quinta-feira, 25 de outubro de 2018

CNBB DIVULGA NOTA SOBRE O SEGUNDO TURNO DAS ELEIÇÕES 2018

Reunidos entre os dias 23 e 24 de outubro na sede da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), em Brasília (DF), os bispos que integram o Conselho Episcopal Pastoral (CONSEP) da entidade emitiram uma Nota sobre o segundo turno das Eleições 2018.
No documento, os bispos reforçam que as eleições são ocasião de exercício da democracia que requer dos candidatos propostas e projetos que apontem para a construção de uma sociedade em que reinem a justiça e a paz social. Os bispos exortam a que se deponham as armas de ódio e de vingança que têm gerado um clima de violência, estimulado por notícias falsas, discursos e posturas radicais, que colocam em risco as bases democráticas da sociedade brasileira. Abaixo, a íntegra do documento.
NOTA DA CNBB
Por ocasião do segundo turno das eleições de 2018
Jesus Cristo é a nossa paz! (cf. Ef 2,14)
O Brasil volta às urnas para eleger seu novo presidente e, em alguns Estados e no Distrito Federal, seu governador. Fiel à sua missão evangelizadora, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), por meio de seu Conselho Episcopal Pastoral (Consep), reunido em Brasília-DF, nos dias 23 e 24 de outubro, vem ratificar sua posição e orientações a respeito deste importante momento para o País.
Eleições são ocasião de exercício da democracia que requer dos candidatos propostas e projetos que apontem para a construção de uma sociedade em que reinem a justiça e a paz social. Cabe à população julgar, na liberdade de sua consciência, o projeto que melhor responda aos princípios do bem comum, da dignidade da pessoa humana, do combate à sonegação e à corrupção, do respeito às instituições do Estado democrático de direito e da observância da Constituição Federal.
Na missão de pastores e profetas, nós, bispos católicos, ao assumirmos posicionamentos pastorais em questões sociais, econômicas e políticas, o fazemos, não por ideologia, mas por exigência do Evangelho que nos manda amar e servir a todos, preferencialmente aos pobres. Por isso, “a Igreja reivindica sempre a liberdade, a que tem direito, para pronunciar o seu juízo moral acerca das realidades sociais, sempre que os direitos fundamentais da pessoa, o bem comum ou a salvação humana o exigirem (cf. Gaudium et Spes, 76). Não podemos nos calar quando a vida é ameaçada, os direitos desrespeitados, a justiça corrompida e a violência instaurada” (CNBB – Mensagem ao Povo de Deus – 19 de abril de 2018). Inúmeros são os testemunhos de bispos que, na história do país, se doaram e se doam no serviço da Igreja em favor de uma sociedade democrática, justa e fraterna.
A CNBB reafirma seu compromisso, sobretudo através do diálogo, de colaborar na busca do bem comum com as instituições sociais e aqueles que, respaldados pelo voto popular, forem eleitos para governar o País.
Exortamos a que se deponham armas de ódio e de vingança que têm gerado um clima de violência, estimulado por notícias falsas, discursos e posturas radicais, que colocam em risco as bases democráticas da sociedade brasileira. Toda atitude que incita à divisão, à discriminação, à intolerância e à violência, deve ser superada. Revistamo-nos, portanto, do amor e da reconciliação, e trilhemos o caminho da paz!
Por intercessão de Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil, invocamos a bênção de Deus para o povo brasileiro.
Brasília-DF, 24 de outubro de 2018
Dom Murilo S. R. KriegerArcebispo de São Salvador
Presidente da CNBB em exercício
Dom Guilherme Antônio WerlangBispo de Lajes
Vice-Presidente da CNBB em exercício
Dom Leonardo Ulrich SteinerBispo Auxiliar de Brasília
Secretário-Geral da CNBB
Fonte: Site da CNBB

HOJE, DIA 25 DE OUTUBRO, É O DIA DE SANTO ANTÔNIO DE SANT'ANA GALVÃO


Sacerdote da Primeira Ordem, primeiro santo brasileiro. (1739-1822). Beatificado por João Paulo II e canonizado por Bento XVI no dia 11 de maio de 2007.
Terminados os estudos, Frei Galvão foi nomeado Pregador, Confessor dos leigos e Porteiro do convento cargo este considerado importante, porque pela comunicação com as pessoas permitia fazer um grande apostolado, ouvindo e aconselhando a todos.

Frei Galvão foi nomeado Guardião do Convento de São Francisco, em São Paulo, em 1798, e reeleito em 1801. A nomeação de Guardião provocou desorientação nas Recolhidas da Luz. Á preocupação das religiosas é necessário acrescentar aquela do “Senado da Câmara de São Paulo” e do Bispo da cidade, que escreveram ao Provincial: “todos os moradores desta Cidade não poderão suportar um só momento a ausência do dito religioso. […] este homem tão necessário às religiosas da Luz, é preciosíssimo a toda esta Cidade e Vilas da Capitania de São Paulo; é homem religiosíssimo e de prudente conselho; todos acodem a pedir-lho; é o homem da paz e da caridade”.

Da homilia do Papa Bento XVI, por ocasião da canonização de Frei Galvão, lemos:

Significativo é o exemplo do Frei Galvão pela sua disponibilidade para servir o povo sempre quando era solicitado. Conselheiro de fama, pacificador das almas e das famílias, dispensador da caridade especialmente dos pobres e dos enfermos. Muito procurado para as confissões, pois era zeloso, sábio e prudente. Uma característica de quem ama de verdade é não querer que o Amado seja ofendido, por isso a conversão dos pecadores era a grande paixão do nosso Santo.

Ainda afirma Bento XVI:

Que belo exemplo a seguir deixou-nos Frei Galvão! São palavras fortes, de uma alma apaixonada, que deveriam fazer parte da vida normal de cada cristão. O mundo precisa de vidas limpas, de almas claras, de inteligências simples.


sábado, 20 de outubro de 2018

O SEGREDO DE ANDAR NA LUZ...

O segredo é andar na luz. Este segredo contém os seguintes elementos:

Discernimento na fé, esclarecimento da razão, conscientização unindo reflexão e ação, solidários no cuidado da Vida, sem sectarismos ou fanatismos e sem os malfeitos do ódio.


Nilo Agostini

terça-feira, 25 de setembro de 2018

ELEIÇÕES 2018: REFLEXÃO SOBRE O MOMENTO ATUAL

São Paulo, 24 de setembro de 2018.
Nós, frades franciscanos que compõem o Conselho de Evangelização da Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil, da Ordem dos Frades Menores, reunidos em São Paulo neste dia 24 de setembro, atentos ao compromisso irrenunciável que assumimos com o Evangelho por força de profissão, julgamo-nos no dever de nos pronunciar acerca do momento crucial que estamos vivendo enquanto nação.
Causa-nos imensa preocupação o modo pelo qual opções centrais de nossa democracia e dos direitos conquistados pelo povo a partir de muita luta e organização têm sido colocados em cheque por uma postura aventureira e irresponsável que se vale de feridas há muito plantadas no coração dos brasileiros por aqueles que desejam semear o medo, o ódio, as rixas e incompreensões a fim de manter intactos seus interesses egoístas e excludentes. Sendo assim, manifestamos com total clareza e abertura ao diálogo alguns pontos que nos parecem de fundamental importância como critérios para escolha dos candidatos a ocupar os cargos que devem (ou deveriam) ser exercidos em favor da totalidade.
1) Combate à violência
Inicialmente, deixamos claro que, para além de um combate à violência, precisamos investir com seriedade na promoção de uma Cultura de Paz. Todo discurso que prega o aumento do poderio bélico e policial, a facilitação do acesso às armas e a adoção da vingança em lugar da justiça é ilusório e enganador. Acreditamos que toda ação criminosa deva ser respondida com o mecanismo da lei. Por outro lado, também sabemos que os crimes de maior potencial ofensivo (desvios milionários de verbas públicas, lavagem de dinheiro, enriquecimento ilícito, gerenciamento do tráfico de armas e drogas) não se realizam nas periferias e favelas, mas em locais de luxo, ostentação e riqueza, geralmente protegidos por forte aparato de segurança. Armar a população ou investir em forças policiais repressivas só aumentará os já alarmantes números da mortalidade de pobres nos lugares abandonados pelo poder público.
Positivamente, acreditamos na força de uma educação de qualidade, na promoção das pessoas através da cultura, do esporte, da ciência, na possibilidade de acesso ao trabalho, no acesso à habitação, saúde e saneamento básico, na parceria entre instituições do Estado (inclusive a polícia) e as comunidades como meios eficazes de promoção da paz e prevenção da violência.
2) Trabalho e emprego
As leis trabalhistas são fruto de uma caminhada de amadurecimento do país e têm o objetivo de garantir aos trabalhadores uma proteção mínima diante das inseguranças de um mercado instável que se rege pelo lucro. Reconhecemos a necessidade de que os negócios sejam viáveis para os empregadores, mas acreditamos que existam outros meios, pautados na solidariedade e na partilha, para garantir o futuro dos empreendimentos sem que necessariamente se coloque o ônus sobre a parte mais fraca da relação, no caso, o trabalhador.
3) Superação da corrupção
Acreditamos num trabalho sério, isento e coletivo para vencermos este mal enraizado em nossa sociedade. É preciso haver investimento em mecanismos que garantam a isenção dos processos especialmente diante da força corruptora do poder econômico.
4) Atenção aos que vivem em vulnerabilidade
O dever do Estado também é priorizar o atendimento àqueles que vivem em situações de vulnerabilidade, como povos indígenas, quilombolas, populações ribeirinhas, crianças e idosos abandonados, pessoas com deficiência, imigrantes e todos os que vivem à margem da pobreza. Promover a autonomia e garantir a defesa da vida em todas as suas etapas e circunstâncias é tarefa irrenunciável dos governantes eleitos pelo povo.
5) Promoção do diálogo e da participação popular
Quanto maior a participação de diferentes setores da sociedade, maior a possibilidade de construirmos um país mais justo e solidário. A esperança de um futuro melhor não deve se pautar apenas do ponto de vista de alguns, mas num trabalho conjunto onde todos, dialogando e cedendo no que for necessário, empenhem-se para a verdadeira construção do bem comum.
Esperamos que, no exercício democrático do voto, o povo brasileiro tenha consciência para buscar aqueles que de fato estão comprometidos com um projeto inclusivo e realmente transformador para nosso país. Que o empenho seja, de fato, na direção de garantir a todos justo e real acesso aos três direitos básicos apontados pelo Papa Francisco: teto, trabalho e terra.
Fraternalmente,
Frades do Conselho de Evangelização da Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil
Fonte: http://franciscanos.org.br/?p=172347 

sexta-feira, 21 de setembro de 2018

REFLETINDO EM FAMÍLIA SOBRE O ATUAL MOMENTO QUE ANTECEDE AS ELEIÇÕES

As reflexões que seguem foram inicialmente compartilhadas, nos dias 20 e 21 de setembro de 2018, com a Família Agostini, a nível de Brasil, coligando os mais diversos ramos que se espalham por este País. O momento atual, que antecede as eleições de outubro próximo, requer algumas ponderações. Vejam.

1. Nós viemos da Itália passando fome. Éramos pobres, forasteiros neste mundo. Mas encontramos um país que nos acolheu. As condições encontradas aqui, mesmo muito difíceis, abriram caminho para, com trabalho e suor, construir uma vida digna. A nação que aqui encontramos é complexa desde os primeiros dias, quando foi dividida e entregue a 13 capitanias hereditárias. Herdamos desafios imensos de um tempo em que nós não estávamos sequer aqui. Mas fomos acolhidos por esta terra, vindos da fome e da pobreza. Ao crescer e construir a nossa vida nesta terra, o desafio passou a ser assumir juntos, com o povo daqui, os destinos desta nação. Este povo, mesmo trabalhando, não tem conseguido construir condições de vida digna para todos. Nas últimas décadas, no entanto, conseguimos escrever uma Carta Magna (a Constituição de 1988) que elegeu a democracia participativa como a forma adequada para construirmos juntos a nossa convivência, sem exclusões. Nós, esfomeados do passado, estamos sendo convidados a sermos solidários com os esfomeados de hoje.

2. O Brasil construiu uma economia forte. Eita povo trabalhador! O desenvolvimento econômico é impressionante, mas o progresso social não acompanhou o mesmo ritmo. Isso traz como consequência a persistente desigualdade social ou até o aprofundamento da mesma. Se hoje formamos uma mesma e única nação, este fato não pode ser desconhecido. O desafio é como organizar um espaço social tão cheio de desafios; não há como fazê-lo senão através da política. Mas qual política? Como somos plurais e marcados pela diversidade, escolhemos a manifestação livre, com direito de também nos organizarmos livremente, assinalando que melhor é fazê-lo de forma participativa. Ocorre que a democracia não é pacote pronto; é construção histórica. O desafio é crescer em termos de consciência participante e amadurecer como nação solidária. Somos ainda crianças em termos de democracia, melhor talvez adolescentes. E enquanto tais, ante o desafio da maturação, que se abre diante do desconhecido, temos por vezes a tentação e nos refugiar na infância; outra possibilidade ou chance é a de crescer em maturidade. O que fazer? Voltar à infância ou, desafiados, buscar a maturidade? Vamos assumir de maneira emancipada e livre os destinos de nosso país ou, infantilizados, delegamos a alguém outro que o faça em nosso lugar? Crescer em maturidade, democraticamente falando, requer diálogo e construção de consensos; isto faz com que a política seja a oportunidade de organizar o espaço social com a participação de todos na busca do bem comum e do respeito da dignidade humana, bem como de outros valores daí decorrentes. Mas aí aparecem obstáculos.

3. Trata-se de focar aqui os obstáculos à democracia. Destaco apenas dois para a nossa reflexão, ciente de que há outros. Os obstáculos que mais comprometem a democracia ficam escancarados quando caímos no sectarismo e no fanatismo. O sectarismo costuma aparecer sob uma forma altamente emocional; e, por isso, torna-se acrítico e adota as meias verdades dos mitos que escondem formas disfarçadas de domínio. O fanatismo cai facilmente na irracionalidade, prejudica a capacidade criativa, ama o controle e mata a vida. Um e outro se entregam ao controle do pensamento e da ação, inibem o poder de criar e atuar, permitindo formas totalitárias de organização da sociedade. A consequência mais trágica é o aumento da barbárie, embrutecendo os indivíduos, tornando-os miseráveis até espiritualmente. Esse tipo de miséria corrói a nobreza e compromete a reputação. Torna as pessoas frias e cegas diante dos outros. Para estas, a violência passa a ser a saída, tornada normal ou normalizada. O passo seguinte é eliminar quem pensa diferente. É a instalação do horror.

4. Tanto de esquerda quanto de direita, quem se deixa levar pelo sectarismo e pelo fanatismo perde a capacidade de amar, afasta a esperança, nem sequer sonha com dias melhores; até o respeito vai embora. Se embrutece e busca se armar de todas as formas. Quer a intervenção da “força”. O perigo é a regressão à barbárie. Exemplos disso não faltam. Poderíamos elencar o nazismo e o fascismo, como exemplos muito citados. Mas também cabe citar o stalinismo na antiga União Soviética e regimes totalitários em nossa América Latina. Que monstruosidades! No Brasil de hoje, enquanto cidadãos, tomados de assalto pelos malfeitos na política (e seus comparsas) nos sentimos na urgência de uma solução ante a situação criada. A corrupção é um exemplo da “praga” que nos atinge. Pressionados, na hora atual, tendemos a nos posicionar nos extremos e nos rachamos como sociedade. O diálogo, que é uma característica dos humanos, é colocado de lado e perdemos a confiança uns nos outros. O perigo é o de reagir como autômatos, nos tornando presas fáceis de mecanismos sutis de manipulação. Introjetamos isso como normal, nos identificamos com o manipulador e reproduzimos a sua versão dos fatos, sem que desconfiemos. Acabamos indo a reboque, levados de maneira mecanicista, comandados de fora. Como brasileiros, não mais italianos, na dramaticidade da hora atual, nos encontramos numa encruzilhada: Ou delegamos o destino do País à “força” ou assumimos a difícil tarefa de amadurecer pelo caminho da democracia. As águas turvas e até lamacentas dos extremismos autoritários já se anunciam, de lado a lado. Nesta hora dramática, peço ponderação, equilíbrio, diálogo. Não faltem com o respeito. Façam do amor a força que nos une, convivendo em paz, apesar das nossas diferenças. É hora de buscar mais o que nos une. Juízo! Vejo sangue nas mãos de alguns. Quero-lhes um bem do tamanho do meu coração! Coloco tudo isso sob a luz da fé no bom Deus!

Frei Nilo Agostini, ofm

Segue foto do III Encontro da Família Agostini

quinta-feira, 20 de setembro de 2018

Frei Nilo Agostini participa de Congresso Internacional de Direitos Humanos e de Congresso pela Paz


Frei Nilo, professor pesquisador do Programa de Pós-graduação Stricto Sensu em Educação da USF, pariticipou, como conferencista, no V Congreso Internacional de Derechos Humanos y Derecho Internacional Humanitario e III Congreso para la Paz, realizado nos dias 11 e 12 de setembro de 2018, na cidade de Bogotá D.C., Colômbia. Estes eventos, realizados em conjunto, foram sediados pela Universidade Católica de Colômbia. 

Frei Nilo apresentou o tema “A paz como experiência da alteridade e o caminho de São Francisco de Assis”. Impactaram, entre outras, duas afirmações: “Não há caminho para a paz; a paz é o caminho” (atribuída a Mahatma Gandhi) e “São Francisco de Assis, o homem feito paz”. A conferência se deteve nos seguintes pontos: 1. Experiência, a anterioridade do outro; 2. A alteridade, sem domesticar e submeter; 3. Francisco de Assis, o homem feito paz; 4. O espírito de Assis: as jornadas mundiais de oração pela paz.

Ao encerrar sua apresentação, Frei Nilo lembrou as palavras do Papa Francisco: “Paz quer dizer Perdão”, “significa Acolhimento”, “Paz quer dizer Colaboração”, “significa Educação”. Sublinhou ainda que o atual Papa enfatiza a cultura do encontro, da comunhão, lembrando-nos de que “o nosso futuro é viver juntos”, formando “uma família de povos”. Enquanto artesãos da paz, sentimos ser esta uma responsabilidade de todos, um empenho universal, para que “cresça o esforço concreto por remover as causas subjacentes aos conflitos: as situações de pobreza, injustiça e desigualdade, a exploração e o desprezo da vida humana”, como muito bem enfatiza o Papa, que lembra: “A paz é o nome de Deus”.

quinta-feira, 23 de agosto de 2018

CARTA DO PAPA FRANCISCO AO POVO DE DEUS


Carta do Papa sobre os abusos sexuais de menores cometidos por um número notável de clérigos e pessoas consagradas.

«Um membro sofre? Todos os outros membros sofrem com ele» (1 Co 12, 26). Estas palavras de São Paulo ressoam com força no meu coração ao constatar mais uma vez o sofrimento vivido por muitos menores por causa de abusos sexuais, de poder e de consciência cometidos por um número notável de clérigos e pessoas consagradas. Um crime que gera profundas feridas de dor e impotência, em primeiro lugar nas vítimas, mas também em suas famílias e na inteira comunidade, tanto entre os crentes como entre os não-crentes. Olhando para o passado, nunca será suficiente o que se faça para pedir perdão e procurar reparar o dano causado. Olhando para o futuro, nunca será pouco tudo o que for feito para gerar uma cultura capaz de evitar que essas situações não só não aconteçam, mas que não encontrem espaços para serem ocultadas e perpetuadas. A dor das vítimas e das suas famílias é também a nossa dor, por isso é preciso reafirmar mais uma vez o nosso compromisso em garantir a protecção de menores e de adultos em situações de vulnerabilidade.

1. Um membro sofre?

Nestes últimos dias, um relatório foi divulgado detalhando aquilo que vivenciaram pelo menos 1.000 sobreviventes, vítimas de abuso sexual, de poder e de consciência, nas mãos de sacerdotes por aproximadamente setenta anos. Embora seja possível dizer que a maioria dos casos corresponde ao passado, contudo, ao longo do tempo, conhecemos a dor de muitas das vítimas e constamos que as feridas nunca desaparecem e nos obrigam a condenar veementemente essas atrocidades, bem como unir esforços para erradicar essa cultura da morte; as feridas “nunca prescrevem”. A dor dessas vítimas é um gemido que clama ao céu, que alcança a alma e que, por muito tempo, foi ignorado, emudecido ou silenciado. Mas seu grito foi mais forte do que todas as medidas que tentaram silenciá-lo ou, inclusive, que procuraram resolvê-lo com decisões que aumentaram a gravidade caindo na cumplicidade. Clamor que o Senhor ouviu, demonstrando, mais uma vez, de que lado Ele quer estar. O cântico de Maria não se equivoca e continua a se sussurrar ao longo da história, porque o Senhor se lembra da promessa que fez a nossos pais: «dispersou os soberbos. Derrubou os poderosos de seus tronos e exaltou os humildes. Aos famintos encheu de bens e aos ricos despediu de mãos vazias» (Lc 1, 51-53), e sentimos vergonha quando percebemos que o nosso estilo de vida contradisse e contradiz aquilo que proclamamos com a nossa voz.

Com vergonha e arrependimento, como comunidade eclesial, assumimos que não soubemos estar onde deveríamos estar, que não agimos a tempo para reconhecer a dimensão e a gravidade do dano que estava sendo causado em tantas vidas. Nós negligenciamos e abandonamos os pequenos. Faço minhas as palavras do então Cardeal Ratzinger quando, na Via Sacra escrita para a Sexta-feira Santa de 2005, uniu-se ao grito de dor de tantas vítimas, afirmando com força: «Quanta sujeira há na Igreja, e precisamente entre aqueles que, no sacerdócio, deveriam pertencer completamente a Ele! Quanta soberba, quanta autossuficiência!... A traição dos discípulos, a recepção indigna do seu Corpo e do seu Sangue é certamente o maior sofrimento do Redentor, o que Lhe trespassa o coração. Nada mais podemos fazer que dirigir-Lhe, do mais fundo da alma, este grito: Kyrieeleison – Senhor, salvai-nos (cf. Mt 8, 25)» (Nona Estação).

2. Todos os outros membros sofrem com ele.

A dimensão e a gravidade dos acontecimentos obrigam a assumir esse facto de maneira global e comunitária. Embora seja importante e necessário em qualquer caminho de conversão tomar conhecimento do que aconteceu, isso, em si, não basta. Hoje, como Povo de Deus, somos desafiados a assumir a dor de nossos irmãos feridos na sua carne e no seu espírito. Se no passado a omissão pôde tornar-se uma forma de resposta, hoje queremos que seja a solidariedade, entendida no seu sentido mais profundo e desafiador, a tornar-se o nosso modo de fazer a história do presente e do futuro, num âmbito onde os conflitos, tensões e, especialmente, as vítimas de todo o tipo de abuso possam encontrar uma mão estendida que as proteja e resgate da sua dor (cf. Exort. ap. Evangelii gaudium, 228). Essa solidariedade exige que, por nossa vez, denunciemos tudo o que possa comprometer a integridade de qualquer pessoa. Uma solidariedade que exige a luta contra todas as formas de corrupção, especialmente a espiritual «porque trata-se duma cegueira cómoda e autossuficiente, em que tudo acaba por parecer lícito: o engano, a calúnia, o egoísmo e muitas formas subtis de autorreferencialidade, já que “também Satanás se disfarça em anjo de luz” (2 Cor 11, 14)» (Exort. ap. Gaudete et exultate, 165). O chamado de Paulo para sofrer com quem sofre é o melhor antídoto contra qualquer tentativa de continuar reproduzindo entre nós as palavras de Caim: «Sou, porventura, o guardião do meu irmão?» (Gn 4, 9).

Reconheço o esforço e o trabalho que são feitos em diferentes partes do mundo para garantir e gerar as mediações necessárias que proporcionem segurança e protejam a integridade de crianças e de adultos em situação de vulnerabilidade, bem como a implementação da “tolerância zero” e de modos de prestar contas por parte de todos aqueles que realizem ou acobertem esses crimes. Tardamos em aplicar essas medidas e sanções tão necessárias, mas confio que elas ajudarão a garantir uma maior cultura do cuidado no presente e no futuro.

Juntamente com esses esforços, é necessário que cada batizado se sinta envolvido na transformação eclesial e social de que tanto necessitamos. Tal transformação exige conversão pessoal e comunitária, e nos leva dirigir os olhos na mesma direção do olhar do Senhor. São João Paulo II assim o dizia: «se verdadeiramente partimos da contemplação de Cristo, devemos saber vê-Lo sobretudo no rosto daqueles com quem Ele mesmo Se quis identificar» (Carta ap. Novo millennio ineunte, 49). Aprender a olhar para onde o Senhor olha, estar onde o Senhor quer que estejamos, converter o coração na Sua presença. Para isso nos ajudarão a oração e a penitência. Convido todo o Povo Santo fiel de Deus ao exercício penitencial da oração e do jejum, seguindo o mandato do Senhor[1], que desperte a nossa consciência, a nossa solidariedade e o compromisso com uma cultura do cuidado e o “nunca mais” a qualquer tipo e forma de abuso.

É impossível imaginar uma conversão do agir eclesial sem a participação activa de todos os membros do Povo de Deus. Além disso, toda vez que tentamos suplantar, silenciar, ignorar, reduzir em pequenas elites o povo de Deus, construímos comunidades, planos, ênfases teológicas, espiritualidades e estruturas sem raízes, sem memória, sem rostos, sem corpos, enfim, sem vidas[2]. Isto se manifesta claramente num modo anômalo de entender a autoridade na Igreja - tão comum em muitas comunidades onde ocorreram as condutas de abuso sexual, de poder e de consciência - como é o clericalismo, aquela «atitude que não só anula a personalidade dos cristãos, mas tende também a diminuir e a subestimar a graça batismal que o Espírito Santo pôs no coração do nosso povo»[3]. O clericalismo, favorecido tanto pelos próprios sacerdotes como pelos leigos, gera uma ruptura no corpo eclesial que beneficia e ajuda a perpetuar muitos dos males que denunciamos hoje. Dizer não ao abuso, é dizer energicamente não a qualquer forma de clericalismo.

É sempre bom lembrar que o Senhor, «na história da salvação, salvou um povo. Não há identidade plena, sem pertença a um povo. Por isso, ninguém se salva sozinho, como indivíduo isolado, mas Deus atrai-nos tendo em conta a complexa rede de relações interpessoais que se estabelecem na comunidade humana: Deus quis entrar numa dinâmica popular, na dinâmica dum povo» (Exort. ap. Gaudete et exultate, 6). Portanto, a única maneira de respondermos a esse mal que prejudicou tantas vidas é vivê-lo como uma tarefa que nos envolve e corresponde a todos como Povo de Deus. Essa consciência de nos sentirmos parte de um povo e de uma história comum nos permitirá reconhecer nossos pecados e erros do passado com uma abertura penitencial capaz de se deixar renovar a partir de dentro. Tudo o que for feito para erradicar a cultura do abuso em nossas comunidades, sem a participação activa de todos os membros da Igreja, não será capaz de gerar as dinâmicas necessárias para uma transformação saudável e realista. A dimensão penitencial do jejum e da oração ajudar-nos-á, como Povo de Deus, a nos colocar diante do Senhor e de nossos irmãos feridos, como pecadores que imploram o perdão e a graça da vergonha e da conversão e, assim, podermos elaborar acções que criem dinâmicas em sintonia com o Evangelho. Porque «sempre que procuramos voltar à fonte e recuperar o frescor original do Evangelho, despontam novas estradas, métodos criativos, outras formas de expressão, sinais mais eloquentes, palavras cheias de renovado significado para o mundo actual» (Exort. ap. Evangelii gaudium, 11).

É imperativo que nós, como Igreja, possamos reconhecer e condenar, com dor e vergonha, as atrocidades cometidas por pessoas consagradas, clérigos, e inclusive por todos aqueles que tinham a missão de assistir e cuidar dos mais vulneráveis. Peçamos perdão pelos pecados, nossos e dos outros. A consciência do pecado nos ajuda a reconhecer os erros, delitos e feridas geradas no passado e permite nos abrir e nos comprometer mais com o presente num caminho de conversão renovada.

Da mesma forma, a penitência e a oração nos ajudarão a sensibilizar os nossos olhos e os nossos corações para o sofrimento alheio e a superar o afã de domínio e controle que muitas vezes se torna a raiz desses males. Que o jejum e a oração despertem os nossos ouvidos para a dor silenciada em crianças, jovens e pessoas com necessidades especiais. Jejum que nos dá fome e sede de justiça e nos encoraja a caminhar na verdade, dando apoio a todas as medidas judiciais que sejam necessárias. Um jejum que nos sacuda e nos leve ao compromisso com a verdade e na caridade com todos os homens de boa vontade e com a sociedade em geral, para lutar contra qualquer tipo de abuso de poder, sexual e de consciência.

Desta forma, poderemos tornar transparente a vocação para a qual fomos chamados a ser «um sinal e instrumento da íntima união com Deus e da unidade de todo o gênero humano» (Conc. Ecum. Vat. II, Lumen gentium, 1).

«Um membro sofre? Todos os outros membros sofrem com ele», disse-nos São Paulo. Através da atitude de oração e penitência, poderemos entrar em sintonia pessoal e comunitária com essa exortação, para que cresça em nós o dom da compaixão, justiça, prevenção e reparação. Maria soube estar ao pé da cruz de seu Filho. Não o fez de uma maneira qualquer, mas permaneceu firme de pé e ao seu lado. Com essa postura, Ela manifesta o seu modo de estar na vida. Quando experimentamos a desolação que nos produz essas chagas eclesiais, com Maria nos fará bem «insistir mais na oração» (cf. S. Inácio de Loiola, Exercícios Espirituais, 319), procurando crescer mais no amor e na fidelidade à Igreja. Ela, a primeira discípula, nos ensina a todos os discípulos como somos convidados a enfrentar o sofrimento do inocente, sem evasões ou pusilanimidade. Olhar para Maria é aprender a descobrir onde e como o discípulo de Cristo deve estar.

Que o Espírito Santo nos dê a graça da conversão e da unção interior para poder expressar, diante desses crimes de abuso, a nossa compunção e a nossa decisão de lutar com coragem.

Francisco
Cidade do Vaticano, 20 de Agosto de 2018.


[1] «Esta espécie de demónios não se expulsa senão à força de oração e de jejum» Mt 17, 21.
[2] Cf. Carta do Santo Padre Francisco ao Povo de Deus que peregrina no Chile, 31 de Maio de 2018.

Fonte: http://w2.vatican.va/content/francesco/pt/letters/2018/documents/papa-francesco_20180820_lettera-popolo-didio.html