domingo, 3 de dezembro de 2017

A CORRIDA DA VIDA – CORDEL DE BRÁULIO BESSA

“Na corrida dessa vida é preciso entender que você vai rastejar, que vai cair, vai sofrer e a vida vai lhe ensinar que se aprende a caminhar e só depois vai correr.
A vida… a vida é uma corrida, que não se corre sozinho. Que Vencer não é chegar é aproveitar o caminho. Sentindo o cheiro das flores e aprendendo com as dores causadas por cada espinho.
Aprenda com cada dor, com cada decepção, com cada vez que alguém lhe partir o coração. O futuro é obscuro e às vezes é no escuro que se enxerga a direção.
Aprenda quando chorar e quando sentir saudade. Aprenda até quando alguém lhe faltar com a verdade. Aprender é um grande dom! Aprenda que até o bom vai aprender com a maldade.
Aprender a desviar das pedras da ingratidão, dos buracos da inveja, das curvas da solidão… expandindo o pensamento, fazendo do sofrimento a sua maior lição, sem parar… sem parar de aprender, aproveite cada flor, cada cheiro no cangote, cada gesto de amor, cada música dançada e também cada risada silenciando o rancor.
Experimente o mundo, prove de todo sabor, sinta o mal, o céu e a terra, sinta o frio e o calor. Sinta a sua caminhada e dê sempre uma parada, pelo caminho que for.
Pare! Pare, não tenha pressa! Não carece acelerar. A vida já é tão curta! É preciso aproveitar essa estranha corrida, que a chegada é a partida… e ninguém pode evitar.
Por isso é que o caminho tem que ser aproveitado deixando pela estrada, algo bom para ser lembrado. Vivendo uma vida plena, fazendo valer a pena, cada passo foi dado.
Aí sim… aí sim, lá na chegada onde o fim é evidente, é que a gente percebe que foi tudo de repente e aprende na despedida, que o sentido dessa vida é sempre seguir em frente.”
Fonte: https://hinodebymirianbrasil.wordpress.com/2017/11/12/a-corrida-da-vida-cordel-de-braulio-bessa-viva-dias-de-alegria/ 

terça-feira, 21 de novembro de 2017

MENSAGEM DO SANTO PADRE FRANCISCO PARA O I DIA MUNDIAL DOS POBRES

MENSAGEM DO SANTO PADRE FRANCISCO
PARA O I DIA MUNDIAL DOS POBRES
XXXIII DOMINGO DO TEMPO COMUM
(19 DE NOVEMBRO DE 2017)

«Não amemos com palavras, mas com obras»

1. «Meus filhinhos, não amemos com palavras nem com a boca, mas com obras e com verdade» (1 Jo 3, 18). Estas palavras do apóstolo João exprimem um imperativo de que nenhum cristão pode prescindir. A importância do mandamento de Jesus, transmitido pelo «discípulo amado» até aos nossos dias, aparece ainda mais acentuada ao contrapor as palavras vazias, que frequentemente se encontram na nossa boca, às obras concretas, as únicas capazes de medir verdadeiramente o que valemos. O amor não admite álibis: quem pretende amar como Jesus amou, deve assumir o seu exemplo, sobretudo quando somos chamados a amar os pobres. Aliás, é bem conhecida a forma de amar do Filho de Deus, e João recorda-a com clareza. Assenta sobre duas colunas mestras: o primeiro a amar foi Deus (cf. 1 Jo 4, 10.19); e amou dando-Se totalmente, incluindo a própria vida (cf. 1 Jo 3, 16).Um amor assim não pode ficar sem resposta. Apesar de ser dado de maneira unilateral, isto é, sem pedir nada em troca, ele abrasa de tal forma o coração, que toda e qualquer pessoa se sente levada a retribuí-lo não obstante as suas limitações e pecados. Isto é possível, se a graça de Deus, a sua caridade misericordiosa, for acolhida no nosso coração a pontos de mover a nossa vontade e os nossos afetos para o amor ao próprio Deus e ao próximo. Deste modo a misericórdia, que brota por assim dizer do coração da Trindade, pode chegar a pôr em movimento a nossa vida e gerar compaixão e obras de misericórdia em prol dos irmãos e irmãs que se encontram em necessidade.
2. «Quando um pobre invoca o Senhor, Ele atende-o» (Sl 34/33, 7). A Igreja compreendeu, desde sempre, a importância de tal invocação. Possuímos um grande testemunho já nas primeiras páginas do Atos dos Apóstolos, quando Pedro pede para se escolher sete homens «cheios do Espírito e de sabedoria» (6, 3), que assumam o serviço de assistência aos pobres. Este é, sem dúvida, um dos primeiros sinais com que a comunidade cristã se apresentou no palco do mundo: o serviço aos mais pobres. Tudo isto foi possível, por ela ter compreendido que a vida dos discípulos de Jesus se devia exprimir numa fraternidade e numa solidariedade tais, que correspondesse ao ensinamento principal do Mestre que tinha proclamado os pobres bem-aventurados herdeiros do Reino dos céus (cf. Mt 5, 3).
«Vendiam terras e outros bens e distribuíam o dinheiro por todos, de acordo com as necessidades de cada um» (At 2, 45). Esta frase mostra, com clareza, como estava viva nos primeiros cristãos tal preocupação. O evangelista Lucas – o autor sagrado que deu mais espaço à misericórdia do que qualquer outro – não está a fazer retórica, quando descreve a prática da partilha na primeira comunidade. Antes pelo contrário, com a sua narração, pretende falar aos fiéis de todas as gerações (e, por conseguinte, também à nossa), procurando sustentá-los no seu testemunho e incentivá-los à ação concreta a favor dos mais necessitados. E o mesmo ensinamento é dado, com igual convicção, pelo apóstolo Tiago, usando expressões fortes e incisivas na sua Carta: «Ouvi, meus amados irmãos: porventura não escolheu Deus os pobres segundo o mundo para serem ricos na fé e herdeiros do Reino que prometeu aos que O amam? Mas vós desonrais o pobre. Porventura não são os ricos que vos oprimem e vos arrastam aos tribunais? (…) De que aproveita, irmãos, que alguém diga que tem fé, se não tiver obras de fé? Acaso essa fé poderá salvá-lo? Se um irmão ou uma irmã estiverem nus e precisarem de alimento quotidiano, e um de vós lhes disser: “Ide em paz, tratai de vos aquecer e matar a fome”, mas não lhes dais o que é necessário ao corpo, de que lhes aproveitará? Assim também a fé: se ela não tiver obras, está completamente morta» (2, 5-6.14-17).
3. Contudo, houve momentos em que os cristãos não escutaram profundamente este apelo, deixando-se contagiar pela mentalidade mundana. Mas o Espírito Santo não deixou de os chamar a manterem o olhar fixo no essencial. Com efeito, fez surgir homens e mulheres que, de vários modos, ofereceram a sua vida ao serviço dos pobres. Nestes dois mil anos, quantas páginas de história foram escritas por cristãos que, com toda a simplicidade e humildade, serviram os seus irmãos mais pobres, animados por uma generosa fantasia da caridade!
Dentre todos, destaca-se o exemplo de Francisco de Assis, que foi seguido por tantos outros homens e mulheres santos, ao longo dos séculos. Não se contentou com abraçar e dar esmola aos leprosos, mas decidiu ir a Gúbio para estar junto com eles. Ele mesmo identificou neste encontro a viragem da sua conversão: «Quando estava nos meus pecados, parecia-me deveras insuportável ver os leprosos. E o próprio Senhor levou-me para o meio deles e usei de misericórdia para com eles. E, ao afastar-me deles, aquilo que antes me parecia amargo converteu-se para mim em doçura da alma e do corpo» (Test 1-3: FF 110). Este testemunho mostra a força transformadora da caridade e o estilo de vida dos cristãos.
Não pensemos nos pobres apenas como destinatários duma boa obra de voluntariado, que se pratica uma vez por semana, ou, menos ainda, de gestos improvisados de boa vontade para pôr a consciência em paz. Estas experiências, embora válidas e úteis a fim de sensibilizar para as necessidades de tantos irmãos e para as injustiças que frequentemente são a sua causa, deveriam abrir a um verdadeiro encontro com os pobres e dar lugar a uma partilha que se torne estilo de vida. Na verdade, a oração, o caminho do discipulado e a conversão encontram, na caridade que se torna partilha, a prova da sua autenticidade evangélica. E deste modo de viver derivam alegria e serenidade de espírito, porque se toca com as mãos a carne de Cristo. Se realmente queremos encontrar Cristo, é preciso que toquemos o seu corpo no corpo chagado dos pobres, como resposta à comunhão sacramental recebida na Eucaristia. O Corpo de Cristo, partido na sagrada liturgia, deixa-se encontrar pela caridade partilhada no rosto e na pessoa dos irmãos e irmãs mais frágeis. Continuam a ressoar de grande atualidade estas palavras do santo bispo Crisóstomo: «Queres honrar o corpo de Cristo? Não permitas que seja desprezado nos seus membros, isto é, nos pobres que não têm que vestir, nem O honres aqui no tempo com vestes de seda, enquanto lá fora O abandonas ao frio e à nudez» (Hom. in Matthaeum, 50, 3: PG 58).
Portanto somos chamados a estender a mão aos pobres, a encontrá-los, fixá-los nos olhos, abraçá-los, para lhes fazer sentir o calor do amor que rompe o círculo da solidão. A sua mão estendida para nós é também um convite a sairmos das nossas certezas e comodidades e a reconhecermos o valor que a pobreza encerra em si mesma.
4. Não esqueçamos que, para os discípulos de Cristo, a pobreza é, antes de mais, uma vocação a seguir Jesus pobre. É um caminho atrás d’Ele e com Ele: um caminho que conduz à bem-aventurança do Reino dos céus (cf. Mt 5, 3; Lc 6, 20). Pobreza significa um coração humilde, que sabe acolher a sua condição de criatura limitada e pecadora, vencendo a tentação de omnipotência que cria em nós a ilusão de ser imortal. A pobreza é uma atitude do coração que impede de conceber como objetivo de vida e condição para a felicidade o dinheiro, a carreira e o luxo. Mais, é a pobreza que cria as condições para assumir livremente as responsabilidades pessoais e sociais, não obstante as próprias limitações, confiando na proximidade de Deus e vivendo apoiados pela sua graça. Assim entendida, a pobreza é o metro que permite avaliar o uso correto dos bens materiais e também viver de modo não egoísta nem possessivo os laços e os afetos (cf. Catecismo da Igreja Católica, n. 25-45).
Assumamos, pois, o exemplo de São Francisco, testemunha da pobreza genuína. Ele, precisamente por ter os olhos fixos em Cristo, soube reconhecê-Lo e servi-Lo nos pobres. Por conseguinte, se desejamos dar o nosso contributo eficaz para a mudança da história, gerando verdadeiro desenvolvimento, é necessário escutar o grito dos pobres e comprometermo-nos a erguê-los do seu estado de marginalização. Ao mesmo tempo recordo, aos pobres que vivem nas nossas cidades e nas nossas comunidades, para não perderem o sentido da pobreza evangélica que trazem impresso na sua vida.
5. Conhecemos a grande dificuldade que há, no mundo contemporâneo, de poder identificar claramente a pobreza. E todavia esta interpela-nos todos os dias com os seus inúmeros rostos marcados pelo sofrimento, pela marginalização, pela opressão, pela violência, pelas torturas e a prisão, pela guerra, pela privação da liberdade e da dignidade, pela ignorância e pelo analfabetismo, pela emergência sanitária e pela falta de trabalho, pelo tráfico de pessoas e pela escravidão, pelo exílio e a miséria, pela migração forçada. A pobreza tem o rosto de mulheres, homens e crianças explorados para vis interesses, espezinhados pelas lógicas perversas do poder e do dinheiro. Como é impiedoso e nunca completo o elenco que se é constrangido a elaborar à vista da pobreza, fruto da injustiça social, da miséria moral, da avidez de poucos e da indiferença generalizada!
Infelizmente, nos nossos dias, enquanto sobressai cada vez mais a riqueza descarada que se acumula nas mãos de poucos privilegiados, frequentemente acompanhada pela ilegalidade e a exploração ofensiva da dignidade humana, causa escândalo a extensão da pobreza a grandes sectores da sociedade no mundo inteiro. Perante este cenário, não se pode permanecer inerte e, menos ainda, resignado. À pobreza que inibe o espírito de iniciativa de tantos jovens, impedindo-os de encontrar um trabalho, à pobreza que anestesia o sentido de responsabilidade, induzindo a preferir a abdicação e a busca de favoritismos, à pobreza que envenena os poços da participação e restringe os espaços do profissionalismo, humilhando assim o mérito de quem trabalha e produz: a tudo isso é preciso responder com uma nova visão da vida e da sociedade.
Todos estes pobres – como gostava de dizer o Beato Paulo VI – pertencem à Igreja por «direito evangélico» (Discurso de aberturana II Sessão do Concílio Ecuménico Vaticano II, 29/IX/1963) e obrigam à opção fundamental por eles. Por isso, benditas as mãos que se abrem para acolher os pobres e socorrê-los: são mãos que levam esperança. Benditas as mãos que superam toda a barreira de cultura, religião e nacionalidade, derramando óleo de consolação nas chagas da humanidade. Benditas as mãos que se abrem sem pedir nada em troca, sem «se» nem «mas», nem «talvez»: são mãos que fazem descer sobre os irmãos a bênção de Deus.
6. No termo do Jubileu da Misericórdia, quis oferecer à Igreja o Dia Mundial dos Pobres, para que as comunidades cristãs se tornem, em todo o mundo, cada vez mais e melhor sinal concreto da caridade de Cristo pelos últimos e os mais carenciados. Quero que, aos outros Dias Mundiais instituídos pelos meus Predecessores e sendo já tradição na vida das nossas comunidades, se acrescente este, que completa o conjunto de tais Dias com um elemento requintadamente evangélico, isto é, a predileção de Jesus pelos pobres.
Convido a Igreja inteira e os homens e mulheres de boa vontade a fixar o olhar, neste dia, em todos aqueles que estendem as suas mãos invocando ajuda e pedindo a nossa solidariedade. São nossos irmãos e irmãs, criados e amados pelo único Pai celeste. Este Dia pretende estimular, em primeiro lugar, os crentes, para que reajam à cultura do descarte e do desperdício, assumindo a cultura do encontro. Ao mesmo tempo, o convite é dirigido a todos, independentemente da sua pertença religiosa, para que se abram à partilha com os pobres em todas as formas de solidariedade, como sinal concreto de fraternidade. Deus criou o céu e a terra para todos; foram os homens que, infelizmente, ergueram fronteiras, muros e recintos, traindo o dom originário destinado à humanidade sem qualquer exclusão.
7. Desejo que, na semana anterior ao Dia Mundial dos Pobres – que este ano será no dia 19 de novembro, XXXIII domingo do Tempo Comum –, as comunidades cristãs se empenhem na criação de muitos momentos de encontro e amizade, de solidariedade e ajuda concreta. Poderão ainda convidar os pobres e os voluntários para participarem, juntos, na Eucaristia deste domingo, de modo que, no domingo seguinte, a celebração da Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo Rei do Universo resulte ainda mais autêntica. Na verdade, a realeza de Cristo aparece em todo o seu significado precisamente no Gólgota, quando o Inocente, pregado na cruz, pobre, nu e privado de tudo, encarna e revela a plenitude do amor de Deus. O seu completo abandono ao Pai, ao mesmo tempo que exprime a sua pobreza total, torna evidente a força deste Amor, que O ressuscita para uma vida nova no dia de Páscoa.
Neste domingo, se viverem no nosso bairro pobres que buscam proteção e ajuda, aproximemo-nos deles: será um momento propício para encontrar o Deus que buscamos. Como ensina a Sagrada Escritura (cf. Gn 18, 3-5; Heb 13, 2), acolhamo-los como hóspedes privilegiados à nossa mesa; poderão ser mestres, que nos ajudam a viver de maneira mais coerente a fé. Com a sua confiança e a disponibilidade para aceitar ajuda, mostram-nos, de forma sóbria e muitas vezes feliz, como é decisivo vivermos do essencial e abandonarmo-nos à providência do Pai.
8. Na base das múltiplas iniciativas concretas que se poderão realizar neste Dia, esteja sempre a oração. Não esqueçamos que o Pai Nosso é a oração dos pobres. De facto, o pedido do pão exprime o abandono a Deus nas necessidades primárias da nossa vida. Tudo o que Jesus nos ensinou com esta oração exprime e recolhe o grito de quem sofre pela precariedade da existência e a falta do necessário. Aos discípulos que Lhe pediam para os ensinar a rezar, Jesus respondeu com as palavras dos pobres que se dirigem ao único Pai, em quem todos se reconhecem como irmãos. O Pai Nosso é uma oração que se exprime no plural: o pão que se pede é «nosso», e isto implica partilha, comparticipação e responsabilidade comum. Nesta oração, todos reconhecemos a exigência de superar qualquer forma de egoísmo, para termos acesso à alegria do acolhimento recíproco.
9. Aos irmãos bispos, aos sacerdotes, aos diáconos – que, por vocação, têm a missão de apoiar os pobres –, às pessoas consagradas, às associações, aos movimentos e ao vasto mundo do voluntariado, peço que se comprometam para que, com este Dia Mundial dos Pobres, se instaure uma tradição que seja contribuição concreta para a evangelização no mundo contemporâneo.
Que este novo Dia Mundial se torne, pois, um forte apelo à nossa consciência crente, para ficarmos cada vez mais convictos de que partilhar com os pobres permite-nos compreender o Evangelho na sua verdade mais profunda. Os pobres não são um problema: são um recurso de que lançar mão para acolher e viver a essência do Evangelho.
Vaticano, Memória de Santo António de Lisboa, 13 de junho de 2017.
Franciscus

Fonte: https://w2.vatican.va/content/francesco/pt/messages/poveri/documents/papa-francesco_20170613_messaggio-i-giornatamondiale-poveri-2017.html

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

A INSPIRAÇÃO QUE VEM DE ASSIS: O CARISMA FUNDACIONAL

Todo carisma se dá na confluência de pelo menos três elementos, entre si diversos, mas, ao final, em surpreendente afinidade: Deus e sua gratuidade, o ser humano e sua sensibilidade, o tempo e suas vicissitudes. Sim, Deus é a fonte dos carismas, e os distribui a quem, quando e como lhe aprouver: não há como merecê-los nem forçá-los, são gratuitos. Ao concedê-los, Deus respeita a sensibilidade humana, que tem poder de acolhida ou recusa, de adesão ou fuga à graça. Ao longo do caminhar da Igreja, o Espírito Santo irrompe em diferentes tempos e lugares, obedecendo a desígnios que desconhecemos, surpreendendo-nos por vezes com inesperadas primaveras. Nesse caminhar afloram os carismas. Mas que são eles?
O carisma é graça (charis), dom, manifestação do Espírito em pessoas escolhidas, habilitando-as a iniciativas novas e especiais (vocação) em favor da comunidade eclesial, seja na linha do serviço, do testemunho, da profecia, da misericórdia, da evangelização… Visa mais o bem dos outros que o próprio. O Espírito Santo provê a Igreja de pessoas carismáticas que possam responder criativa e evangelicamente às urgências dos tempos e lugares (sinais dos tempos). Não obstante sua absoluta gratuidade, o carisma conta sempre com a participação humana: sensibilidade, acolhida, docilidade, compromisso das pessoas a quem é concedido…
O Carisma fundacional de uma família religiosa, como a Família Franciscana, resulta de uma experiência do Espírito, que se torna experiência fundante e que, em seguida, passa aos discípulos e discípulas para ser vivida, custodiada e desenvolvida em proveito do povo de Deus e do Reino. É claro que nos fundadores e fundadoras existe uma especificidade do carisma que lhes é própria e exclusiva. É claro também que o carisma transmitido não é nenhuma camisa de força, inflexível, a ser reproduzido repetitivamente, na marra, mas um dom benfazejo, aberto à dinâmica permanente do Espírito, que impele as pessoas a recriarem, no tempo presente, uma história parecida com a das origens, sob o influxo do mesmo espírito. O discernimento espiritual é imprescindível para a fidelidade criativa ao carisma dos fundadores.
Quando Francisco, naquele certo dia, encontrou-se com o Evangelho, este lhe soou como uma revelação e um convite: a exemplo de Jesus Cristo, tornar-se pequeno, menor, despojado de poder e riqueza, e ir, assim, pelo mundo anunciando o Reino de Deus e a conversão. Francisco e, em seguida, Clara e os respectivos grupos desencadearam, assim, um movimento evangélico-penitencial que, em boa parte, correspondia aos anseios do tempo.
Seria, seguramente, inadequado considerar a vida franciscana quase como uma verdade caída do céu, da qual Francisco ou Clara de Assis seriam apenas simplórios receptores ou meros executores de uma revelação sobrenatural. As fontes testemunham que, ao ouvir o referido texto do Evangelho, Francisco teria dito, segundo a versão de Celano: É isto que eu quero, é isto que eu procuro, é isto que eu desejo fazer do íntimo do coração. Ou, segundo a versão do Anônimo Perusino: Eis o que desejamos, eis o que procurávamos… Esta será a nossa regra. Parece uma significativa coincidência. É como se Francisco, desde sempre, procurasse aquilo que ora lhe é revelado e encontrasse, finalmente, o que, nas penumbras de suas inquietudes, há tempos, buscava. O Evangelho não lhe é estranho, antes corresponde em cheio a suas aspirações, como se fosse a clara e convincente resposta a suas próprias buscas. Desde sua experiência de prisioneiro, Francisco vivia decepcionado com o sistema de então, fundado na servidão e em relações de vassalagem, e sonhava com outras formas de convivência. Tudo isto constitui o chão de onde ele ouve a voz do Evangelho.
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1. Verdadeiramente, tudo quanto há de belo na história do mundo foi feito às nossas ocultas por um misterioso acordo entre a humilde e ardente paciência do homem e a doce piedade de Deus (E. Leclerc, Desterro e ternura. Braga: Ed. Franciscana, 7).
2.Cf. S. Congregação para os Religiosos e S. Congregação para os Bispos, Mutuae Relationes. 1978.

Trecho do Documento da FFB “Reviver o Sonho de Francisco e Clara de Assis no Chão da América Latina e do Caribe”
Fonte: http://www.franciscanos.org.br/?p=46242 

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

PAPA ANUNCIA O SÍNODO PARA A PAN-AMAZÔNIA

Cidade do Vaticano (RV) – Antes de rezar a oração mariana do Angelus, o Papa fez neste domingo (15/10) um anúncio surpreendente, que diz respeito de perto à nossa realidade. Após saudar todos os peregrinos e delegações oficiais de Brasil, França, Itália, México, Ordem de Malta e Espanha, países de origem dos santos recém-canonizados, Francisco disse:
“Atendendo o desejo de algumas Conferências Episcopais da América Latina, assim como ouvindo a voz de muitos pastores e fiéis de várias partes do mundo, decidi convocar uma Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos para a região Pan-amazônicaO Sínodo será em Roma, em outubro de 2019. O objetivo principal desta convocação é identificar novos caminhos para a evangelização daquela porção do Povo de Deus, especialmente dos indígenas, frequentemente esquecidos e sem perspectivas de um futuro sereno, também por causa da crise da Floresta Amazônica, pulmão de capital importância para nosso planeta. Que os novos Santos intercedam por este evento eclesial para que, no respeito da beleza da Criação, todos os povos da terra louvem a Deus, Senhor do universo, e por Ele iluminados, percorram caminhos de justiça e de paz”.
Há vários meses, tem-se cogitado a realização de um encontro do Papa no Vaticano com os bispos de toda a região (9 países compõem a Pan-Amazônia) para avaliar os desafios e buscar respostas comuns para seus mais de 30 milhões de habitantes.
Em maio de 2017, o Cardeal Cláudio Hummes, Presidente da REPAM, Rede Eclesial Pan-amazônica, entrevistado pela RV, ressaltou a importância de dois aspectos fundamentais: “o propriamente missionário e evangelizador naquela região, e a questão ecológica: a importância da floresta Amazônica e a ameaça que ela está sofrendo de destruição, de degradação, de desmatamento, etc.”.
A REPAM trabalha em sintonia com a Santa Sé, Conselho Episcopal Latino-americano (CELAM), Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), Secretariado da América Latina e Caribe de Caritas (SELACC) e Confederação Latino-americana e Caribenha de Religiosos e Religiosas (CLAR).

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

FÉ E DESEJO DE MUDAR O MUNDO

Uma fé autêntica é alimentada pelo desejo de mudar o mundo, transmitir valores e, através de uma ação transformadora, empenhar-se em prol da justiça e do serviço da caridade. Sabe que a política é o espaço de organização de uma "justa ordem da sociedade e do Estado", cabendo à "Igreja não ficar à margem na luta pela justiça" (Bento XVI, encíclica Caritas in Veritate, n. 28). Fé e política caminham muito próximas, sem que uma se reduza à outra ou ocupe o lugar da outra, oferecendo, na verdade, uma à outra, a sua força purificadora, a libertação de cegueiras, ajudando a cada uma ser mais ela mesma na realização de sua missão. Assim, fé e vida estão unidas na construção do mundo.

Frei Nilo Agostini, ofm.
Folhinha do Sagrado Coração de Jesus
Dia 24/09/2017

sábado, 2 de setembro de 2017

“EXTINÇÃO DA RENCA VILIPENDIA DEMOCRACIA BRASILEIRA", afirmam bispos da Repam

Comissão Episcopal para a Amazônia da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e Rede Eclesial Pan-Amazônica (REPAM) emitiram uma nota de repúdio ao decreto que extingue a Reserva Nacional de Cobre e seus Associados (RENCA).

O documento, divulgado no dia 28 de agosto, é assinado por uma coalizão formada por aproximadamente 200 bispos católicos dos países da Pan-Amazônia Brasil, Bolívia, Colômbia, Equador, Guiana, Guiana Francesa, Peru, Venezuela e Suriname.

A Rede Eclesial Pan-Amazônica (Repam) divulgou nota nesta segunda-feira, 28, na qual repudia a extinção da Reserva Nacional de Cobre e Associados (Renca), feita pelo Governo Federal na última quarta-feira. No texto, o organismo vinculado à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) considera que o decreto baixado pelo Executivo “vilipendia a democracia brasileira, pois com o objetivo de atrair novos investimentos ao país o Governo brasileiro consultou apenas empresas interessadas em explorar a região”.
De acordo com a Repam, nenhuma consulta aos povos indígenas e comunidades tradicionais foi realizada, como manda o Artigo 231 da Constituição Federal de 1988 e a Convenção 169, da Organização Internacional do Trabalho (OIT). “O Governo cede aos grandes empresários da mineração que solicitam há anos sua extinção e às pressões da bancada de parlamentares vinculados às companhias extrativas que financiam suas campanhas”, lê-se no texto.
A manifestação da Repam ainda cita como consequências à extinção da área o aumento do desmatamento; a perda irreparável da biodiversidade; a impossibilidade de garantir a proteção da floresta, das unidades de conservação e das terras indígenas; além de representar uma ameaça política para o Brasil inteiro, “impondo mais pressão sobre as terras indígenas e Unidades de Conservação”.
Leia o texto na íntegra, que é assinado pelo presidente da Comissão Episcopal para a Amazônia da CNBB e também da Repam, cardeal Cláudio Hummes, e pelo Presidente da Repam-Brasil e Secretário da Comissão Episcopal para a Amazônia da CNBB, dom Erwin Kräutler:

Brasília, 28 de agosto de 2017

Nota de repúdio ao Decreto Presidencial que extingue a RENCA

Ouvimos o grito da terra e o grito dos pobres
A Rede Eclesial Pan-Amazônica (REPAM), ligada ao Conselho Episcopal Latino-Americano e do Caribe (CELAM), e no Brasil organismo vinculado à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), juntamente com a Comissão Episcopal para a Amazônia, da CNBB, por meio de sua Presidência, unida à Igreja Católica da Pan-Amazônia e à sociedade brasileira, em especial aos povos das Terras Indígenas Waãpi e Rio Paru D’Este, vem a público repudiar o anúncio antidemocrático do Decreto Presidencial, altamente danoso, que extingue a Reserva Nacional de Cobre e seus Associados (RENCA) na última quarta-feira (23).
A RENCA é uma área de reserva, na Amazônia, com 46.450 km2 – tamanho do território da Dinamarca. A região engloba nove áreas protegidas, sendo três delas de proteção integral: o Parque Nacional Montanhas do Tumucumaque, as Florestas Estaduais do Paru e do Amapá; a Reserva Biológica de Maicuru, a Estação Ecológica do Jari, a Reserva Extrativista Rio Cajari, a Reserva de Desenvolvimento Sustentável do Rio Iratapuru e as Terras Indígenas Waiãpi e Rio Paru d`Este. A abertura da área para a exploração mineral de cobre, ouro, diamante, ferro, nióbio, entre outros, aumentará o desmatamento, a perda irreparável da biodiversidade e os impactos negativos contra os povos de toda a região.
O Decreto de extinção da RENCA vilipendia a democracia brasileira, pois com o objetivo de atrair novos investimentos ao país o Governo brasileiro consultou apenas empresas interessadas em explorar a região. Nenhuma consulta aos povos indígenas e comunidades tradicionais foi realizada, como manda o Artigo 231 da Constituição Federal de 1988 e a Convenção 169, da Organização Internacional do Trabalho (OIT). O Governo cede aos grandes empresários da mineração que solicitam há anos sua extinção e às pressões da bancada de parlamentares vinculados às companhias extrativas que financiam suas campanhas.
Ao contrário do que afirma o Governo em nota, ao abrir a região para o setor da mineração, não haverá como garantir proteção da floresta, das unidades de conservação e muito menos das terras indígenas – que serão diretamente atingidas de forma violenta e irreversível. Basta observar o rastro de destruição que as mineradoras brasileiras e estrangeiras têm deixado na Amazônia nas últimas décadas: desmatamento, poluição, comprometimento dos recursos hídricos pelo alto consumo de água para a mineração e sua contaminação com substâncias químicas, aumento de violência, droga e prostituição, acirramento dos conflitos pela terra, agressão descontrolada às culturas e modos de vida das comunidades indígenas e tradicionais, com grandes isenções de impostos, mas mínimos benefícios para as populações da região.
Riscos ambientais e sociais incalculáveis ameaçam o “pulmão do Planeta repleto de biodiversidade” que é a Amazônia, como nos lembra Papa Francisco na carta encíclica Laudato Si, alertando que “há propostas de internacionalização da Amazônia que só servem aos interesses econômicos das corporações internacionais” (LS 38). A política não deve submeter-se à economia e aos ditames e ao paradigma eficientista da tecnocracia, pois a prioridade deverá ser sempre a vida, a dignidade da pessoa e o cuidado com a Casa Comum, a Mãe Terra. Em Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia, em 9 de julho de 2015, o papa Francisco não hesitou em proclamar: “digamos não a uma economia de exclusão e desigualdade, onde o dinheiro reina em vez de servir. Esta economia mata. Esta economia exclui. Esta economia destrói a mãe terra”.
Na LS, o papa Francisco alerta ainda que “o drama de uma política focalizada nos resultados imediatos (…) torna necessário produzir crescimento a curto prazo” (LS 178).
Ao contrário, para ele “no debate, devem ter lugar privilegiado os moradores locais, aqueles mesmos que se interrogam sobre o que desejam para si e para os seus filhos e podem ter em consideração as finalidades que transcendem o interesse econômico imediato” (LS 183).
A extinção da Renca representa uma ameaça política para o Brasil inteiro, impondo mais pressão sobre as terras indígenas e Unidades de Conservação, e abrindo espaço para que outras pautas sejam flexibilizadas, como a autorização para exploração mineral em terras indígenas, proibida pelo atual Código Mineral.
Por todos esses motivos, nos unimos às Dioceses locais do Amapá e de Santarém, aos ambientalistas e à parcela da sociedade que, por meio de manifestações nas redes sociais e de abaixo-assinados, pedem a imediata sustação do Decreto Presidencial que extingue a Reserva.
Convocamos as senhoras e os senhores parlamentares a defenderem a Amazônia, impedindo que mais mineradoras destruam um dos nossos maiores patrimônios naturais.
Não nos resignemos à degradação humana e ambiental! Unamos esforços em favor da vida dos povos que vivem no bioma amazônico. O futuro das gerações vindouras está em nossas mãos!
Que Deus nos anime no mais fundo de nossos corações e nos ilumine e confirme na busca da tão sonhada Terra Sem Males.
Dom Cláudio Cardeal Hummes
Presidente da REPAM e da Comissão Episcopal para a Amazônia

Dom Erwin Kräutler
Presidente da REPAM-Brasil e Secretário da Comissão Episcopal para a Amazônia

quinta-feira, 24 de agosto de 2017

FRANCISCANISMO E EVANGELIZAÇÃO, COM FREI NILO


Foto: Igor Fernandes



O Master evangelização recebeu de braços abertos Frei Nilo Agostini, OFM, que lecionou a disciplina “Franciscanismo e Evangelização”.

Nilo é doutor em Teologia, professor do ITF e da USF, pesquisador, escritor e conferencista na área da Ética Cristã ou Teologia Moral.

Nessa Entrevista ele nos conta sobre a evangelização na América Latina, a vocação franciscana, sua experiência como redator da Revista Grande Sinal, e fala também sobre o MasterConfira!

Os Frades Menores foram protagonistas da evangelização da América Latina, dedicando-se a uma evangelização integral: o anúncio da Palavra de Deus acompanhado pelo cuidado do corpo e da vida. O senhor acha que os frades ainda se destacam no cenário latino-americano, no campo missionário?
Fica claro, como bem se expressou o documento final do Congresso Missionário OFM da América Latina, em Córdoba, de 2008, que os frades franciscanos foram “protagonistas na evangelização da América Latina, esmerando-se desde o início para que os missionários viessem bem preparados e como verdadeiros ‘apóstolos’, numa presença pacífica, o que contrastava com o projeto dos conquistadores”.
Hoje, os frades se destacam por sua presença, conscientes da necessidade de “ouvir tanto o clamor da terra como o clamor dos pobres” (LS, 49), como afirma a “Carta de Aparecida” do Capítulo das Esteira ali celebrado.  Isto se faz seguindo o apelo de retomar a evangelização como “razão de ser da Ordem”, feita pelo Papa João Paulo II já no Capítulo de San Diego (1991); a partir de então, a evangelização passa a ser retomada como eixo central que define o modo próprio de ser da Ordem no mundo de hoje. Isto está muito bem expresso no documento “Encher a terra com o Evangelho de Cristo”, do ex-ministro geral Frei Hermann Schalück, texto no qual pude contribuir na redação final. Certamente, isto faz com que os frades se destaquem na missão de evangelizar, antes de tudo pelo testemunho da vida fraterna e, em seguida, pela proclamação da palavra. A fraternidade torna-se a realidade primeira e o lugar privilegiado onde vivemos a nossa forma evangélica de vida, constituindo uma “fraternidade evangelizadora” e, a partir dela, vivendo e anunciando o Evangelho no seguimento de Jesus Cristo.

Como o senhor vê a evangelização no Brasil, hoje? Quais os maiores desafios a serem enfrentados?
A Igreja Católica no Brasil distingue-se, nas últimas décadas, por “uma nova tomada de consciência da missão que Cristo confiou à Igreja: a evangelização” (XXXVII Assembleia Geral, Diretrizes da ação evangelizadora da Igreja no Brasil – 1999-2001, n. 10). Nós franciscanos, especialmente a OFM, partilhamos com a Igreja no Brasil a consciência de que a evangelização é o eixo central que perpassa toda a vida da Igreja e sua missão, como fruto do amadurecimento vivenciado nas últimas décadas, resultado de uma renovação empreendida a partir e em torno do Concílio Vaticano II. Permanecem, no entanto, dois desafios: 1. Necessitamos sempre de novo reavivar a memória da missão evangelizadora que nos foi confiada, pois como Igreja a nossa vocação não é outra senão evangelizar; 2. Com realismo, precisamos saber ler os sinais dos tempos, ou seja, as interpelações que Deus nos faz em meio aos acontecimentos e as realidades deste tempo, o que nos chama a responder à altura os desafios que se apresentam, com novas expressões e novos caminhos, sempre que necessário, para que a missão de encarnar o Evangelho tenha em conta as realidades culturais e sociais de nosso tempo.

A missão está no coração da vocação franciscana e desde o descobrimento do Brasil, os frades desempenharam um papel importante nesse setor. Hoje em dia, como os franciscanos têm marcado presença nessa área?
Os frades se fazem presente sendo testemunhas de Deus, inicialmente pela vida em fraternidade, desmascarando os “falsos deuses” desta época… É uma presença profético-crítica, atentos ao Espírito do Senhor e ao seu santo modo de operar. Este testemunho de vida, mais cedo ou mais tarde, precisa igualmente ser proclamado pela palavra para que o Evangelho de Jesus Cristo seja integralmente anunciado. Neste anúncio, os frades distinguem-se pela consciência da necessidade de uma presença inculturada, aberta à missão ad gentes, tendo claro a opção pelos pobres e o cultivo da justiça, a paz e a integridade da criação. Esmeram-se igualmente os frades no cultivo de uma atitude ecumênica e na promoção do diálogo inter-religioso, sem receio de fazerem-se presentes nos novos areópagos. Vejo também o cuidado de não soçobrar diante das estruturas para que não se perca a força profética e evangélica de nossa presença, de nosso carisma, bem como o cuidado de promover a solidariedade em meio a um crescente individualismo. Para isso, faz-se necessário que nossa formação esteja toda perpassada pela evangelização com estas características.

Qual a contribuição que o Master em Evangelização pode dar àqueles que participam do curso.
Master em Evangelização é um meio eficaz para que se aprofunde a nossa missão evangelizadora, assumindo-a realmente como eixo central de nossa vida em cada fraternidade. Importa permear nossas fraternidades locais e provinciais da consciência de que todos os irmãos, leigos ou clérigos, em igual grau de pertença e forma evangélica de vida, fazem parte da fraternidade evangelizadora. Em meio à multiplicidade de abordagens deste curso, cabe a cada participante elaborar sua síntese e partilhar com os irmãos e/ou entidades de origem a riqueza que consegue colher. Como professor deste Master, senti que este é um momento de graça! Cabe vivenciá-lo em toda a sua riqueza.

O senhor foi redator de Grande Sinal: revista de espiritualidade, editada pelo Instituto Teológico Franciscano. Poderia contar um pouco de sua experiência nesse âmbito? Há algum fato que o tenha marcado de maneira especial?
Nos 11 anos em que fui redator da Revista de Espiritualidade Grande Sinal, tornamos claro que o cuidado editorial da Revista, bem como da REB e da Sedoc, eram obra do Instituto Teológico Franciscano, cabendo à Editora Vozes a sua impressão e comercialização. Nestas revistas, cabia estampar a marca do Instituto. No tocante à Grande Sinal, tivemos o cuidado de veicular não somente a espiritualidade dos Religiosas ou da Vida Consagrada, mas a espiritualidade de todo cristão, de maneira aberta. É bom notar que em sua origem a Revista nasceu para as Religiosas, com o nome de Sponsa Christi. Nos anos de Redator, organizamos o Conselho Editorial e o Conselho Consultivo, sendo que o primeiro foi muito ativo na programação e concepção deste periódico e o segundo propiciou uma percepção da revista a partir de diferentes ambientes e visões. Foi um trabalho altamente enriquecedor.

A espiritualidade pode, de alguma forma, auxiliar no trabalho missionário?
A espiritualidade não só pode auxiliar no trabalho missionário, mas ela é imprescindível. Nós vivemos a missão de evangelizar como itinerantes contemplativos. Antes de tudo, deve nos mover uma espiritualidade da comunhão, primeiro entre os irmãos da fraternidade e, logo em seguida, na comunidade eclesial, irradiando o que brota de nossas raízes. A fraternidade torna-se uma “escola de amor”, sobretudo num contexto de individualismo exacerbado. A nossa realização passa pela vida em fraternidade. A espiritualidade que nos anima em fraternidade é, por sua vez, profundamente arraigada em Jesus Cristo e seu Evangelho, residindo aí a nossa razão de ser. Entendemos que Francisco, ao ouvir a leitura da passagem do Evangelho, onde se fala do envio dos apóstolos para a missão, tenha exclamado: “É isso que eu quero, isso que procuro, é isso que eu desejo fazer de todo o coração” (1Cel 22). As palavras do Evangelho transformam-se para Francisco em palavras do Espírito Santo, que são “espírito e vida” (cf. 2CFi 3; Adm 7,4; Test 13). Como fraternidade de menores, assumimos a vida de pobreza, escolhemos a condição dos pequenos, numa “entrega total ao Senhor” (cf. LegM, Milagres, X, 8). Cabe deixar-nos conduzir pelo Espirito Santo; Ele é o mistagogo do itinerário espiritual de cada pessoa, nos levando a beber da fonte trinitária. Para São Francisco, a Ordem só tinha um Ministro Geral, que é o Espírito Santo.

Conte-nos um pouco sobre o livro que lançou, recentemente.
Este livro leva-nos ao conhecimento e aprofundamento dos fundamentos da Moral cristã segundo a experiência percorrida e vivenciada pela Igreja Católica, sobretudo após o Concílio Vaticano II. Temos como pano de fundo o contexto de mudanças e de crise de nossos dias, bem como a chance de responder à altura aos desafios de nosso tempo. Ao buscar a riqueza que brota de nossas raízes, somos levados a partilhá-la, oferecendo-a a todos que, em meio a este tempo de mudanças, buscam iluminação, segurança, respostas para fazer face aos novos desafios. Isto se dá em meio a um diálogo a ser travado na contemporaneidade. Porém, não basta refugiar-se no passado; é necessário nos mobilizar a partir de nossa identidade, de nossa riqueza e colocarmo-nos em missão, a fim de colaborar com a humanidade, num empenho comum.
Com este livro, não temos a pretensão de esgotar o que brota de nossas raízes cristãs. Antes, cabe-nos ter fôlego, coragem e esperança, para deixar-nos surpreender pela presença de Deus que, no Seu Espírito, nos chama “a elaborar novas respostas para os problemas novos do mundo atual” (JOÃO PAULO II. Exortação apostólica Vita Consecrata, n. 73). Sabemos que “o Espírito sabe dar as respostas apropriadas mesmo às questões mais difíceis” (Ibidem, 73). Tudo está atravessado pelo desígnio de Deus e banhado por seu Amor.

*Frei Nilo Agostini, ofm

*Frade da Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil, Doutor em Teologia pela Universidade de Ciências Humanas de Strasbourg, França. Docente no Curso de Pós-graduação Stricto Sensu em Educação na USF (Universidade São Francisco). Reitor do ITF nos anos de 1991 a 1996.

quinta-feira, 15 de junho de 2017

CORPUS CHRISTI: REFLEXÃO DO PAPA FRANCISCO

“O Senhor, teu Deus, (…) te alimentou com o maná, que tu não conhecias” (Dt 8,3).
Estas palavras de Moisés fazem referência à história de Israel, que Deus fez sair do Egito, da condição de escravidão, e por quarenta anos o guiou no deserto para a terra prometida. Uma vez estabelecido na terra, o povo eleito atingiu uma autonomia, um bem-estar, e correu o risco de esquecer as tristes vicissitudes do passado, superadas graças à intervenção de Deus e à sua infinita bondade. Então as Escrituras exortam a recordar, a fazer memória de todo o caminho feito no deserto, no tempo da penúria e do desconforto. O convite de Moisés é o de voltar ao essencial, à experiência de total dependência de Deus, quando a sobrevivência foi colocada em suas mãos, para que o homem compreendesse que “não vive apenas de pão, mas de tudo aquilo que procede da boca do Senhor” (Dt 8,3).
Além da fome material o homem leva consigo outra fome, uma fome que não pode ser saciada com comida comum. É a fome de vida, fome de amor, fome de eternidade. O sinal do maná – como toda experiência do êxodo – continha em si também esta dimensão: era figura de uma comida que sacia esta fome mais profunda que existe no homem. Jesus nos dá este alimento, assim, é Ele mesmo o pão vivo que dá vida ao mundo. Seu Corpo é verdadeira comida sob a espécie de pão; seu Sangue é verdadeira bebida sob a espécie de vinho. Não é um simples alimento com o qual sacia nossos corpos, como o maná; o Corpo de Cristo é o pão dos últimos tempos, capaz de dar vida, e vida eterna, porque a substancia deste pão é Amor.
Na Eucaristia se comunica o amor do Senhor por nós: um amor tão grande que nos nutre com Si mesmo; um amor gratuito, sempre à disposição de todos os famintos e necessitados de restaurar as próprias forças. Viver a experiência da fé significa deixar-se alimentar pelo Senhor e construir a própria existência não sobre bens materiais, mas sobre a realidade que não perece: os dons de Deus, sua Palavra e seu Corpo.
Se olharmos ao nosso redor, daremos conta de que existem tantas ofertas de alimento que não vem do Senhor e que aparentemente satisfazem mais. Alguns se nutrem com o dinheiro, outros com o sucesso e com a vaidade, outros com o poder e com o orgulho. Mas a comida que nos alimenta verdadeiramente e que nos sacia é somente aquela que nos dá o Senhor! O alimento que nos oferece o Senhor é diferente dos outros e talvez não nos pareça assim saboroso como certas iguarias que nos oferecem o mundo. Agora sonhamos com outros alimentos, como os hebreus no deserto que choravam a carne e as cebolas que comiam no Egito, mas esqueciam que aqueles alimentos eram comidos na mesa da escravidão. Eles, naqueles momentos de tentação, tinham memória, mas uma memória doente, uma memória seletiva.
Cada um de nós, hoje, pode se perguntar: e eu? Onde quero comer? Em que mesa quero me alimentar? Na mesa do Senhor? Desejo comer comidas gostosas, mas na escravidão? Qual é minha memória? Aquela do Senhor que me salva ou a do alho e das cebolas da escravidão? Com que lembrança eu satisfaço minha alma?
O Pai nos diz: “Te alimentei com o maná que tu não conhecias”. Recuperemos a memória e aprendamos a reconhecer o pão falso que ilude e corrompe, porque fruto do egoísmo, da auto-suficiência e do pecado.
Daqui a pouco, na procissão, seguiremos Jesus realmente presente na Eucaristia. A Hóstia é nosso maná, mediante o qual o Senhor nos dá a si mesmo. A Ele nos dirigimos com fé: Jesus, defende-nos das tentações do alimento mundano que nos faz escravos; purifica nossa memória, para que não se torne prisioneira da seletividade egoísta e mundana, mas seja memória viva da tua presença ao longo da história do teu povo, memória que faz “memorial” do teu gesto de amor redentor. Amém.

terça-feira, 13 de junho de 2017

SANTO ANTÔNIO E A DOAÇÃO DE SI MESMO

Não é amor a busca de si, mas a doação de si

“Hoje se fala tanto de maturidade humana como um estilo de vida, um modo de ser que faz o homem capaz de cumprir com serenidade e com satisfação a própria missão, sem perder o equilíbrio diante de dificuldades, mesmo graves, que se encontram no decorrer da vida. Entende-se que o homem é um “ser para”. Ele possui uma personalidade harmoniosa na medida em que sabe viver pelos outros e com os outros”(Dom Alberto Taveira Corrêa).

Santo Antônio: Sua vida fez-se dedicação completa, numa doação de si mesmo. Ele não brincava de religião. Ele não usava Deus como um talismã. Ele se deixava atrair por Deus e se consumia na graça de Deus, transformando-se a fim de dedicar sua vida, sem reservas, ao amor de Deus que o animava. Santo Antônio se transcendia a cada dia; era homem de superação. Mesmo com saúde frágil, ei-lo pronto, disposto a qualquer sacrifício. Exigia o melhor de si mesmo e se dispunha inteiro na doação de si para o Reino de Deus.

Para Santo Antônio, nada é demais quando nos sentimos atraídos por Deus e animados ante a proposta de Cristo. Ele fez de sua vida uma doação completa. Santo Antônio é exemplo de dedicação. “Sua própria vida era oferecida como uma oferta suave a Deus. Nele, um dos maiores milagres aconteceu; a vela, por mais que queimasse, não se consumia. Realizava-se nele uma das maiores lições que precisamos aprender: não precisamos nos economizar para Deus e para o serviço dos outros. Aqui, a lógica é diferente, isto é, quanto mais nos gastamos, mais crescemos. É o milagre da multiplicação, não de pães e peixes, mas de vidas que se dispõem a servir. Imagino o que aconteceria se cada um de nós se dedicasse a Jesus Cristo da mesma maneira e com a mesma intensidade de Antônio. Muitos poderiam intervir e acrescentar: mas era um santo. No entanto, não podemos nos esquecer de que, antes de ser santo, ele era, de fato e de verdade, um discípulo e missionário de Jesus Cristo”, numa doação total de si. (ROSSI, Luiz A. S. Nos passos de Santo Antônio. São Paulo: Paulus).

“Se alguém quiser vir comigo, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me” (Mt 16, 24).

Ele não se limitava somente às palavras. Empenhava-se, concretamente, em favor dos pobres, lutando contra as leis dos poderosos de Pádua, opondo-se aos tiranos da Itália. Mesmo com a saúde debilitada por causa de uma doença que o dificultava a ficar em pé, não recusava a nenhum pedido de ajuda, mesmo que isso lhe custasse a vida.

"Através de Santo Antônio, Nosso Senhor está convidando continuamente os cristãos a pensarem no bem do próximo, a amarem o próximo como a si mesmos e a darem uma atenção especial ao necessitado, ao pobre. O cristão celebra a própria vocação de poder imitar a dadivosidade e a generosidade de Deus criador e de Jesus Cristo, pois como diz Jesus: 'Recebestes de graça, de graça dai' (Mt 10,8). É uma graça poder dar. poder partilhar. Dar de graça, ser generoso, pensar no bem comum, no bem do próximo, promover a vida do próximo, eis o mistério revelado no símbolo do pão de Santo António. Não se dá apenas uma esmola. Podemos e devemos dar o trabalho, o tempo, a atenção, o perdão, a seriedade e a honestidade em nossa ação profissional que vale muito mais do que o dinheiro" (Frei Alberto Beckhäuser).

sábado, 3 de junho de 2017

A VIDA ANIMADA PELO ESPÍRITO SANTO

1. O Espírito em ação!
“A cada um é dada a manifestação do Espírito em vista do bem comum” (1Cor 12,7). “O amor de Deus se derramou em nossos corações pelo Espírito Santo, que nos foi dado” (Rm 5,5). Com estes textos, podemos traduzir as virtudes como a força de Deus, derramada pelo seu Espírito. Esta comunicação da força de Deus faz com que o ser virtuoso, que define o ser cristão, possa ser identificado como viver segundo o Espírito. Portanto, nas virtudes está em ação o dinamismo do Espírito Santo. Não cabe a nós querermos controlar a sua ação. Igualmente, não há como ficar de braços cruzados ante o seu sopro. O cristão virtuoso sente-se, portanto, impulsionado a viver como Jesus e a ir na direção que o Espírito indicar.

2. Verdade, justiça, honestidade
A verdade, a justiça e a honestidade devem sempre acompanhar nossas vidas. Precisam ser escritas no próprio coração. Na crise ética de hoje, nem sempre se vive assim. Há muita mentira, injustiça, corrupção, roubalheira e abuso de poder. Falta ética; falta moral. Encontramos pessoas que até acham que isso é normal. Quando isto acontece, é sinal de que a consciência está ficando deformada, acostumando-se com o erro, a mentira, enfim a maldade. É muito grave. O cristão, que vive a fé, busca sempre o bem e a verdade; quer um mundo justo para todos e cultiva a honestidade. Sabe que tudo isto é precioso aos olhos de Deus.

3. Cristão não vive de braços cruzados
Um cristão e uma cristã virtuosos não ficam só olhando de fora a vida acontecer; não ficam isolados. Participam! Estão presentes na família, participam da comunidade, se interessam pela sociedade. Buscam gerar vida nova, no vigor da prática. Semeiam a justiça para colher a paz. Cultivam a honestidade para superar a corrupção. São fraternos e vivem a comunidade. Sentem-se responsáveis para com suas famílias. Estendem a mão ao necessitado. Lutam por uma sociedade justa. Querem uma política que cuide do que é de todos e não vire roubalheira. Sentem que Deus nos chama a sermos seus colaboradores na construção deste mundo.

4. Ser um cristão virtuoso

O cristão virtuoso participa do combate de Deus contra as forças do mal (cf. Ef 6,10-12). Segundo nos diz São Paulo (cf. Ef 6,13-17), o cristão participa deste combate com “a armadura de Deus”, cinge-se com “o cinturão da verdade”, reveste-se com “a couraça da justiça”, sempre pronto a “anunciar a boa-nova da paz”, protegendo-se a todo tempo com “o escudo da fé”, tomando “o capacete da salvação” e empunhando “espada do espírito, que é a palavra de Deus”. Neste combate, ele é chamado a cultivar as virtudes morais (prudência, justiça, fortaleza e temperança) e a viver as virtudes teologais (fé, esperança e caridade).