domingo, 24 de maio de 2020

Papa recorda 5 anos da Laudato Si': ouvir o grito da Terra e dos pobres

Exatamente no dia 24 de maio de 2015, o Pontífice assinava a Encíclica “com a qual se buscou chamar à atenção o grito da Terra e dos pobres”.
Bianca Fraccalvieri – Cidade do Vaticano
O grito da Terra e dos pobres: ao final da oração do Regina Coeli, o Papa Francisco recordou os cinco anos da publicação da Laudato Si’.
Exatamente no dia 24 de maio de 2015, o Pontífice assinava a Encíclica “com a qual se buscou chamar à atenção o grito da Terra e dos pobres”.
Francisco mencionou a iniciativa de reflexão do Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral de convocar o ano “Laudato Si’”, que se concluirá em 24 de maio de 2021.
“Convido todas as pessoas de boa vontade a aderirem para cuidar da nossa casa comum e dos nossos irmãos e irmãs mais frágeis."
O Papa informou que no site do Dicastério será publicada a oração dedicada a este Ano especial: “Será belo rezá-la”.
Eis a oração
Deus de amor,
Criador do céu e da terra e de tudo que neles contêm.
Abri as nossas mentes e tocai os nossos corações, para que possamos atender ao vosso dom da criação.
Fazei-vos presente para os necessitados nestes tempos difíceis, especialmente os mais pobres e os mais vulneráveis.
Ajudai-nos a demonstrar solidariedade criativa para abordar as consequências desta pandemia global.
Tornai-nos corajosos para abraçar as mudanças que são necessárias na busca pelo bem comum.
Que possamos sentir, agora mais do que nunca, que estamos todos interligados e interdependentes.
Fazei com que possamos escutar e atender ao grito da terra e ao grito dos pobres. Que estes sentimentos atuais sejam as dores de parto para um mundo mais fraterno e sustentável.
Oremos sob o olhar amoroso de Maria, Auxílio dos Cristãos, por Cristo Nosso Senhor.
Amém
Fonte: https://www.vaticannews.va/pt/papa/news/2020-05/papa-francisco-recorda-cinco-anos-laudato-si-grito-terra-pobres.html

54º DIA MUNDIAL DAS COMUNICAÇÕES SOCIAIS

MENSAGEM DO PAPA FRANCISCO

PARA O LIV DIA MUNDIAL DAS COMUNICAÇÕES SOCIAIS


« “Para que possas contar e fixar na memória” (Ex 10, 2).

A vida faz-se história »


Desejo dedicar a Mensagem deste ano ao tema da narração, pois, para não nos perdermos, penso que precisamos de respirar a verdade das histórias boas: histórias que edifiquem, e não as que destruam; histórias que ajudem a reencontrar as raízes e a força para prosseguirmos juntos. Na confusão das vozes e mensagens que nos rodeiam, temos necessidade duma narração humana, que nos fale de nós mesmos e da beleza que nos habita; uma narração que saiba olhar o mundo e os acontecimentos com ternura, conte a nossa participação num tecido vivo, revele o entrançado dos fios pelos quais estamos ligados uns aos outros.

1. Tecer histórias
O homem é um ente narrador. Desde pequenos, temos fome de histórias, como a temos de alimento. Sejam elas em forma de fábula, romance, filme, canção, ou simples notícia, influenciam a nossa vida, mesmo sem termos consciência disso. Muitas vezes, decidimos aquilo que é justo ou errado com base nos personagens e histórias assimiladas. As narrativas marcam-nos, plasmam as nossas convicções e comportamentos, podem ajudar-nos a compreender e dizer quem somos.
O homem não só é o único ser que precisa de vestuário para cobrir a própria vulnerabilidade (cf. Gn 3, 21), mas também o único que tem necessidade de narrar-se a si mesmo, «revestir-se» de histórias para guardar a própria vida. Não tecemos apenas roupa, mas também histórias: de facto, servimo-nos da capacidade humana de «tecer» quer para os tecidos, quer para os textos. As histórias de todos os tempos têm um «tear» comum: a estrutura prevê «heróis» – mesmo do dia-a-dia – que, para encalçar um sonho, enfrentam situações difíceis, combatem o mal movidos por uma força que os torna corajosos, a força do amor. Mergulhando dentro das histórias, podemos voltar a encontrar razões heroicas para enfrentar os desafios da vida.
O homem é um ente narrador, porque em devir: descobre-se e enriquece-se com as tramas dos seus dias. Mas, desde o início, a nossa narração está ameaçada: na história, serpeja o mal.

2. Nem todas as histórias são boas
«Se comeres, tornar-te-ás como Deus» (cf. Gn 3, 4): esta tentação da serpente introduz, na trama da história, um nó difícil de desfazer. «Se possuíres…, tornar-te-ás…, conseguirás…»: sussurra ainda hoje a quem se utiliza do chamado storytelling para fins instrumentais. Quantas histórias nos narcotizam, convencendo-nos de que, para ser felizes, precisamos continuamente de ter, possuir, consumir. Quase não nos damos conta de quão ávidos nos tornamos de bisbilhotices e intrigas, de quanta violência e falsidade consumimos. Frequentemente, nos «teares» da comunicação, em vez de narrações construtivas, que solidificam os laços sociais e o tecido cultural, produzem-se histórias devastadoras e provocatórias, que corroem e rompem os fios frágeis da convivência. Quando se misturam informações não verificadas, repetem discursos banais e falsamentepersuasivos, percutem com proclamações de ódio, está-se, não a tecer a história humana, mas a despojar o homem da sua dignidade.
Mas, enquanto as histórias utilizadas para proveito próprio ou ao serviço do poder têm vida curta, uma história boa é capaz de transpor os confins do espaço e do tempo: à distância de séculos, permanece atual, porque nutre a vida.
Numa época em que se revela cada vez mais sofisticada a falsificação, atingindo níveis exponenciais (o deepfake), precisamos de sapiência para patrocinar e criar narrações belas, verdadeiras e boas. Necessitamos de coragem para rejeitar as falsas e depravadas. Precisamos de paciência e discernimento para descobrirmos histórias que nos ajudem a não perder o fio, no meio das inúmeras lacerações de hoje; histórias que tragam à luz a verdade daquilo que somos, mesmo na heroicidade oculta do dia a dia.

3. A História das histórias
A Sagrada Escritura é uma História de histórias. Quantas vicissitudes, povos, pessoas nos apresenta! Desde o início, mostra-nos um Deus que é simultaneamente criador e narrador: de facto, pronuncia a sua Palavra e as coisas existem (cf. Gn 1). Deus, através deste seu narrar, chama à vida as coisas e, no apogeu, cria o homem e a mulher como seus livres interlocutores, geradores de história juntamente com Ele. Temos um Salmo onde a criatura se conta ao Criador: «Tu modelaste as entranhas do meu ser e teceste-me no seio de minha mãe. Dou-Te graças por me teres feito uma maravilha estupenda (…). Quando os meus ossos estavam a ser formados, e eu, em segredo, me desenvolvia, recamado nas profundezas da terra, nada disso Te era oculto» (Sal 139/138, 13-15). Não nascemos perfeitos, mas necessitamos de ser constantemente «tecidos» e «recamados». A vida foi-nos dada como convite a continuar a tecer a «maravilha estupenda» que somos.
Neste sentido, a Bíblia é a grande história de amor entre Deus e a humanidade. No centro, está Jesus: a sua história leva à perfeição o amor de Deus pelo homem e, ao mesmo tempo, a história de amor do homem por Deus. Assim, o homem será chamado, de geração em geração, a contar e fixar na memória os episódios mais significativos desta História de histórias: os episódios capazes de comunicar o sentido daquilo que aconteceu.
O título desta Mensagem é tirado do livro do Êxodo, narrativa bíblica fundamental que nos faz ver Deus a intervir na história do seu povo. Com efeito, quando os filhos de Israel, escravizados, clamam por Ele, Deus ouve e recorda-Se: «Deus recordou-Se da sua aliança com Abraão, Isaac e Jacob. Deus viu os filhos de Israel e reconheceu-os» (Ex 2, 24-25). Da memória de Deus brota a libertação da opressão, que se verifica através de sinais e prodígios. E aqui o Senhor dá a Moisés o sentido de todos estes sinais: «Para que possas contar e fixar na memória do teu filho e do filho do teu filho (…) os meus sinais que Eu realizei no meio deles. E vós conhecereis que Eu sou o Senhor» (Ex 10, 2). A experiência do Êxodo ensina-nos que o conhecimento de Deus se transmite sobretudo contando, de geração em geração, como Ele continua a tornar-Se presente. O Deus da vida comunica-Se, narrando a vida.
O próprio Jesus falava de Deus, não com discursos abstratos, mas com as parábolas, breves narrativas tiradas da vida de todos os dias. Aqui a vida faz-se história e depois, para o ouvinte, a história faz-se vida: tal narração entra na vida de quem a escuta e transforma-a.
Também os Evangelhos – não por acaso – são narrações. Enquanto nos informam acerca de Jesus, «performam-nos»[1] à imagem de Jesus, configuram-nos a Ele: o Evangelho pede ao leitor que participe da mesma fé para partilhar da mesma vida. O Evangelho de João diz-nos que o Narrador por excelência – o Verbo, a Palavra – fez-Se narração: «O Filho unigénito, que é Deus e está no seio do Pai, foi Ele quem O contou» (1, 18). Usei o termo «contou», porque o original exeghésato tanto se pode traduzir «revelou» como «contou». Deus teceu-Se pessoalmente com a nossa humanidade, dando-nos assim uma nova maneira de tecer as nossas histórias.

4. Uma história que se renova
A história de Cristo não é um património do passado; é a nossa história, sempre atual. Mostra-nos que Deus tomou a peito o homem, a nossa carne, a nossa história, a ponto de Se fazer homem, carne e história. E diz-nos também que não existem histórias humanas insignificantes ou pequenas. Depois que Deus Se fez história, toda a história humana é, de certo modo, história divina. Na história de cada homem, o Pai revê a história do seu Filho descido à terra. Cada história humana tem uma dignidade incancelável. Por isso, a humanidade merece narrações que estejam à sua altura, àquela altura vertiginosa e fascinante a que Jesus a elevou.
Vós «sois uma carta de Cristo – escrevia São Paulo aos Coríntios –, confiada ao nosso ministério, escrita, não com tinta, mas com o Espírito do Deus vivo; não em tábuas de pedra, mas em tábuas de carne que são os vossos corações» (2 Cor 3, 3). O Espírito Santo, o amor de Deus, escreve em nós. E, escrevendo dentro de nós, fixa em nós o bem, recorda-no-lo. De facto, re-cordar significa levar ao coração, «escrever» no coração. Por obra do Espírito Santo, cada história, mesmo a mais esquecida, mesmo aquela que parece escrita em linhas mais tortas, pode tornar-se inspirada, pode renascer como obra-prima, tornando-se um apêndice de Evangelho. Assim as Confissões de Agostinho, o Relato do Peregrino de Inácio, a História de uma alma de Teresinha do Menino Jesus, os Noivos prometidos (Promessi sposi) de Alexandre Manzoni, os Irmãos Karamazov de Fiódor Dostoevskij… e inumeráveis outras histórias, que têm representado admiravelmente o encontro entre a liberdade de Deus e a do homem. Cada um de nós conhece várias histórias que perfumam de Evangelho: testemunham o Amor que transforma a vida. Estas histórias pedem para ser partilhadas, contadas, feitas viver em todos os tempos, com todas as linguagens, por todos os meios.

5. Uma história que nos renova
Em cada grande história, entra em jogo a nossa história. Ao mesmo tempo que lemos a Escritura, as histórias dos Santos e outros textos que souberam ler a alma do homem e trazer à luz a sua beleza, o Espírito Santo fica livre para escrever no nosso coração, renovando em nós a memória daquilo que somos aos olhos de Deus. Quando fazemos memória do amor que nos criou e salvou, quando metemos amor nas nossas histórias diárias, quando tecemos de misericórdia as tramas dos nossos dias, nesse momento estamos a mudar de página. Já não ficamos atados a lamentos e tristezas, ligados a uma memória doente que nos aprisiona o coração, mas, abrindo-nos aos outros, abrimo-nos à própria visão do Narrador. Nunca é inútil narrar a Deus a nossa história: ainda que permaneça inalterada a crónica dos factos, mudam o sentido e a perspetiva. Narrarmo-nos ao Senhor é entrar no seu olhar de amor compassivo por nós e pelos outros. A Ele podemos narrar as histórias que vivemos, levar as pessoas, confiar situações. Com Ele, podemos recompor o tecido da vida, cosendo as ruturas e os rasgões. Quanto nós, todos, precisamos disso!
Com o olhar do Narrador – o único que tem o ponto de vista final –, aproximamo-nos depois dos protagonistas, dos nossos irmãos e irmãs, atores juntamente connosco da história de hoje. Sim, porque ninguém é mero figurante no palco do mundo; a história de cada um está aberta a possibilidades de mudança. Mesmo quando narramos o mal, podemos aprender a deixar o espaço à redenção; podemos reconhecer, no meio do mal, também o dinamismo do bem e dar-lhe espaço.
Por isso, não se trata de seguir as lógicas do storytelling, nem de fazer ou fazer-se publicidade, mas de fazer memória daquilo que somos aos olhos de Deus, testemunhar aquilo que o Espírito escreve nos corações, revelar a cada um que a sua história contém maravilhas estupendas. Para o conseguirmos fazer, confiemo-nos a uma Mulher que teceu a humanidade de Deus no seio e – diz o Evangelho – teceu conjuntamente tudo o que Lhe acontecia. De facto, a Virgem Maria tudo guardou, meditando-o no seu coração (cf. Lc 2, 19). Peçamos-Lhe ajuda a Ela, que soube desatar os nós da vida com a força suave do amor:
Ó Maria, mulher e mãe, Vós tecestes no seio a Palavra divina, Vós narrastes com a vossa vida as magníficas obras de Deus. Ouvi as nossas histórias, guardai-as no vosso coração e fazei vossas também as histórias que ninguém quer escutar. Ensinai-nos a reconhecer o fio bom que guia a história. Olhai o cúmulo de nós em que se emaranhou a nossa vida, paralisando a nossa memória. Pelas vossas mãos delicadas, todos os nós podem ser desatados. Mulher do Espírito, Mãe da confiança, inspirai-nos também a nós. Ajudai-nos a construir histórias de paz, histórias de futuro. E indicai-nos o caminho para as percorrermos juntos.
Roma, em São João de Latrão, na Memória de São Francisco de Sales, 24 de janeiro de 2020.
[Franciscus]

[1] Cf. Bento XVI, Carta enc. Spe salvi (30/XI/2007), 2: «A mensagem cristã não era só "informativa", mas "performativa". Significa isto que o Evangelho não é apenas uma comunicação de realidades que se podem saber, mas uma comunicação que gera factos e muda a vida».

Fonte: http://www.vatican.va/content/francesco/pt/messages/communications/documents/papa-francesco_20200124_messaggio-comunicazioni-sociali.html 

quarta-feira, 13 de maio de 2020

MARIA, MODELO DE ORAÇÃO



Dom Pedro Carlos Cipollini

Introdução
Nos Evangelhos temos três retratos de Maria que devemos trazer bem fixos na mente: O primeiro retrato nos mostra que Maria era toda de Deus. Ela ouvia e meditava a Palavra de Deus, procurando praticá-la. Para Maria Deus falava não só pela Bíblia, mas também pelos fatos da vida. Ao ouvir e observar a Palavra de Deus, Maria encontrava não só a sua felicidade e paz, mas também a causa de seu sofrimento. Nem sempre entendia o que Deus pedia dela. Ela ouvia, meditava e guardava em seu coração (cf. Lc 2,19)… Com razão o anjo lhe diz: “Não tenhas medo, Maria”( Lc 1,30).

Em segundo lugar vemos Maria que era toda do Povo. Atenciosa e preocupada com os outros. Visita Isabel para ajudá-la. Ajuda na festa de casamento em Caná (Jo 2,1). Não abandona os amigos no momento de perigo. Não abandonou Jesus na cruz (cf. Jo 19,25) e nem os Apóstolos no Cenáculo (cf. At 1,14).

Em terceiro lugar ela reza com os amigos. Ficou com os apóstolos rezando até o dia de Pentecostes. Graças à oração de Maria feita junto aos apóstolos, o Espírito Santo desceu em abundância para iniciar a missão da Igreja (cf. At 4,3,31). O segredo da força de Maria era a oração. O cântico de Maria, o Magnificat (cf. Lc 1,46-55), nos mostra muito bem que Maria conhecia os salmos e as Escrituras e orava continuamente. Foi assim que o Espírito Santo veio e fez nascer Jesus e depois a Igreja em Pentecostes. Maria possuía os dons do Espírito Santo que crescem com a oração. (C. Mesters, A mãe de Jesus, Vozes, Petrópolis, 1978, cap. II).

O sociólogo americano Andrew Greeley afirma que Maria representa o “símbolo cultural mais poderoso e popular dos últimos dois mil anos” do ocidente cristão”(cf. in I grandi misteri dela fede. Um catechismo essenziale, Queriniana, Brescia, 1978, 13).

Vamos refletir um pouco sobre Maria que é para nós modelo de oração.
1.   A oração de Jesus e a oração de Maria
a ) Oração de Jesus
A oração e Jesus é constante e profunda. Ela nos introduz na vida de intimidade de Jesus com Deus, a comunhão trinitária. Jesus causou impacto nos discípulos quando perceberam a alegria de Jesus e a intensidade de seu colóquio com o Pai (cf. Lc 11,1). Maria foi a primeira a perceber esta intensidade da oração de Jesus, toda voltada para o Pai. Jesus é o grande orante do Evangelho. Levantava de madrugada para rezar (cf. Mc 1,35), orava à tarde: tendo despedido a multidão, subiu ao monte a sós para rezar (após multiplicar os pães, cf. Mt 14,23). Rezava de noite e antes de tomar grandes decisões como a escolha dos doze apóstolos (cf. Mc 3,10; Lc 6,12).
Os momentos mais importantes e dramáticos da vida de Jesus são acompanhados de oração: no batismo no Jordão (cf. Lc 3,21); antes da transfiguração, reza pela fé de Pedro (cf. Lc 22,31-32), antes da ressurreição de Lázaro (cf. Jo 11,41), reza na última Ceia (cf. Jn 17, 1-5), antes de sua paixão (cf. Lc 22,39), no momento de sua morte (Lc 23,34). Mais que seguir os horários prescritos para a oração no judaísmo, Jesus segue o ritmo do Reino de Deus e seus acontecimentos. Não é um tempo cronológico, mas um tempo salvífico.
Jesus reza não só com palavras ou atitudes corporais (ajoelhar-se, p. ex) mas Ele reza também com o silêncio e a contemplação. Mais que rezar em um lugar ou conforme formulas pré-fabricadas, a oração de Jesus está ligada a uma pessoa: o Pai, com o qual está em contínua comunhão. A última palavra do Jesus terreno é uma oração feita ao Pai: “Pai, em tuas mãos entrego meu espírito”(Lc 23,46).
b ) Oração de Maria
A oração de Maria, assim como a de Jesus é uma oração marcada pela atitude constante de obediência ao Pai, porém através de Jesus, na sua acolhida, marcada também pela contemplação e seguimento. A originalidade da oração de Maria é a contemplação constante do mistério da Encarnação, de seu divino filho Jesus.
Deus nunca tinha revelado seu rosto, ninguém jamais o viu, mas Jesus é a imagem do Deus vivo (cf. Cl 1,15). A Maria se aplica por primeiro a bem-aventurança que diz: “Felizes os olhos que veem o que vocês estão vendo” (Lc 10,23). Maria começa a contemplar o rosto de Deus que se manifesta em um menino do qual ela tem de cuidar e ao mesmo tempo adorar.
Mas o que significa aqui contemplar? É um verbo composto (cum + Templum = estar no Templo) significa habitar em um espaço divino. Maria tem nos braços o criador do universo, por Ele foram feitas todas as coisas (Jo 1,3). A tradição oriental vai chamar Maria de Platytera (mais ampla que os céus), porque trouxe em seu seio e depois em seus braços aquele que criou o universo. Ao acolher Jesus ela acolhe aquele que é eterno e ilimitado.
A tradição oriental representa Maria orante com os braços levantados diante do trono de Jesus Cristo “Pantocrator”, aquele que tudo cria e governa. Em outras representações ela é figurada tendo no peito um medalhão com a figura do menino Jesus. Maria é a grande orante e intercessora do povo de Deus.
No evangelho de São João o conhecimento, a contemplação de Jesus, é a vida eterna (cf. Jo 17,3). Contemplação é pois, o conhecimento amoroso de Jesus. Esta foi a atitude constante de Maria para com seu filho Jesus. A convivência com Jesus não eliminou a necessidade da fé em Maria, talvez tenha aumentado mais ainda esta necessidade fazendo-a abandonar-se totalmente em Deus.
Maria contempla Jesus na fé. Ela é a primeira dos pequenos, aos quais Deus revela seus segredos ocultando-os aos sábios e entendidos (cf. Mt 11,25). Ela é bem aventurada porque acreditou cada dia em meio às provas e contrariedades da vida oculta de Nazaré. Maria contempla também na “escuridão da visão” ou “noite escura da fé”. Estar perto de Jesus não lhe dava o privilégio de saber o que iria acontecer com ele. Há como que um véu que oculta o mistério revelado. Entre Maria e Jesus está este véu que, ao mesmo tempo que revela, oculta o mistério. Maria vivia a intimidade do mistério de seu Filho não em um conhecimento luminoso, mas na fé. Ela realizou uma peregrinação na fé (cf. João Paulo II in RM 17). Enfim Maria viveu sua contemplação de Jesus na fadiga da fé que foi mais exigente para com ela.

Maria, ao mesmo tempo em que vivia na fé, devia oferecer-se constantemente para caminhar mais intensamente e profundamente em seu itinerário. Maria viveu a “obediência da fé” (Rm 16,26). Dela fala o Concílio Vaticano II: “Crendo e obedecendo ela gerou na terra o próprio filho do Pai…” (LG 63). “O nó da desobediência de Eva foi desatado pela obediência de Maria; o que a Virgem Eva ligou pela incredulidade, a Virgem Maria desligou pela fé” (Santo Irineu in Ad. Haer. III, 22,4, PG 7, 959A).

Assim sendo, Maria acompanha a vida de fé de todos os fiéis que desejam percorrer como ela percorreu o itinerário de fé em Jesus. Ela é a primeira na fé. Jesus é a ponte que permite o contato com Deus, Maria é a materna acompanhante que ajuda os fiéis neste itinerário de atravessar esta ponte. Por isso ela pode ser chamada de Mãe da Igreja (cf. Vaticano II – LG 53; Paulo VI Discurso em 1964, AAS 56 (1964) 1015). Por isso se pode dizer com certeza: não se pode ser cristão se não for “mariano”, pois Maria é o modelo de tudo aquilo que a Igreja e cada fiel de ser em relação a Jesus. “Assim, aquela que está presente no mistério de Cristo como mãe, torna-se – por vontade do Filho e por obra do Espírito Santo – presente no mistério da Igreja. “E na Igreja continua a ser uma presença materna, como indicam as palavras pronunciadas na cruz: Mulher, eis o teu filho; Eis tua mãe”. (João Paulo II in RM 24; idem 45).

Vejamos agora as duas vertentes da oração de Maria que o Papa João Paulo II nos aponta: a devocional (Rosário) e a sacramental (Eucaristia)
2.   O Rosário: caminho mariano para a contemplação de Jesus
O Rosário é o caminho mariano para a comunhão com Jesus. Oração que se julgava destinada aos simples e iletrados, revela-se no entanto uma oração com dignidade e elevado poder de contemplação evangélica de Jesus em companhia de Maria. O Rosário é uma oração evangélica centrada sobre o mistério da Encarnação redentora (cf. Paulo VI in Culto à Virgem Maria n. 44 e 46).
No Rosário temos várias modalidades de relacionarmos com o mistério de Cristo através de Maria. O Rosário é oração cristológica, porque, do começo ao fim, nos fala e nos conduz a Jesus. Recordamos Cristo em companhia de Maria, compreendemos Cristo desde Maria, entramos na “escola” de Maria, para compreender Jesus seu filho. Nesta oração procuramos conformar-nos a Cristo com Maria, ou seja ter os mesmos sentimentos de Cristo (cf. Rom 13,14), suplicar a Cristo com Maria. No Rosário ainda, anunciamos a Cristo com Maria.
Estas cinco etapas percorridas com Maria, mediante a oração do Rosário, constitui um verdadeiro caminho de formação na autêntica oração cristã. Redescobrindo o Rosário, verdeio compêndio evangélico, se valoriza um caminho de progresso espiritual simples porém eficaz.
3.   Na escola de Maria, mulher eucarística
O Papa São João Paulo II propôs também um caminho mariano até Jesus: o caminho sacramental da oração eucarística. Assim como Igreja e Eucaristia formam um binômio inseparável, Maria e Eucaristia também. Maria encaminha a Igreja para a Eucaristia. Maria é chamada de Hadegetri, ou seja aquela que educa e acompanha os fiéis para a contemplação de seu Filho Eucarístico e para a comunhão com Ele.
Quatro são as atitudes eucarístico-marianas que a Igreja inteira está chamada a aprender, tendo a Maria como modelo e como ajuda materna eficaz.
a ) Atitude de fé: Há uma relação muito grande entre o sim de Maria ao receber Jesus em seu seio e o sim dos fiéis ao comungarem, recebendo Jesus eucarístico.
b ) Atitude de sacrifício: Maria viveu a dimensão sacrifical da eucaristia desde a apresentação de Jesus no templo até sua morte na cruz. O corpo oferecido em sacrifício é o mesmo corpo ao qual ela deu à luz o Filho de Deus.
c ) Atitude de acolhida: é uma terceira atitude eucarístico-mariana, do alto da cruz, Jesus nos deu Maria como mãe, e a atitude eucarística de acolher o sacrifício da cruz implica também na atitude de acolher Maria.
d ) Atitude do Magnificat: canto de louvor e ação de graças. Quando Maria exclama: “minha alma engrandece ao Senhor, meu espírito exulta em Deus, meu Salvador”, leva Jesus em seu seio. Louva o Pai por Jesus, em Jesus e com Jesus. Esta é precisamente a verdadeira atitude eucarística. No cântico de Maria se revela também a índole escatológica da História que é também da Eucaristia: Deus fará nova todas as coisas. A Eucaristia nos foi dada para que nossa vida seja como a de Maria, toda ela um Magnificat.
Conclusão
Na pedagogia da oração a pessoa de fé encontra em Maria um modelo exemplar. Ela nos ensina que a oração é encontro com Jesus, é acolhida de Jesus em nossa vida, é deixar que Ele nos leve ao Pai. Não podemos render graças a Deus sem associar-nos a Maria porque com ela começou a economia da salvação (cf. P. Farhat in Oriens christianus 3 (1913) 19-21. Somos chamados pela Igreja não somente a rezar a Maria pedindo sua intercessão mas muito mais a rezar com Maria.
“Cada comunidade formativa, dedicará um momento à devoção comunitária a Nossa senhora nos meses de maio e outubro, a ela confiando-se filialmente como Mãe educadora, meditando sua vida e aprendendo dela a total dedicação à própria vocação como serviço a Deus e à humanidade. Serão valorizadas e incentivadas as devoções populares…, a reza frequente do Terço e outras formas de devoção Mariana” (Diocese de Santo André – Formação Presbiteral – Diretório Diocesano (2017) n. 94).
Cristo é o único caminho para o Pai (cf. Jo 14,4-11), porém a Igreja reconhece que a piedade e devoção à Virgem Maria, subordinada e em conexão com a piedade ao Divino Salvador, tem grande eficácia e força renovadora da comunidade cristã no seguimento de Jesus Cristo. Portanto, aprendamos a orar com Maria, porque ela é a Virgem que se dedicou sobremaneira à pratica da oração (cf. Paulo VI in Culto à Virgem Maria n. 18).

27 de março – Terça-feira Santa 2018