sexta-feira, 3 de agosto de 2018

Comissão Episcopal Pastoral para a Vida e a Família da CNBB lançam nota em repúdio as tentativas de legalização do aborto no Brasil através da via judicial

Mais uma vez, a legalização do aborto volta à pauta nacional em uma audiência pública convocada pela ministra Rosa Weber, do Supremo Tribunal Federal (STF) para os dias 3 e 6 de agosto. Na ocasião, será debatido a descriminalização do aborto até a 12ª semana de gestação, discutida na Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) 442.
Diante dessa realidade, a Comissão Episcopal Pastoral para a Vida e a Família da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) reafirma em nota a posição firme e clara da Igreja “em defesa da integralidade, inviolabilidade e dignidade da vida humana, desde a sua concepção até a morte natural”, condenando, “assim, todas e quaisquer iniciativas que pretendam legalizar o aborto no Brasil”. Afirmação emitida pela presidência da CNBB na Nota Oficial “Pela vida, contra o aborto”, publicada em 11 de abril de 2017.
A ação sustenta que dois dispositivos do Código Penal que instituem a criminalização da interrupção voluntária da gravidez afrontam a dignidade da pessoa humana, a cidadania, a não discriminação, a inviolabilidade da vida, a liberdade, a igualdade, a proibição de tortura ou o tratamento desumano e degradante, a saúde e o planejamento familiar das mulheres e os direitos sexuais e reprodutivos.
A Audiência Pública será realizada no Supremo Tribunal Federal, Anexo II-B, sala da Primeira Turma, nos dias 03.08.2018 (sexta-feira) e 06.08.2018 (segunda-feira), das 8h40 às 12h50 e das 14h30 às 18h50. A CNBB apresentará sua posição, nesta audiência, no dia 6 de agosto, às 9h10, pelo dom Ricardo Hoerpers, bispo da diocese de Rio Grande (RS) e pelo padre José Eduardo de Oliveira e Silva, da diocese de Osasco (SP).
Leia a nota na íntegra:
Brasília – DF, 25 de Julho de 2018
ABORTO E DEMOCRACIA
1. Um perigo eminente
Nos últimos anos, apresentaram-se diversas iniciativas que visavam à legalização do aborto no ordenamento jurídico brasileiro.
Em todas essas ocasiões, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, fiel à sua missão evangelizadora, reiterou a “sua posição em defesa da integralidade, inviolabilidade e dignidade da vida humana, desde a sua concepção até a morte natural”, condenando, “assim, todas e quaisquer iniciativas que pretendam legalizar o aborto no Brasil” (CNBB, Nota Pela vida, contra o aborto, 11 de abril de 2017).
Unindo sua voz à sensibilidade do povo brasileiro, maciçamente contrário a qualquer forma de legalização do aborto, a Igreja sempre assegurou que “o respeito à vida e à dignidade das mulheres deve ser promovido, para superar a violência e a discriminação por elas sofridas”, lembrando que “urge combater as causas do aborto, através da implementação e do aprimoramento de políticas públicas que atendam eficazmente as mulheres, nos campos da saúde, segurança, educação sexual, entre outros, especialmente nas localidades mais pobres do Brasil” (Ibidem).
As propostas de legalização do aborto sempre foram debatidas democraticamente no parlamento brasileiro e, após ampla discussão social, sempre foram firmemente rechaçadas pela população e por seus representantes.
A desaprovação ao aborto, no Brasil, não parou de crescer nos últimos anos, mas, não obstante isso, assistimos atualmente uma tentativa de legalização do aborto que burla todas as regras da democracia: quer-se mudar a lei mediante o poder judiciário.
2. A ADPF 442 
A Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental – ADPF 442, solicita ao Supremo Tribunal Federal – STF a supressão dos artigos 124 a 126 do Código Penal, que tipificam o crime de aborto, alegando a sua inconstitucionalidade. O argumento, em si, é absurdo, pois se trata de uma lei federal de 1940, cuja constitucionalidade jamais foi questionada.
O STF convocou uma audiência pública para a discussão do tema, a realizar-se nos dias 3 e 6 de agosto de 2018. A maior parte dos expositores representa grupos ligados à defesa da legalização do aborto.
A rigor, o STF não poderia dar andamento à ADPF, pois não existe nenhuma controvérsia em seu entendimento. Em outras palavras, em si, a ADPF 442 transcende o problema concreto do aborto e ameaça os alicerces da democracia brasileira, que reserva a cada um dos poderes da República uma competência muito bem delineada, cujo equilíbrio é uma garantia contra qualquer espécie de deterioração que degenerasse em algum tipo de ditadura de um poder sobre os outros.
O momento exige atenção de todas as pessoas que defendem a vida humana. O poder legislativo precisa posicionar-se inequivocamente, solicitando de modo firme a garantia de suas prerrogativas constitucionais. Todos os debates legislativos precisam ser realizados no parlamento, lugar da consolidação de direitos e espaço em que o próprio povo, através dos seus representantes, outorga leis a si mesmo, assegurando a sua liberdade enquanto nação soberana. Ao poder judiciário cabe fazer-se cumprir as leis, ao poder legislativo, emaná-las.
3. O aborto da democracia. “Escolhe, pois, a vida”. 
O eloquente preceito que recebemos da Escritura, “escolhe, pois, a vida” (Dt 30,19), agora, reveste-se de importância decisiva: precisamos garantir o direito à vida nascente e, fazendo-o, defender a vida de nossa democracia brasileira, contra todo e qualquer abuso de poder que, ao fim e ao cabo, constituir-se-ia numa espécie de “aborto” da democracia.
As democracias modernas foram concebidas como formas de oposição aos absolutismos de qualquer gênero: pertence à sua natureza que nenhum poder seja absoluto e irregulável. Por isso, é imensamente desejável que, diante destas ameaças hodiernas, encontremos modos de conter qualquer tipo de exacerbação do poder.
Em sua evangélica opção preferencial pelos pobres, a Igreja vem em socorro dos mais desprotegidos de todos os desprotegidos: os nascituros que, indefesos, correm o risco do desamparo da lei e da consequente anistia para todos os promotores desta que São João Paulo II chamava de cultura da morte.
4. Sugestões práticas. O que fazer? 
Diante da gravidade da situação, pedimos a todas as nossas comunidades uma mobilização em favor da vida, que se poderia dar em três gestos concretos:
1. Uma vigília de oração, organizada pela Pastoral Familiar local, tendo como intenção a defesa da vida dos nascituros, podendo utilizar como material de apoio os encontros do subsídio Hora da Vida 2018, sobretudo a Celebração da Vida, vide página 41. Ao final da vigília, os participantes poderiam elaborar uma breve ata e endereçá-la à Presidência do Congresso Nacional, solicitando aos legisladores que façam valer suas prerrogativas constitucionais: presidencia@camara.leg.br, com cópia para a Comissão Episcopal para a Vida e a Família: vidafamilia@cnbb.org.br.
2. Nas Missas do último domingo de julho, os padres poderiam comentar brevemente a situação, esclarecendo o povo fiel acerca do assunto e reservando uma das preces da Oração da Assembleia para rezar pelos nascituros. A coordenação da Pastoral Familiar poderia encarregar-se de compor o texto da oração e também de dirigir umas palavras ao povo.
3. Incentivamos, por fim, aos fiéis leigos, que procurem seus deputados para esclarecê-los sobre este problema. Cabe, de fato, ao Congresso Nacional colocar limites a toda e qualquer espécie de ativismo judiciário.
Invocamos sobre todo o nosso país a proteção de Nossa Senhora Aparecida, em cuja festa se comemora juntamente o dia das crianças, para que ela abençoe a todos, especialmente as mães e os nascituros.
Dom João Bosco B. Sousa, OFM 
Presidente da Comissão Episcopal Pastoral para a Vida e a Família

Fonte: http://arquisp.org.br/nota-da-cnbb-em-defesa-da-vida-0 

terça-feira, 31 de julho de 2018

MENSAGEM DO PAPA FRANCISCO À CONFERÊNCIA MUNDIAL DE ÉTICA TEOLÓGICA DE SARAJEVO


Cidade do Vaticano – O Papa Francisco enviou uma Mensagem, nesta sexta-feira (27/7), aos participantes da III Conferência mundial sobre “Ética teológica católica na Igreja”, que se realiza, até o próximo domingo (29/7), em Sarajevo, na Bósnia-Herzegovina. O tema dos trabalhos, que se iniciaram nesta quinta-feira (26/7), é “Um momento crítico para a construção de pontes: ética teológica católica, hoje”.

Em sua Mensagem, o Santo Padre recorda que, Sarajevo é uma cidade repleta de valor simbólico para o caminho de reconciliação e pacificação, depois dos horrores de uma guerra recente, que causou tantos sofrimentos aos seus povos.

Sarajevo, diz ainda o Papa, é uma cidade de pontes. Por isso, esta Conferência mundial quis inspirar-se neste símbolo para reconstruir, em um clima de divisões e tensões, novos caminhos de aproximação entre povos, culturas, religiões, visões da vida, orientações políticas.

O tema deste encontro, afirma Francisco, coloca-se em uma perspectiva, sobre a qual ele mesmo se referiu, várias vezes, ou seja, “construir pontes e não muros”. Trata-se de colher todos os sinais, sem renunciar à prudência, e mobilizar todas as energias para eliminar do mundo os muros da divisão e construir pontes de fraternidade.

Com efeito, os pontos focais da Conferência cruzam-se, no fundo, com este caminho de construção de pontes, em uma época crítica como a nossa.

O desafio ecológico, recordou o Papa, é colocado pelos conferencistas ao centro da atenção, porque contém aspectos que podem causar graves desequilíbrios, não só entre o homem e a natureza, mas também nas relações entre as gerações e entre os povos. Tal desafio refere-se ao horizonte de compreensão da ética ecológica e da ética social.

Por isso, a referência que os conferencistas fazem em seu encontro sobre o tema dos migrantes e refugiados, é muito oportuna para Francisco porque é um tema muito sério, que leva a uma profunda reflexão ético-teológica, antes de sugerir ações pastorais adequadas e praxes políticas responsáveis e conscientes.

Em um cenário tão complicado e complexo é preciso uma liderança renovada, que ajude a descobrir um modo mais justo de viver no mundo, como participantes de um destino comum.

A ética teológica, afirma o Papa, oferece uma contribuição específica para que, nos cinco Continentes, haja uma rede de reflexão ética, em chave teológica, para encontrar recursos novos e eficazes para o drama humano, que seja acompanhado com cuidado misericordioso, diálogo e confronto.

Neste sentido, o Santo Padre citou seu documento “Veritatis gaudium”, onde propõe critérios sobre a importância do diálogo que está à base da abertura inter e transdisciplinar e indica a necessidade urgente de “tecer redes” entre as instituições que cultivam e promovem estudos eclesiológicos.
Francisco concluiu sua Mensagem fazendo um apelo aos conferencistas, que são cultores da ética teológica, encorajando-os a se dedicarem com afinco ao diálogo e ao lançamento de redes. Desta forma, poderão aprender a ser fiéis à Palavra de Deus, que nos interpela na história, e à solidariedade com o mundo, propondo meios e instrumentos para aliviar as feridas e fragilidades humanas.

domingo, 22 de julho de 2018

NELSON MANDELA: O PAPA CONVIDA A CONSTRUIR UMA CIVILIZAÇÃO DO AMOR


A mensagem do Papa no Twitter para o Dia Internacional dedicado a Mandela: "Jesus nos convida a construir juntos a civilização do amor nas situações em que vivemos todos os dias".
Cidade do Vaticano
Celebra-se neste 18 de julho o Dia Internacional Nelson Mandela, que este ano recorda o 100º aniversário do nascimento do líder sul-africano e vencedor do Prêmio Nobel da Paz.

No Twitter, o Papa Francisco recordou a data com a seguinte mensagem: "Jesus nos convida a construir juntos a civilização do amor nas situações em que vivemos todos os dias".
Em mensagem para a ocasião, o secretário-geral da ONU, António Guterres, diz que Mandela “foi um grande defensor global da justiça e da igualdade” e que “continua a inspirar o mundo com seu exemplo de coragem e compaixão”.

O caminho a seguir
António Guterres lembra que o ex-presidente da África do Sul “foi mantido em cativeiro por muitos anos”, mas que “nunca se tornou prisioneiro de seu passado”.
Em vez disso, Mandela “colocou sua energia na reconciliação e em sua visão de uma África do Sul pacífica, multiétnica e democrática”.
O secretário-geral diz que este dia serve para comemorar “uma vida inteira de serviço” e que “raramente uma pessoa na História fez tanto para estimular os sonhos das pessoas e movê-las para a ação”.
Guterres acredita que essa luta pela igualdade, dignidade e justiça continua. Segundo ele, o legado de Madiba, como o líder ficou conhecido, mostra o caminho a seguir.

Celebração
Este ano, a Fundação Nelson Mandela dedica o Dia à ação contra a pobreza.
Segundo a fundação, o objetivo é “honrar a liderança e devoção de Nelson Mandela no combate à pobreza e na promoção de justiça social para todos”.
Na sede da ONU, em Nova Iorque, uma exposição destaca as principais contribuições de Mandela para a paz e segurança, direitos humanos e desenvolvimento sustentável. A exposição foi inaugurada em 9 de julho e pode ser visitada até 2 de setembro. A ONU também emitiu um selo em homenagem ao centenário de Mandela.
Estabelecido em 2009 pela Assembleia Geral, este Dia convida todos a fazerem a diferença nas suas comunidades.
A ONU diz que o centenário é “uma ocasião para refletir na sua vida e legado, e para seguir a sua chamada para tornar o mundo um lugar melhor”.

O povo no coração
Passados cinco anos de sua morte, Madiba permanece vivo sobretudo na memória das pessoas que o conheceram, como George Johannes, embaixador da África do Sul junto à Santa Sé.
“A sua herança é o testemunho de que não importa quanto seja desesperadora ou difícil uma situação. Se há determinação e vontade, é possível dialogar e chegar a uma solução. Nós chamamos isso de ‘efeito Mandela’”, declarou o embaixador ao Vatican News.
O diplomata recorda Nelson Mandela com afeto. “Ele foi um dos primeiros a dizer: deem metade do meu salário aos pobres. Um dia, estávamos juntos no carro e eu pedi para ver suas mãos, endurecidas pelos anos de trabalho forçado quebrando pedras em Robben Island. E ele me disse: ‘Se você se tornar um político, deve ter sempre o povo no coração’.”

Fonte: https://www.vaticannews.va/pt/mundo/news/2018-07/nelson-mandela-paz.html 

quarta-feira, 4 de julho de 2018

SEJAMOS MAIS LÚCIDOS E PROATIVOS!

Dom Reginaldo Andrietta, Bispo Diocesano de Jales

A Copa do Mundo tem envolvido um terço da população do planeta, com um custo altamente bilionário. O sistema empresarial em torno da bola e dos 265 milhões de jogadores profissionais e amadores, em todo o mundo, gera lucros gigantescos. O futebol mundial não foi, no entanto, idealizado dessa forma capitalista pelo católico humanista francês, Jules Rimet, ao criar a Copa do Mundo, sendo a primeira, realizada no Uruguai, em 1930.

Quando criança, ele foi “coroinha” na Igreja de sua aldeia. Em meio a uma grande crise econômica da Europa, sua família mudou-se para Paris, em busca de dias melhores. Ele e seus amigos, influenciados pela primeira Encíclica Social da Igreja Católica, chamada Rerum Novarum (Coisas Novas), do Papa Leão XIII, publicada em 1891, se tornaram jovens idealistas em favor dos trabalhadores assolados pela exploração e pela miséria.

Inspirados por essa Encíclica, eles fundaram uma associação de assistência social e médica aos mais pobres. Ele tornou-se advogado, dedicando se sempre à caridade. Amante do futebol, tomou a iniciativa de promover esse esporte para unir pessoas, especialmente os mais pobres. Fundou, então, um clube aberto a qualquer pessoa, sem discriminação étnica e social, com o objetivo de promover convivência saudável.

Motivado pela possibilidade dos esportistas cultivarem um bom relacionamento, em lugar de “ódio em seus corações e insultos em seus lábios”, como dizia, ele fomentou o futebol, até então, desprezado por ser considerado esporte de classe baixa. Em 1904, ele participou da fundação da Federação Internacional de Futebol (FIFA). O plano dessa associação de organizar uma Copa do Mundo foi frustrado pela primeira guerra mundial, entre 1914 e 1918.

Após a guerra, tornando-se presidente da FIFA, ele se dedicou ao ideal de tornar o futebol um meio de congraçamento entre povos. Esse destino, no entanto, não se tornou tão promissor, pois o futebol incorporou a lógica mercantilista, se tornou objeto de investimento capitalista e corrupção dos próprios dirigentes de futebol, inclusive da FIFA, e passou a ser um instrumento alienador, nocivo à vida sócio-política, pois seu fanatismo passou a anestesiar consciências.

No Brasil, por exemplo, é difícil encontrar alguém que não saiba o nome do técnico da seleção. Mas, poucos sabem os nomes dos ministros do trabalho, da educação e da saúde, e como eles atuam. Enquanto milhões de brasileiros se fanatizam pela seleção, o Congresso aprova leis que lesam a classe trabalhadora e retiram direitos sociais, com informações ínfimas dos meios de comunicação, se comparadas às jogadas futebolísticas mostradas e comentadas com detalhes.

Estamos em processo eleitoral. São poucos, no entanto, os brasileiros esclarecidos e ativos nesse processo. Neste ano, coincidentemente, dedicado pela Igreja ao laicato, qual tem sido a postura dos cristãos leigos e leigas, vocacionados a atuarem, primordialmente, na vida pública? Estão, realmente, fazendo jus à missão confiada por Cristo de serem “sal da terra e luz do mundo” (cf. Mt 5,13-16), construindo projetos coletivos com impacto sócio-político positivo?

Se os belos ideais do criador da Copa do Mundo não foram assegurados por sua própria ingenuidade sócio-política, o que dizer de quem sequer tem ideais sociais? Desafiados a mudar a cultura mercantilista, inspiremo-nos no bom combate do Apóstolo Paulo, travado com fé lúcida (cf. 2Tm 4,7). Que tal, então, sermos mais esclarecidos e proativos politicamente? Senão, mesmo ganhando Copas do Mundo não conquistaremos melhores condições de vida.
Jales, 28 de junho de 2018.


Fonte: http://www.radioassuncao.com.br/colunistas/sejamos-mais-lucidos-e-proativos

terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

AS IGREJAS EM JERUSALÉM FECHAM O SANTO SEPULCRO EM PROTESTO

Em um passo extraordinário, pela primeira vez em sua longa história, a Basílica do Santo Sepulcro fechou suas portas em protesto contra ataques sem precedentes aos direitos e propriedade da comunidade cristã. Este evento  ocorreu em Jerusalém, na manhã do domingo 25 de fevereiro, e é parte de um protesto que vai continuar indefinidamente. A entrada do santuário mais visitada pelos peregrinos cristãos para a Terra Santa está fechada, com um sinal dizendo: “Basta, já é o suficiente; parem a perseguição as Igrejas “. O cartaz também apresenta uma foto do prefeito de Jerusalém, Nir Barkat, que nas últimas semanas aboliu unilateralmente as isenções historicamente reconhecidas da Igreja para os impostos municipais e ordenou que as contas atuais das Igrejas pudessem ser aproveitadas para cobrir os atrasos.
Uma declaração sobre o protesto foi assinada pelo Patriarca ortodoxo grego Theophilos III, o Custódio da Terra Santa, o Frei Francesco Patton, OFM, e o patriarca armênio Nourhan Manougian, líderes das três comunidades que, em nome de toda a tradição cristã, administram a Basílica e outros grandes locais sagrados em Jerusalém.
O documento oficial pode ser lido abaixo:
Declaração sobre as ameaças municipais e a discriminatória “Church Lands Bill”
Nós, os chefes das Igrejas encarregados do Santo Sepulcro e do Status Quo que regem os vários Sítios Sagrados Cristãos em Jerusalém – o Patriarcado Ortodoxo Grego, a Custódia da Terra Santa e o Patriarcado Armênio – seguem com grande preocupação a campanha sistemática contra as Igrejas e a comunidade cristã na Terra Santa, em flagrante violação do Estado Quo existente .
Recentemente, esta campanha sistemática e ofensiva atingiu um nível sem precedentes, já que o município de Jerusalém emitiu avisos de cobrança escandalosos e ordens de apreensão de bens, propriedades e contas bancárias da Igreja por supostas dívidas de impostos municipais punitivos. Um passo contrário à posição histórica das Igrejas dentro da Cidade Santa de Jerusalém e seu relacionamento com as autoridades civis. Essas ações violam os acordos existentes e as obrigações internacionais que garantem os direitos e os privilégios das Igrejas, no que parece ser uma tentativa de enfraquecer a presença cristã em Jerusalém. As maiores vítimas são as famílias empobrecidas que irão sem comida e habitação, bem como as crianças que não poderão ir à escola.
A campanha sistemática de abuso contra igrejas e cristãos atinge agora seu pico, uma vez que um projeto discriminatório e racista que visa unicamente as propriedades da comunidade cristã na Terra Santa é promovido. Esta lei abominável está prevista para avançar hoje em uma reunião de um comitê ministerial que, se aprovado, faria possível a expropriação das terras de igrejas. Isso nos lembra todas as leis de natureza similar que foram promulgadas contra os judeus durante períodos escuros na Europa.
Este ataque sistemático e sem precedentes contra os cristãos na Terra Santa viola severamente os direitos antiquo e soberanos mais básicos, ancáticos, atropelando o tecido delicado das relações entre a comunidade cristã e as autoridades há décadas.
Por conseguinte, e recordando a Declaração dos Patriarcas e Chefes de Igrejas locais em Jerusalém, datada de 14 de fevereiro de 2018 e sua declaração anterior de setembro de 2017, como medida de protesto, decidimos assumir esse passo sem precedentes de encerramento da Igreja da Santo Sepulcro.
Juntamente com todos os Chefes de Igrejas da Terra Santa, somos sólidos, firmes e decididos em proteger nossos direitos e nossas propriedades.
Que o Espírito Santo responda nossas orações e traga uma resolução para esta Crise histórica na nossa Cidade Sagrada.
THEOPHILOS III 
Patriarca de Jerusalém
FRANCESCO PATTON 
Custódia da Terra Santa
NOURHAN MANOUGIAN 
Patriarca armênio de Jerusalém
Fonte: ofm.org

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

A HORA E A VEZ DA AGRICULTURA FAMILIAR

Segundo o último Censo Agropecuário feito no Brasil, de 2006, 84,4% dos estabelecimentos agropecuários brasileiros pertencem a grupos familiares

POR CHICO JUNIOR
08/01/2018 0:00

O Brasil é um grande produtor de alimentos, um dos maiores do mundo. Somos o terceiro maior produtor mundial de produtos agropecuários, atrás da China e dos Estados Unidos. Somos o maior produtor mundial de café, de cana de açúcar, de suco de laranja, o segundo maior de soja, o segundo em mandioca. E por aí vai.

E o Brasil é, também, grande exportador de alimentos. Por conta dessa grande produção, o café, a soja, o suco de laranja, o açúcar são importantes commodities agrícolas. O agronegócio é responsável por sete dos 10 principais produtos exportados pelo Brasil em 2017.

Mas agora segue uma informação que talvez lhe surpreenda: quando você se senta à mesa para tomar o seu café da manhã, para almoçar, para jantar, você está, basicamente, sendo alimentado pela agricultura familiar, pelo pequeno produtor brasileiro. Isso porque os grandes conglomerados agrícolas destinam grande parte da produção à exportação, deixando para o pequeno produtor a tarefa de alimentar considerável parcela da população brasileira. Segundo o último Censo Agropecuário feito no Brasil, de 2006, 84,4% do total dos estabelecimentos agropecuários brasileiros pertencem a grupos familiares. São aproximadamente 4,4 milhões de estabelecimentos, metade deles na Região Nordeste. Segundo dados da Secretaria Especial de Agricultura Familiar e do Desenvolvimento Agrário (Sead), ex- Ministério do Desenvolvimento Agrário, mais da metade da cesta básica do brasileiro é composta por produtos da agricultura familiar. Estima-se que a agricultura familiar é responsável por colocar em sua mesa 70% de todo o alimento que você consome cotidianamente. Para citar alguns exemplos, ela é responsável pela produção de 87% da mandioca, 70% do feijão 59% da carne suína, 58% do leite e 50% da carne de aves.

No Estado do Rio de Janeiro, a ação da agricultura familiar é marcante. Em 2006 eram mais de 44 mil estabelecimentos, representando 75% do total das propriedades rurais, responsáveis por 58% dos postos de trabalho no campo e pela produção da maior parte da produção agrícola do estado: 75% da mandioca, 68% do feijão, 67% do milho em grão, 55% do arroz e 52% do café.

Além de tudo o que se disse aí em cima, por que a agricultura familiar deve ser cada vez mais fomentada e valorizada? Primeiro porque tem dinâmica e características distintas em comparação à agricultura não familiar: a gestão da propriedade é compartilhada pela família, e a atividade produtiva é a principal fonte geradora de renda. Além disso, o agricultor familiar tem uma relação especial com a terra, seu local de trabalho e moradia. Por isso, presume-se, tem mais respeito e carinho pela terra, base do seu sustento. A diversidade produtiva também é uma característica do setor.

Ela é a base econômica de 90% dos municípios brasileiros com até 20 mil habitantes (ressalte-se que a maioria dos municípios tem menos de 20 mil habitantes), responde por 35% do PIB e absorve 40% da população economicamente ativa do país. Tem, portanto, importância econômica vinculada ao abastecimento do mercado interno e ao controle da inflação dos alimentos.

Ela é, em suma, a base da produção sustentável de alimentos.

O Brasil não é diferente do resto do mundo. Em todos os cantos do planeta, a agricultura familiar é base da alimentação. A importância que se dá ao assunto é tanta que, no último dia 20 de dezembro, a 72ª Assembleia Geral da ONU proclamou a Década para a Agricultura Familiar 2019-2028, com o objetivo principal de promover melhores políticas públicas de agricultura e propor uma oportunidade única para contribuir com a erradicação da fome e da pobreza. O documento da Resolução da Década da Agricultura Familiar foi proposto no início de outubro por um grupo de 14 países, liderados pela Costa Rica, copatrocinado por 104 nações e aprovado por unanimidade pela Assembleia Geral. A partir de agora, um plano de ação será apresentado à FAO, o órgão da ONU para alimentação e agricultura, e aos governos.

A nós, modestamente, cabe seguir as diretrizes da ONU para que o espaço da agricultura familiar no Brasil seja cada vez maior.


domingo, 7 de janeiro de 2018

SOLENIDADE DA EPIFANIA DO SENHOR. HOMILIA DO PAPA FRANCISCO

Basílica Vaticana
Sábado, 6 de janeiro de 2018


O nosso percurso ao encontro do Senhor, que hoje Se manifesta como luz e salvação para todos os povos, é elucidado por três gestos dos Magos. Estes veem a estrelapõem-se a caminho oferecem presentes.

Ver a estrela. É o ponto de partida. Mas, poder-nos-íamos perguntar: Por que foi que só os Magos viram a estrela? Porque talvez poucos levantaram o olhar para o céu. De facto na vida, muitas vezes, contentamo-nos com olhar para a terra: basta a saúde, algum dinheiro e um pouco de divertimento. E pergunto-me: Sabemos nós ainda levantar os olhos para o céu? Sabemos sonhar, anelar por Deus, esperar a sua novidade, ou deixamo-nos levar pela vida como um ramo seco pelo vento? Os Magos não se contentaram com deixar correr, flutuando. Intuíram que, para viver de verdade, é preciso uma meta alta e, por isso, é preciso manter alto o olhar.

E poder-nos-íamos perguntar ainda: Porque é que muitos outros, dentre aqueles que levantavam o olhar para o céu, não seguiram aquela estrela, «a sua estrela» (Mt 2, 2)? Talvez porque não era uma estrela deslumbrante, que brilhasse mais do que as outras. Era uma estrela que os Magos viram – diz o Evangelho – «despontar» (cf. Mt 2, 2.9). A estrela de Jesus não encandeia, não atordoa, mas gentilmente convida. Podemos perguntar-nos pela estrela que escolhemos na vida. Há estrelas deslumbrantes, que suscitam fortes emoções mas não indicam o caminho. Tal é o sucesso, o dinheiro, a carreira, as honras, os prazeres procurados como objetivo da existência. Não passam de meteoritos: brilham por um pouco, mas depressa caem e o seu esplendor desaparece. São estrelas cadentes, que, em vez de orientar, despistam. Ao contrário, a estrela do Senhor nem sempre é fulgurante, mas está sempre presente: é meiga, guia-te pela mão na vida, acompanha-te. Não promete recompensas materiais, mas garante a paz e dá, como aos Magos, uma «imensa alegria» (Mt 2, 10). Pede, porém, para caminhar.

Caminhar, a segunda ação dos Magos, é essencial para encontrar Jesus. De facto, a sua estrela solicita a decisão de se pôr a caminho, a fadiga diária da caminhada; pede à pessoa para se libertar de pesos inúteis e sumptuosidades embaraçantes, que estorvam, e aceitar os imprevistos que não aparecem assinalados no mapa da vida tranquila. Jesus deixa-Se encontrar por quem O busca, mas, para O buscar, é preciso mover-se, sair. Não ficar à espera; arriscar. Não ficar parados; avançar. Jesus é exigente: a quem O busca, propõe-lhe deixar as poltronas das comodidades mundanas e os torpores sonolentos das suas lareiras. Seguir a Jesus não é um polido protocolo a respeitar, mas um êxodo a viver. Deus, que libertou o seu povo mediante o trajeto do êxodo e chamou novos povos para seguir a sua estrela, dá a liberdade e distribui a alegria, sempre e só, em caminho. Por outras palavras, para encontrar Jesus, é preciso perder o medo de entrar em jogo, a satisfação do caminho andado, a preguiça de não pedir mais nada à vida. Simplesmente para encontrar um Menino, já é preciso arriscar; mas vale bem a pena, porque, ao encontrar aquele Menino, ao descobrir a sua ternura e o seu amor, encontramo-nos a nós mesmos.

Pôr-se a caminho não é fácil. Assim no-lo mostra o Evangelho através dos vários personagens. Temos Herodes, perturbado pelo temor de que o nascimento dum rei ameace o seu poder. Por isso, organiza reuniões e envia outros a recolher informações; mas ele não se move, está fechado no seu palácio. E, com ele, «toda a Jerusalém» (Mt 2, 3) tem medo: medo das coisas novas de Deus. Prefere que tudo permaneça como antes – «fez-se sempre assim» -, e ninguém tem a coragem de se pôr a caminho. Mais subtil é a tentação dos sacerdotes e escribas: conhecem o lugar exato e indicam-no a Herodes, citando inclusive a profecia antiga; sabem, mas não dão um passo rumo a Belém. Pode ser a tentação de quem é crente há muito tempo: discorre-se de fé, como de algo que já é conhecido, mas que não se compromete pessoalmente com o Senhor. Fala-se, mas não se reza; lastima-se, mas não se faz o bem. Pelo contrário, os Magos falam pouco e caminham muito. Embora ignorando as verdades da fé, estão ansiosos e põem-se a caminho, como evidenciam os verbos do Evangelho: «viemos adorá-lo» (Mt 2, 2), «puseram-se a caminho; entraram na casa; prostraram-se; regressaram» (cf. Mt 2, 9.11.12): sempre em movimento.

Oferecer. Quando chegaram ao pé de Jesus, depois da longa viagem, os Magos fazem como Ele: dão. Jesus está ali para oferecer a vida; eles oferecem as suas preciosidades: ouro, incenso e mirra. O Evangelho está cumprido, quando o caminho da vida chega à doação. Dar gratuitamente, por amor do Senhor, sem esperar nada em troca: isto é sinal certo de ter encontrado Jesus, que diz «recebestes de graça, dai de graça» (Mt 10, 8). Praticar o bem sem cálculos, mesmo se ninguém no-lo pede, mesmo se não nos faz ganhar nada, mesmo se não nos apetece. Isto é o que Deus deseja. Ele, que Se fez pequenino por nós, pede-nos para oferecermos algo pelos seus irmãos mais pequeninos. E quem são? São precisamente aqueles que não têm com que retribuir, como o necessitado, o faminto, o forasteiro, o preso, o pobre (cf. Mt 25, 31-46). Oferecer um presente agradável a Jesus é cuidar dum doente, dedicar tempo a uma pessoa difícil, ajudar alguém que não nos inspira, oferecer o perdão a quem nos ofendeu. São presentes gratuitos, não podem faltar na vida cristã; caso contrário, como nos recorda Jesus, amando apenas aqueles que nos amam, fazemos como os pagãos (Mt 5, 46-47). Olhemos as nossas mãos muitas vezes vazias de amor, e procuremos hoje pensar num presente gratuito, sem retribuição, que possamos oferecer. Será agradável ao Senhor. E peçamos-Lhe: «Senhor, fazei-me redescobrir a alegria de dar».
Amados irmãos e irmãs, façamos como os Magos: olhar para o Alto, caminhar e oferecer presentes gratuitamente.

Fonte: http://w2.vatican.va/content/francesco/pt/homilies/2018/documents/papa-francesco_20180106_omelia-epifania.html