filho do Pai…” (LG 63). “O nó da desobediência de Eva foi desatado pela obediência de Maria; o que a Virgem Eva ligou pela incredulidade, a Virgem Maria desligou pela fé” (Santo Irineu in Ad. Haer. III, 22,4, PG 7, 959A).

Assim sendo, Maria acompanha a vida de fé de todos os fiéis que desejam percorrer como ela percorreu o itinerário de fé em Jesus. Ela é a primeira na fé. Jesus é a ponte que permite o contato com Deus, Maria é a materna acompanhante que ajuda os fiéis neste itinerário de atravessar esta ponte. Por isso ela pode ser chamada de Mãe da Igreja (cf. Vaticano II – LG 53; Paulo VI Discurso em 1964, AAS 56 (1964) 1015). Por isso se pode dizer com certeza: não se pode ser cristão se não for “mariano”, pois Maria é o modelo de tudo aquilo que a Igreja e cada fiel de ser em relação a Jesus. “Assim, aquela que está presente no mistério de Cristo como mãe, torna-se – por vontade do Filho e por obra do Espírito Santo – presente no mistério da Igreja. “E na Igreja continua a ser uma presença materna, como indicam as palavras pronunciadas na cruz: Mulher, eis o teu filho; Eis tua mãe”. (João Paulo II in RM 24; idem 45).

Vejamos agora as duas vertentes da oração de Maria que o Papa João Paulo II nos aponta: a devocional (Rosário) e a sacramental (Eucaristia)
2.   O Rosário: caminho mariano para a contemplação de Jesus
O Rosário é o caminho mariano para a comunhão com Jesus. Oração que se julgava destinada aos simples e iletrados, revela-se no entanto uma oração com dignidade e elevado poder de contemplação evangélica de Jesus em companhia de Maria. O Rosário é uma oração evangélica centrada sobre o mistério da Encarnação redentora (cf. Paulo VI in Culto à Virgem Maria n. 44 e 46).
No Rosário temos várias modalidades de relacionarmos com o mistério de Cristo através de Maria. O Rosário é oração cristológica, porque, do começo ao fim, nos fala e nos conduz a Jesus. Recordamos Cristo em companhia de Maria, compreendemos Cristo desde Maria, entramos na “escola” de Maria, para compreender Jesus seu filho. Nesta oração procuramos conformar-nos a Cristo com Maria, ou seja ter os mesmos sentimentos de Cristo (cf. Rom 13,14), suplicar a Cristo com Maria. No Rosário ainda, anunciamos a Cristo com Maria.
Estas cinco etapas percorridas com Maria, mediante a oração do Rosário, constitui um verdadeiro caminho de formação na autêntica oração cristã. Redescobrindo o Rosário, verdeio compêndio evangélico, se valoriza um caminho de progresso espiritual simples porém eficaz.
3.   Na escola de Maria, mulher eucarística
O Papa São João Paulo II propôs também um caminho mariano até Jesus: o caminho sacramental da oração eucarística. Assim como Igreja e Eucaristia formam um binômio inseparável, Maria e Eucaristia também. Maria encaminha a Igreja para a Eucaristia. Maria é chamada de Hadegetri, ou seja aquela que educa e acompanha os fiéis para a contemplação de seu Filho Eucarístico e para a comunhão com Ele.
Quatro são as atitudes eucarístico-marianas que a Igreja inteira está chamada a aprender, tendo a Maria como modelo e como ajuda materna eficaz.
a ) Atitude de fé: Há uma relação muito grande entre o sim de Maria ao receber Jesus em seu seio e o sim dos fiéis ao comungarem, recebendo Jesus eucarístico.
b ) Atitude de sacrifício: Maria viveu a dimensão sacrifical da eucaristia desde a apresentação de Jesus no templo até sua morte na cruz. O corpo oferecido em sacrifício é o mesmo corpo ao qual ela deu à luz o Filho de Deus.
c ) Atitude de acolhida: é uma terceira atitude eucarístico-mariana, do alto da cruz, Jesus nos deu Maria como mãe, e a atitude eucarística de acolher o sacrifício da cruz implica também na atitude de acolher Maria.
d ) Atitude do Magnificat: canto de louvor e ação de graças. Quando Maria exclama: “minha alma engrandece ao Senhor, meu espírito exulta em Deus, meu Salvador”, leva Jesus em seu seio. Louva o Pai por Jesus, em Jesus e com Jesus. Esta é precisamente a verdadeira atitude eucarística. No cântico de Maria se revela também a índole escatológica da História que é também da Eucaristia: Deus fará nova todas as coisas. A Eucaristia nos foi dada para que nossa vida seja como a de Maria, toda ela um Magnificat.
Conclusão
Na pedagogia da oração a pessoa de fé encontra em Maria um modelo exemplar. Ela nos ensina que a oração é encontro com Jesus, é acolhida de Jesus em nossa vida, é deixar que Ele nos leve ao Pai. Não podemos render graças a Deus sem associar-nos a Maria porque com ela começou a economia da salvação (cf. P. Farhat in Oriens christianus 3 (1913) 19-21. Somos chamados pela Igreja não somente a rezar a Maria pedindo sua intercessão mas muito mais a rezar com Maria.
“Cada comunidade formativa, dedicará um momento à devoção comunitária a Nossa senhora nos meses de maio e outubro, a ela confiando-se filialmente como Mãe educadora, meditando sua vida e aprendendo dela a total dedicação à própria vocação como serviço a Deus e à humanidade. Serão valorizadas e incentivadas as devoções populares…, a reza frequente do Terço e outras formas de devoção Mariana” (Diocese de Santo André – Formação Presbiteral – Diretório Diocesano (2017) n. 94).
Cristo é o único caminho para o Pai (cf. Jo 14,4-11), porém a Igreja reconhece que a piedade e devoção à Virgem Maria, subordinada e em conexão com a piedade ao Divino Salvador, tem grande eficácia e força renovadora da comunidade cristã no seguimento de Jesus Cristo. Portanto, aprendamos a orar com Maria, porque ela é a Virgem que se dedicou sobremaneira à pratica da oração (cf. Paulo VI in Culto à Virgem Maria n. 18).

27 de março – Terça-feira Santa 2018